Semana On

Quinta-Feira 30.jun.2022

Ano X - Nº 493

Coluna

A guerra é aqui

Por um dia onde a segurança será construída com bases na proteção, no comum, na solidariedade entre o próprio povo

Postado em 26 de Maio de 2022 - Túlio Batista Franco

Fernando Frazão - Agência Brasil Fernando Frazão - Agência Brasil

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Confesso que comecei esta semana tentando pensar algo que fosse bom, bonito de se ver, para trazer a esta coluna. Acredito muito que a alegria nos fortalece, aumenta nossa energia vital, torna a nossa existência mais leve e harmônica com o mundo em que vivemos. Fiquei pensando então em um texto que fosse fonte de alegria.

Esse exercício foi fortemente abalado com a notícia de uma operação da truculenta polícia carioca nos morros onde moram pessoas pobres, pretas e que na terça-feira, dia 24 de maio, foi alvo de tiroteios, gritos, humilhações, impostos a uma população acuada. O resultado foram 26 mortos (os números são controversos), resultado que deixou as entidades de defesa dos direitos humanos perplexas diante da letalidade da ação dos policiais. Além do fato de que a esta população falta tudo, serviços públicos, proteção, renda, apoio, solidariedade.

Na quarta-feira, dia 25 de maio, foi a vez de vermos, perplexos, em um dia ensolarado sob o céu de Sergipe, agentes da polícia rodoviária federal (em minúsculas, sim), matarem diante dos olhos de seus amigos e familiares, um homem de 38 anos, pai, marido, após uma abordagem por falta de capacete quando pilotava uma moto. O assassinato se deu por asfixia com gás, introduzido no porta-malas do carro dos agentes públicos, onde foi colocado o homem, feito câmara mortífera. O mundo inteiro protestou, lembrando, inclusive, o marcado episódio referente a George Floyd, nos EUA, morto por asfixia mecânica, também por policiais, há dois anos atrás.

Esses casos ocorridos aqui, e de repercussão internacional, concentrados em uma mesma semana, infelizmente não são fatos isolados. Sempre houve esta violência, marcada por um estado inquisitorial e leniente, com milícias urbanas e rurais, igualmente violentas. Neste cenário, se juntam as já conhecidas violações dos territórios indígenas e quilombolas, com resultados devastadores sobre suas populações.

O mundo sonha com um dia de paz no Brasil, um futuro certamente longínquo, que passa pela desmilitarização da sociedade, a proibição do uso de armas, a construção de uma segurança comunitária. Lembrando que a palavra segurança vem do latim “securitas”, que significa afastar qualquer tipo de risco. Então, a segurança que interessa deve vir de pessoas que organizam entre si o cuidado de uma determinada comunidade. Guardar o território, zelar pelas pessoas, cultivar valores comunitários, construção do comum e do solidário. Uma segurança com estas características pode ser uma utopia, mas é necessário começar a falar da sua possibilidade, para que um dia se torne realidade.

O exemplo vem dos povos originários, que diante da ameaça ao seu mundo, as florestas, e da ineficácia do governo em defendê-la, organizaram uma segurança própria, associada à comunidade local: “Dentro da floresta amazônica existe um grupo organizado de vigilantes indígenas que se arrisca para proteger o que ainda resta do território de etnias Guajajara, Kaapor e Awa-Guajá, no Maranhão. São os ‘Guardiões da Floresta[1], nos informa o Instituto Humanitas Unisinos. Eles atuam em várias regiões do Maranhão, principalmente na terra indígena Arariboia, um território com 413 mil hectares, no sudoeste do estado, onde vivem 12 mil indígenas. O grupo identifica e vigia as trilhas abertas pelos madeireiros ilegais e flagra a ação dos criminosos.

Mas não só de ações de vigilância sobre àqueles que destroem a natureza vivem os guardiões, eles cuidam do meio ambiente, da sua cultura. Afirmam todo tempo que a natureza é como uma mãe, à qual eles protegem junto com seu povo. “Nós somos os guardiões da floresta. Sabemos onde semear, plantar e quando é hora de colher”, afirma Rayanne Cristine Máximo França, ativista indígena da Amazônia brasileira, da tribo Baré[2].

Mais uma vez aprendemos com as práticas que vêm de um pensamento ancestral. Fica a referência para reflexões em torno de uma proposta de segurança para o dia, não sei quando, em que formos capazes de uma vida em comunidade, onde a segurança continuará sendo uma questão, mas construída com bases na proteção, no comum, na solidariedade entre o próprio povo.

 

[1] https://bitlybr.com/EQ2QqgFD

[2] https://bitlybr.com/AYFwp


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