Semana On

Quinta-Feira 30.jun.2022

Ano X - Nº 493

Coluna

Bolsonaro derrete

O jornalista Victor Barone resume a semana política

Postado em 26 de Maio de 2022 - Victor Barone

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Bolsonaro se organizou para uma disputa em dois turnos. No primeiro, cultivaria a fidelidade do pedaço mais radical do eleitorado para assegurar sua presença no round final. No segundo turno, sacudiria o lençol do fantasma da comunização do país para derrotar Lula. Os índices de avaliação do governo e a taxa de rejeição do presidente demonstram que a estratégia não está funcionando. O desafio de Bolsonaro passou a ser impedir que seu rival prevaleça em turno único.

A despeito do populismo eleitoral de Bolsonaro, o Datafolha revela que a avaliação do governo Bolsonaro se manteve estacionada desde março, com variações dentro da margem de erro. A aprovação é mixuruca. Apenas 25% consideram o governo ótimo ou bom. A reprovação é graúda: 48%. Bolsonaro ostenta a pior avaliação já atribuída a um presidente no período pós-redemocratização. Continua ostentado o título de candidato mais rejeitado: 54% dos eleitores declaram que jamais votariam nele. Na outra ponta, Lula saboreou um declínio da sua rejeição de 37% para 33%.

A alta rejeição de Bolsonaro e a escassez de alternativas conspiram a favor da vitória de Lula em primeiro turno. Bolsonaro vai se tornando candidato favorito ao título de primeiro presidente a não obter a reeleição para um segundo mandato no Brasil pós-redemocratização. O capitão talvez se arrependa de ter contribuído com sua pancadaria para empurrar as candidaturas de Sergio Moro e João Doria no desfiladeiro.

Por Josias de Souza

A nova pesquisa do Datafolha apresentou a Bolsonaro a conta da ruína econômica e do destrambelhamento retórico. A inflação e o desemprego custaram ao presidente a ampliação da liderança de Lula entre os mais pobres, que decidem a eleição. O flerte com o golpismo resultou no confinamento do capitão no seu cercadinho radical. Bolsonaro adiou sua tradicional live das noites de quinta-feira para esta sexta-feira. Ganhou tempo para digerir dois números duros de roer: Lula abriu uma dianteira de 21 pontos. Alcançou 54% das intenções de votos válidos, o que lhe renderia uma vitória no primeiro turno se a eleição fosse hoje.

Bolsonaro leva uma surra de Lula entre os eleitores que mais sofrem com a crise econômica. No Nordeste, região mais pobre do país, a vantagem de Lula sobre Bolsonaro é de 45 pontos (62% a 17%). Em março, quando Sergio Moro e João Doria ainda estavam na disputa, essa diferença era de 35 pontos. Os eleitores nordestinos são, proporcionalmente, os que mais recebem o Auxílio Brasil, que passou a pagar R$ 400 reais em janeiro. Pois Lula prevalece sobre Bolsonaro entre os beneficiários do programa que substituiu o Bolsa Família com uma dianteira de 39 pontos (59% a 20%).

Entre os desempregados, Lula abriu 41 pontos de vantagem sobre Bolsonaro (57% a 16%). Num recorte que inclui o eleitorado com renda familiar mensal de até dois salários mínimos, a maioria do eleitorado, Lula está 36 pontos à frente de Bolsonaro (56% a 20%). De lambuja, Lula exibe 37 pontos de dianteira entre os jovens de 16 a 24 anos (58% a 21%). Nesse item, o Datafolha talvez tenha captado o efeito Anita —ou efeito Di Caprio—, que estimulou o eleitorado juvenil a requisitar o primeiro título de eleitor.

O que o Datafolha revela é que a inflação rosna para Bolsonaro e sorri para Lula. A pesquisa esfrega a realidade no discurso do presidente. Faltam ao eleitor comida, dinheiro, trabalho e tranquilidade. Bolsonaro oferece armas, ataques a Alexandre de Moraes, perdão para o Daniel Silveira e intervenção na Petrobras. São coisas que não enchem a barriga nem o bolso de ninguém. Lula joga com a memória dos seus dois mandatos, escondendo a ruína recessiva de Dilma. O antipetismo ainda pulsa, mas a ruína e a raiva de Bolsonaro viraram cabos eleitorais de Lula. Numa eleição convertida em plebiscito sobre o resultado do governo, o presidente derrota a si mesmo. O nome do jogo é inflação. O apelido é carestia.

Por Josias de Souza

NANISMO

O ministro Fábio Faria, os operadores do centrão e os filhos de Bolsonaro detestam a realidade revelada pelas pesquisas do Datafolha. Mas, numa campanha à reeleição de um presidente em apuros, a realidade é o único lugar onde se pode obter uma estratégia tentar atenuar o desastre. Os fatos não deixam de existir porque são ignorados. O risco que correm pessoas como o ministro das Comunicações, os caciques do centrão e a família Bolsonaro, que não levam em conta a realidade é que a realidade também deixe de levá-los em conta.

No seu esforço para se consolidar como leais ao presidente, devotos como Fábio Faria dispensam a Bolsonaro um tratamento parecido ao de uma personagem de ficção criada pelo escritor gaúcho Josué Guimarães —uma mulher que diminuía diariamente de tamanho. Os familiares se esforçavam para que ela não percebesse o próprio encolhimento. Rebaixavam os móveis, serravam os pés de mesas e cadeiras.

A diferença no caso de Fabio Faria e seus congêneres é que eles rebaixam a estatura de Bolsonaro sem adaptar a mobília. Prefere serrar os dados do Datafolha, desmerecendo o mesmo instituto que já usaram para enaltecer o chefe quando os números lhes pareceram favoráveis. O bolsonarismo demora a notar. Mas o negacionismo de pesquisa é um flerte com o ridículo.

Por Josias de Souza

OMISSÃO

Bolsonaro demora a se manifestar sobre a morte de Genivaldo de Jesus Santos, o brasileiro preto e pobre que agentes da Polícia Rodoviária Federal assassinaram na cidade de Umbaúba, em Sergipe. Não foi por falta de oportunidade. Questionado, o presidente disse que precisaria se informar melhor. Fez uma referência esquisita a outro caso que lhe teria chegado "há duas semanas". Envolveria "dois policiais executados por um marginal" no Ceará. Foi como se insinuasse que o desfecho de Sergipe seria adequado, pois os policiais continuavam vivos.

A hesitação de Bolsonaro contrastou com a tenacidade exibida por ele quando correu à redes sociais para parabenizar os policiais "guerreiros" que participaram da chacina ocorrida na Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro. Esperava-se por uma palavra de solidariedade a Genivaldo na live da noite de quinta-feira. Mas a transmissão foi adiada para esta sexta. Quem visitou nesta madrugada as redes sociais de Bolsonaro não encontrou uma mísera menção ao assassinato de Sergipe.

Em algum momento o presidente terá de dizer algo. Mas, diga o que disser, será tarde. Certos silêncios merecem um minuto de barulho. O silêncio de Bolsonaro diante da execução de Genivaldo no porta-malas de uma viatura policial convertida em câmara de gás é de uma eloquência ensurdecedora. Já se sabia que o presidente vê na celebração da barbárie policial uma fonte de votos. Mas impressiona a demora de Bolsonaro em perceber que o silêncio, além de ser aviltante, sinaliza cúmplice diante de um assassinato testemunhado por várias pessoas e filmado pela câmera do celular de uma delas.

Por Josias de Souza

OGRONEGÓCIO

O show do cantor sertanejo Gusttavo Lima em Brasília, no último dia 21, foi marcado por um discurso de viés político com frases comuns ao presidente Jair Bolsonaro. Do palco, o narrador de rodeios Cuiabano Lima, que foi garoto propaganda do Auxílio Emergencial e já discursou em manifestações bolsonaristas, gritou frases como “aqui nunca vai ser o comunismo”.

TIRO NO PÉ

Bastante esperado pela internet, o debate entre o pré-candidato do PDT à Presidência da República, Ciro Gomes, e o humorista Gregório Duvivier finalmente aconteceu no último dia 20. Por um lado, Ciro Gomes centrou seus ataques contra o ex-presidente Lula, pré-candidato do PT. Por outro, Gregório Duvivier saiu em defesa das pautas petistas e criticou a disseminação do anti-petismo, negando quase todo o tempo as críticas do presidenciável ao ex-aliado e hoje adversário.

ANTIPROCURADOR

Sob o comando do antiprocurador Augusto Aras, a Procuradoria-Geral da República vive dias turbulentos. É grande e crescente o desconforto dos colegas com a indisposição do procurador-geral para o exercício do ofício de procurar. Normalmente, as críticas soam entre quatro paredes. Mas às vezes explodem barracos do nada, diante das câmeras. Foi o que sucedeu numa sessão do Conselho Superior da PGR, no último dia 24. Não fosse pela intervenção da turma do "deixa disso", o rififi teria evoluído para uma troca de socos de Aras com o subprocurador-geral da República Nívio de Freitas.

Por Josias de Souza

AH, ENTÃO TÁ BEM...

O comandante Aeronáutica, brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Júnior, convidou os jornalistas para um café da manhã. Serviu informações sobre os projetos estratégicos de defesa da Força Aérea Brasileira. Lero vai, lero vem perguntaram ao brigadeiro sobre o papel que as Forças Armadas e a Força Aérea Brasileira desempenharão em outubro se as urnas não sorrirem para Bolsonaro. E ele: "A FAB é legalista, vamos cumprir as leis". Indagou-se também ao brigadeiro se confia nas urnas eletrônicas. Ele achou melhor se esconder atrás da abstenção: "Vou me abster de falar sobre política". No último mês de janeiro, em entrevista à Folha, Carlos Baptista havia sido questionado sobre o que fariam os militares caso Lula fosse eleito. Disse o seguinte na ocasião: "Nós prestaremos continência a qualquer comandante supremo das Forças Armadas, sempre". O comentário não soou bem aos tímpanos de Bolsonaro. Daí o receio de arriscar um comentário sobre o sistema eleitoral eletrônico. A esse ponto chegou a democracia brasileira. O presidente da República joga as "minhas Forças Armadas" contra a Justiça Eleitoral, afirma que o povo armado será força auxiliar dos militares na defesa das liberdades e anuncia que pode haver "confusão" na eleição. Um comandante militar é compelido a dizer o óbvio —"Vamos cumprir as leis"— e sua manifestação desce ao noticiário como se fosse um barbitúrico. A democracia brasileira adoeceu.

Por Josias de Souza

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Bolsonaro aplaudido por engano: confira a cena em que apoiadores aplaudem o presidente ao confundirem a crítica dele sobre alta dos combustíveis com um anúncio de gasolina mais barata

SÓ HÁ UM EXTREMO NESTA CAMPANHA, O DA DIREITA

ELA AGRADECE...

A médica psiquiátrica Nise da Silva, referência mundial no tratamento manicomial, teve sua inclusão vetada pelo presidente da República no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. A decisão saiu na edição de quarta-feira (25) do Diário Oficial da União. Na Mensagem 251, dirigida à presidência do Senado, Jair Bolsonaro alega “contrariedade ao interesse público”. Vários protestos circularam em redes sociais. “É um desrespeito absurdo à ciência brasileira!”, reagiu, por exemplo, a Associação Nacional de Pós Graduandos (ANPG). “Ela foi responsável pelo fim do confinamento, lobotomia e eletrochoque em pacientes, humanizando os tratamentos.” Formada em Medicina pela Universidade Federal da Bahia, Nise nasceu em 1905, em Maceió, e morreu em 1999, no Rio de Janeiro. Em sua atividade, desenvolveu o uso da arte e de animais de estimação como parte de tratamentos. Há 70 anos, ela criou o Museu de Imagens do Inconsciente.

GENTE DE BEM

Os moradores da cidade de Umbaúba, no litoral sul de Sergipe, flagraram uma abordagem policial que resultou em morte, na quarta-feira (25). Um homem foi morto depois de ser preso por dois policiais rodoviários federais dentro de uma “câmara de gás” montada no porta-malas da viatura da PRF. Durante o Holocausto, câmaras de gás foram projetadas como parte da política nazista de genocídio contra judeus. Os nazistas também tinham como alvo ciganos, homossexuais, deficientes físicos e mentais, intelectuais e do clero. A estratégia foi usada para matar milhões de pessoas entre 1941 e 1945.

GENTE DE BEM 2

A prefeitura de Almirante Tamandaré (PR) afastou a médica Mariana de Lima Alves de suas funções em uma UPA após a profissional de saúde viralizar nas redes com xingamentos contra os próprios pacientes. Internautas ficaram indignados com comentários ofensivos da médica nas redes e o caso viralizou. Em postagem no último dia 21, a médica afirma que o paciente tem que ser “muito filha de uma p***” para ir à 1h da manhã no pronto-socorro por infecção urinária. Não tem outra expressão para descrever”. Outra imagem mostra a mesma conta criticando gestantes, no dia 17 de maio às 14h14. “As gestantes são tudo referenciadas de maternidade porta aberta e vem para a UPA [Unidade de Pronto Atendimento] quando começa a parir. P*** que pariu, mulher. Me deixa em paz”, escreveu ela. No dia 11 de maio, às 15h27, outra publicação também chamou atenção dos usuários das redes sociais. “Hoje o paciente virou para mim e disse: ‘O meu problema é que eu tenho duas amígdalas’. Amígdalas is the new [é o novo] ‘eu tenho tireoide'”, publicou Mari Lima. Em abril, no dia 17, às 9h14, ela ainda comentou: “Qual a tara de vir no pronto-socorro num feriado por uma coisa que você já tá sentindo há mais de 30 dias.” Mariana foi contratada por meio de uma empresa terceirizada, para realizar plantões médicos todas as terças-feiras na UPA da cidade. Ela deletou seu perfil nas redes após a repercussão de suas manifestações.

FRASES DA SEMANA

“Será uma campanha dura, difícil, mas muito esperançosa. Precisamos ampliar alianças, colocar cada vez mais a campanha na rua e tratar dos problemas do povo, como desemprego, fome, desnutrição. Isso aglutina, junta as pessoas”. (José Guimarães, vice-presidente nacional do PT)

“Parabéns aos guerreiros do BOPE e dos que neutralizaram pelo menos 20 marginais ligados ao narcotráfico em confronto, após serem atacados a tiros durante operação contra líderes de facção criminosa.” (Bolsonaro, sobre a chacina com 25 mortos na favela Vila Cruzeiro, no Rio)

O MDB continua com três bandas fortes definidas. Uma é Bolsonaro, ali mais ao Sul e em Brasília. Mato Grosso e São Paulo preferem a candidatura de Simone Tebet. E Norte e Nordeste preferem o Lula”. (Renan Calheiros, senador do MDB-AL, aliado de Lula)

“Continuo no PSDB. Só tive um partido, tenho 22 anos de PSDB, eu não mudei de partido, eu não mudo e não vou mudar de partido, mas eu tenho compreensão que, no momento, o meu gesto pode ajudar a sigla”. (João Doria, ao desistir de sua candidatura à vaga de Bolsonaro)

“Amai-vos e não vos armais para continuar a urgente missão que Deus colocou em seus ombros, de uma família com o coração voltado para a construção de um Brasil onde todos tenham vida”. (Angélico Bernardino, bispo da Igreja Católica, que celebrou o casamento de Lula com Janja)

“Podemos não pegar todos, mas os mais importantes nós vamos pegar.” (Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal, que investiga as milícias digitais responsáveis pela disseminação de notícias falsas e manifestações hostis à democracia)

“É uma grande honra estar aqui com você. Muito obrigado, você é um visionário. Você é brilhante. Todos no Brasil amam você”. (Fabio Faria, ministro das Comunicações, em saudação a Elon Musk, o homem mais rico do mundo, que no futuro deverá ser seu chefe)


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