Semana On

Terça-Feira 05.jul.2022

Ano X - Nº 494

Especial

A pobreza avança

Má gestão econômica, insensibilidade social e foco na reeleição aprofundam a crise sob o bolsonarismo

Postado em 20 de Maio de 2022 - Leonardo Sakamoto (UOL), Luigi Mazza (Piauí), Raquel Rolnik e Aluízio Marino (LabCidade) - Edição Semana On

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O presidente Jair Bolsonaro (PL) afirmou, no último dia 16, concordar que, no governo do ex-presidente Lula, os brasileiros viviam melhor. A declaração foi dada a seus apoiadores na porta do Palácio do Alvorada.

Ele culpa as medidas de distanciamento social adotadas durante a pandemia de covid-19 para salvar vidas e a guerra na Ucrânia pela situação da economia sob seu governo ser pior que durante a gestão do petista.

"Falaram: 'no tempo dele [Lula], o povo vivia um pouco melhor do que hoje'. É lógico que vivia, concordo! Temos um pós-pandemia, do 'fique em casa', economia a gente vê depois, uma guerra, entre outros problemas", afirmou Bolsonaro.

O comentário ocorreu em um momento em que ele acusava a gestão dos ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff de corrupção. E afirmou que a vida poderia ter sido ainda melhor se não houvesse desvio de recursos públicos.

"Mas lá atrás, se se vivia melhor, poderia ter vivido muito, mas muito melhor ainda se não tivesse roubado tanto", afirmou.

Bolsonaro vem sofrendo o impacto da queda do poder de compra dos trabalhadores sobre a aprovação de seu governo e, portanto, de seus índices eleitorais.

Com a alta no preço do leite, da batata, do óleo de soja, do pão francês, da carne, do etanol, do diesel, o Brasil registrou a maior inflação para o mês de abril desde 1996, com o IPCA marcando 1,06%.

De acordo com o Dieese, o custo dos alimentos em abril cresceu nas 17 capitais avaliadas mensalmente pelo instituto. Com isso, o preço da cesta básica chegou a R$ 803,99 em São Paulo, R$ 788 em Florianópolis, R$ 780,86 em Porto Alegre e R$ 768,42 no Rio de Janeiro.

A última edição da pesquisa Genial/Quaest apontou que subiu de 51% para 59% os que avaliam que piorou a sua capacidade de pagar as contas nos últimos três meses. A margem de erro é de dois pontos.

Em novembro de 2021, 73% consideravam que a economia tinha piorado. Desde então, esse índice estava caindo até que estabilizou em 62%. Uma das razões para isso é que, enquanto 35% apontavam a economia como o maior problema do país em fevereiro, hoje já são 50% - um misto de arrefecimento da pandemia com a corrosão do poder de compra.

Os mais afetados são os pobres, que não contam com reservas e para quem a inflação traz fome. Lula se mantém com 56% de intenções de votos entre quem ganha até dois salários mínimos - Bolsonaro oscilou de 24% para 22% entre abril e maio nesse grupo. Já entre quem ganha mais de cinco salários por mês, Bolsonaro vence Lula por 43% a 36%.

A pesquisa aponta que a desaprovação ao governo Bolsonaro entre os que recebem o Auxílio Brasil de R$ 400 vinha caindo, mas também parou. Oscilou um ponto para cima, de 47% para 48% em um mês, dentro da margem de erro de dois pontos. Um dos motivos é que a inflação vem comendo o benefício.

Bolsonaro inventa nova guerra enquanto cesta básica passa de R$ 800 em SP

Bolsonaro tem um repositório ilimitado de cascatas para entreter o debate público brasileiro. A última foi uma representação na Procuradoria-Geral da República contra o ministro Alexandre de Moraes, apresentada poucas horas após a penúltima cascata flopar, ou seja, o STF arquivar um pedido de investigação contra Moraes. Jair tenta lançar suspeição sobre o ministro, que presidirá o TSE nas eleições.

Quem é bom de matemática há de se lembrar do que alertei neste cafofo ainda no ano passado: que à medida que chegássemos perto da eleição de outubro, a frequência com a qual Jair ataca o STF e o TSE passaria de aritmética para geométrica.

Claro que ele é golpista e está tentando minar a credibilidade do Tribunal Superior Eleitoral visando a promover uma balbúrdia no day after das eleições, como repito aqui, quase todo santo dia, a ponto de me sentir num Dia da Marmota protagonizado por Jair, que não tem 1% do charme de Bill Murray. Mas ele também quer muquiar uma inflação que corrói os salários, as pensões, as aposentadorias e os benefícios sociais dos brasileiros.

E, como o sujeito é presidente, não tem muito jeito, a imprensa tem que cobrir o que ele faz, até para não normalizar os ataques à democracia como se fossem parte da nossa paisagem, como a poluição da baía de Guanabara ou do rio Tietê.

A opção a isso seria cassar o mandato por qualquer uma das dezenas de pedidos de impeachment que foram apresentados contra ele. Mas quem teria coragem de sacrificar uma galinha dos ovos de ouro? O centrão na Câmara dos Deputados, certamente não.

Se ele se nega a parar de atacar as instituições, para gerar cortina de fumaça e, ao mesmo tempo, preparar terreno para uma insurreição de seus seguidores em outubro, acusando a Justiça Eleitoral de não ter credibilidade porque é comandada por "Xandão", também temos o dever de lembrar diuturnamente o que está sendo escondido com essa pataquada toda.

O Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) realiza mensalmente a Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos desde 1959. A cesta de alimentos, composta por 13 produtos, são estipulados por região e por hábito alimentar.

(Se você der um Google, vai encontrar um monte de cestas mais baratas. Mas a do Dieese é a referência, pois é calculada com base na garantia de um mínimo de dignidade aos trabalhadores.)

Pois bem, a cesta básica em São Paulo ultrapassou, pela primeira vez, a marca de oito garoupas ou quatro lobos-guarás, atingindo R$ 803,99. Isso significa, 71,71% do salário mínimo nacional. Ou seja, para compra-la, o trabalhador ou a trabalhadora têm que ralar por 145 horas e 56 minutos. No ano, a sua variação já é de 16,43%.

Florianópolis (R$ 788), Porto Alegre (R$ 780,86), Rio de Janeiro (R$ 768,42), Campo Grande (R$ 761,73), Brasília (R$ 741,55), Curitiba (R$ 739,28) e Vitória (R$ 729,31) perfazem as capitais analisadas pela pesquisa com cestas custando acima de 700 mangos.

É isso o que ele não quer que a gente discuta porque é isso que o faz perder voto, de acordo com as pesquisas divulgadas periodicamente. Quando é colocado contra a parede, culpa as medidas de distanciamento social durante a pandemia, que, ao contrário dele, salvaram vidas, mas também a guerra na Ucrânia, os territórios indígenas, Leonardo DiCaprio e qualquer coisa aonde a sua imaginação o levar por esta situação. Menos a incompetência de um governo que sabe fazer campanha eleitoral, mas não sabe governar.

Acredita que consegue manter todo mundo entretido até agosto ou setembro, quando aposta que a inflação deve cair. De quebra, vai matando a democracia, com tanta porrada e bomba que lança.

Ele conclama os patriotas a defenderem a liberdade contra a tirania de ministros do STF e do TSE. Cascata pura. É sim dever patriótico de todo cidadão brasileiro que ama seu país lembrar diariamente, mesmo com a profusão de micaretas golpistas do governo, que a falta de políticas para combater a inflação tem nome e sobrenome.

Guedes copia Bolsonaro, ignora realidade e diz que pior da inflação passou

Se o ministro da Economia Paulo Guedes vivesse com um salário mínimo de R$ 1.212 mensais, ele nunca teria dito que o país já saiu do "inferno" da inflação, como afirmou na quinta (19).

Pois tomate, melão, cenoura, repolho, leite, óleo de soja, batata, brócolis, couve-flor, manteiga, pão francês, farinha de mandioca, arroz, café em pó e feijão ficaram bem mais caros no mês passado, segundo o IBGE ou o Dieese - o que ajudou a reduzir a qualidade de vida dos brasileiros mais pobres.

Mesmo quem ganha benefícios sociais para ajudar as contas a fechar no final do mês também têm vivido um inferno com a redução do poder de compra trazida pela inflação. Sim, aqueles R$ 400 do Auxílio Brasil já não valem a mesma coisa que valiam no momento em que foram anunciados pelo governo.

A inflação para os consumidores do mês passado foi a mais alta para abril desde 1996. E apesar do IPCA, nos últimos 12 meses, ter acumulado 12,13%, a alta dos preços é mais sentida entre os mais pobres, que dedicam boa parte do orçamento ao essencial, ou seja, sobreviver. Por exemplo, de acordo com o Dieese, a cesta básica de alimentos em São Paulo aumentou 27% no mesmo período.

Para se justificar, Guedes usou a desculpa que vem sendo dada pelo bolsonarismo: está assim no mundo todo.

"Está faltando manteiga na Holanda, tem gente brigando na fila da gasolina no interior da Inglaterra, que teve a maior inflação dos últimos 40 anos e vai ter dois dígitos. Eles estão indo para o inferno. Nós já saímos do inferno, conhecemos o caminho e sabemos como se sai rápido do fundo do poço", disse.

Poderíamos dizer essa comparação é absurda porque em ambos os países, mesmo com a inflação e escassez de alguns produtos (por uma série de motivos), a classe trabalhadora é mais protegida do que aqui.

Mas basta dizer que não se têm notícia de que cidadãos de Amsterdã ou Roterdã tenham corrido atrás de caminhões de lixo para catar pelanca de carne para alimentar seus filhos, nem que moradores de Manchester ou Liverpool estejam fazendo fila para disputar carcaças de animais que antes eram dadas aos cachorros. Mas isso aconteceu há pouco tempo aqui, em Fortaleza e no Rio de Janeiro.

E antes que alguém diga que a vida vai melhorar daqui em diante, o próprio Ministério da Economia, algumas horas depois da declaração de Guedes, revisou para cima a sua projeção para a inflação oficial, subindo o IPCA de 6,55% para 7,9% em 2022. Outro índice, o INPC, vai até mais longe: a previsão foi de 6,7% para 8,1%.

Ministro prova que vive em uma outra versão do Brasil no multiverso

O ministro é craque em dar declarações que dão a impressão que ele vive em uma realidade paralela, um outro país.

Em 25 de agosto do ano passado, ele perguntou "qual o problema agora que a energia vai ficar um pouco mais cara porque choveu menos?", ignorando que muitos têm que escolher entre comer ou ficar no escuro.

Em 27 de abril de 2021, reclamou, em reunião do Conselho de Saúde Suplementar, que o aumento da expectativa de vida dos brasileiros dificultava que o governo fechasse as contas. "Todo mundo quer viver 100 anos, 120, 130. Não há capacidade de investimento para que o estado consiga acompanhar."

Em declaração à revista Veja, publicada em 13 de março de 2020, disse que bastariam R$ 5 bilhões para acabar com o coronavírus. "Com 3 bilhões, 4 bilhões ou 5 bilhões de reais a gente aniquila o coronavírus." De acordo com o site de transparência do Tesouro Nacional, o governo federal gastou R$ 524 bilhões, somente em 2020.

Em 12 de fevereiro de 2020, durante um evento, ele reclamou que trabalhadoras empregadas domésticas estavam indo à Disney. "O câmbio não está nervoso, [o câmbio] mudou. Não tem negócio de câmbio a R$ 1,80. Todo mundo indo para a Disneylândia, empregada doméstica indo para Disneylândia, uma festa danada."

Em novembro de 2019, em entrevista à Folha de S.Paulo, criticou pobres por não pouparem: "Um menino, desde cedo, sabe que ele é um ser de responsabilidade quando tem de poupar. Os ricos capitalizam seus recursos, os pobres consomem tudo".

Sim, em meio a um Brasil em chamas, Paulo Guedes diz que já saímos do 'inferno' da inflação.

A ex-classe média na fila da fome

A psicóloga Olga Jacobina trabalha com assistência social há mais de dez anos e, desde 2017, está lotada em um Centro de Referência em Assistência Social (Cras) no Guará, região administrativa do Distrito Federal. Seu trabalho é fazer o atendimento socioassistencial de pessoas em situação vulnerável. Cuida daqueles casos em que a pessoa não está carente só de dinheiro – às vezes ela precisa de ajuda para melhorar a relação com alguém da família, com os vizinhos, ou precisa de apoio para obter os benefícios a que ela tem direito.

Segundo ela, sempre houve uma massa de pessoas que precisavam de assistência social e não tinham acesso a ela. Mas, com a pandemia, isso aumentou exponencialmente. “A nossa fila multiplicou de tamanho”, explica. Muita gente que passou a vida sem saber o que era um Cras começou a procurar o serviço. Os benefícios temporários mais concedidos desde então são o Prato Cheio [auxílio do governo do Distrito Federal que paga 250 reais por seis meses] e o auxílio calamidade, de 408 reais, voltado para quem perdeu a renda por causa da pandemia. Não é um auxílio mensal: a pessoa tem que entrar com um pedido a cada vez que estiver precisando.

“Passamos a lidar com um perfil diferente de pessoas: gente com educação superior, advogados, engenheiros, jornalistas, atores, atrizes. Todo esse pessoal perdeu o trabalho logo no começo da pandemia e não tinha outra opção senão vir até nós. Lembro de um engenheiro que ficou desempregado e passou a trabalhar como Uber, mas, logo que começou, o carro enguiçou e ele não tinha dinheiro para pagar o conserto. A mulher dele, funcionária de um salão de beleza, também ficou sem trabalhar. Eles não tinham saída”, afirma Olga.

Essas pessoas de classe média que, de repente, se viram numa situação de fragilidade costumam chegar até o Cras com muita vergonha. “Acho que é assim porque nunca pensaram que iriam precisar de ajuda do governo, e talvez não enxergassem a assistência social como um direito deles. É como se fosse uma coisa humilhante, uma degradação. Geralmente eles nem sabem como funciona o serviço ou a que tipo de benefício eles têm direito. Só sabem que damos cestas básicas. Chegam e perguntam: o que que tem aí?”.

No começo da pandemia, a fila de atendimento ainda andava com certa rapidez. Mas à medida que esse novo público descobria os Cras, ela disparou. Com a chegada da primeira leva do auxílio emergencial, em 2020, houve um alívio. Muita gente que acessava os serviços do Cras deixou de procurar o serviço, já que o valor do auxílio era maior do que os benefícios de transferência de renda que já recebiam do governo, como o Bolsa Família [hoje rebatizado de Auxílio Brasil]. Mas tudo voltou a piorar desde o meio do ano passado, quando o valor do auxílio emergencial foi reduzido. As pessoas que tinham se afastado voltaram a buscar a assistência social. “É nessa situação que o estamos atualmente. Hoje, essas pessoas têm que esperar, em média, seis meses para serem atendidas”, diz.

E agora, com a inflação, a situação degringolou de vez. “Quase todo dia ouço as pessoas dizerem que o dinheiro no mercado não dá mais para nada. Não conseguem comprar mais carne. Quando acaba o dinheiro do Prato Cheio, as pessoas voltam desesperadas”, aponta a psicóloga.

Nesta semana, Olga está atendendo pessoas que solicitaram atendimento em outubro ou novembro do ano passado. Feito o atendimento, ainda demora cerca de dois meses para que o benefício chegue até elas. Está difícil até mesmo achar abrigo para quem está em situação de rua. A única ajuda imediata oferecida hoje é o auxílio funeral. “Se morrer alguém na sua família hoje e você procurar um Cras, amanhã a pessoa estará enterrada”.

As pessoas chegam com urgência. Às vezes precisam de atendimento rápido porque, no dia seguinte, passarão por uma perícia do INSS e precisam ter toda a papelada. “Aí a gente diz que vai demorar três meses para conseguir resolver aquilo. Ninguém lida bem com isso. Algumas pessoas vão embora resignadas; outras partem para o embate. Há poucos meses, uma colega nossa sofreu uma agressão horrível de uma mulher que foi buscar atendimento no Cras e não conseguiu o que precisava. Casos como esse vêm acontecendo com alguma frequência. Agora a gente não fica mais com a porta da unidade escancarada. Temos que controlar o acesso das pessoas, para não ter problema”.

É compreensível: a pessoa está com uma necessidade básica de alimento, de dignidade, e aí recebe a resposta de que só vai conseguir atendimento dali a seis meses? “Imagina a nossa cara, tendo que dizer isso o dia inteiro. Para a pessoa que recorre ao Cras, quem representa o Estado? É o governador, é o presidente? Não, sou eu, que estou com a carinha ali. Sou eu que ela vai xingar, em que vai querer bater. Todo aquele ódio vai ser extravasado ali mesmo. A gente atende pessoas que estão numa situação de vulnerabilidade muito grande. E quando você está com fome, não há civilidade. É barbárie”, lamenta Olga.

Segundo ela, agora fica perceptível o saldo mais profundo da pandemia. “Ontem atendi uma mulher que perdeu a filha de 26 anos para a Covid. A filha não era quem provia o dinheiro da casa; era a mãe. Mas, desde que a filha morreu, a mãe não conseguiu mais fazer nada. Está num luto que não passa. Ela passou a ter fibromialgia, uma síndrome que tem forte componente emocional e que causa dores no corpo. É um problema que te imobiliza a ponto de não te deixar trabalhar, mas que ao mesmo tempo não te permite obter um laudo médico atestando sua incapacidade – o que garantiria a ela um auxílio mais estável do governo. Ela vai depender de alguns benefícios pingados para se sustentar”.

Nessa nova leva de atendimentos, as pessoas chegam esgotadas. “É uma percepção minha mesmo. Sinto que é uma situação diferente de antes. Muitas pessoas parecem ter ficado presas numa fenda de tempo; é como se estivessem paralisadas, e agora que a vida está voltando a ser o que era antes da pandemia elas não sabem o que fazer. É como se estivéssemos numa ressaca”.

Com Bolsonaro e Guedes, salário mínimo perde poder de compra pela primeira vez desde o Plano Real

Com o presidente Jair Bolsonaro e seu ministro da Economia, Paulo Guedes, o salário mínimo do Brasil perdeu o poder de compra pela primeira vez, desde a implementação do Plano Real, em 1994. Bolsonaro vai terminar o mandato, em dezembro de 2022, deixando o piso salarial valendo menos do que quando entrou.

Desde o Plano Real, todos os presidentes, seja no primeiro ou segundo mandato, conseguiram reajustar o salário superando a inflação. Nenhum dos governantes, neste período, entregou um mínimo que tivesse perdido o poder de compra. Enquanto que sob o governo Bolsonaro, o Brasil terá uma perda de 1,7%, até o final do ano, segundo os cálculos da corretora Tullet Prebon Brasil. A baixa, contudo, ainda pode ser maior se a inflação acelerar mais do que o previsto pelo mercado no Boletim Focus, do Banco Central, usado como base das projeções da corretora. Há 16 semanas, as previsões vêm sendo revisadas para cima. 

A perda percentual significa uma queda no piso salarial de R$ 1.213,84 para R$ 1.193,37 entre dezembro de 2018 a dezembro de 2022. De acordo com o relatório da corretora, a perda inédita está relacionada ao ajuste fiscal que mostra o impacto de reajustes no piso em uma gama de outras despesas da União, como benefícios sociais e gastos com Previdência. Mas há, principalmente, uma relação também direta com a aceleração da inflação. A avaliação é de que a reposição da inflação passada que o governo Bolsonaro vem promovendo não garante a preservação total do poder de compra do salário mínimo diante do aumento dos preços cada vez maior de um ano para o outro. 

Desde que assumiu, Bolsonaro vem seguindo à risca o abandono da política de valorização real do piso salarial, criada nos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff (PT). Há três anos, não há reajuste do piso acima da inflação como prevalecia a regra de correção, que considerava a inflação mais a variação do Produto Interno Bruto (PIB) de dois anos antes. De 2019 para cá, o governo apenas reajusta a perda resultante da inflação anual acumulada, que é obrigatória por norma constitucional. 

O valor do mínimo, sem qualquer ganho real de poder de compra, já havia rendido ao Brasil, no começo deste ano, o posto de segundo país com o menor salário mínimo. A perda foi constatada pelo estudo da plataforma CupomValido, que levou em comparação os 35 países membros da OCDE. México oferece o pior piso, seguido pelo Brasil. Antes de Bolsonaro, no governo de Michel Temer (MDB) o aumento real acumulado do mínimo foi de 0,79% ante o 0% com o atual presidente. 

Mas a reposição já chegou a ser de 59,21% durante os governos petistas, de abril de 2003 a janeiro de 2016. No período, Lula se tornou o presidente que maior aumento real concedeu ao salário mínimo desde a sua criação, em 1º de maio de 1940. 

O que está por trás da explosão da população de rua

Moradores de São Paulo e dos grandes centros urbanos brasileiros reconhecem e demandam ações por parte dos governos municipais e estaduais para enfrentar a verdadeira explosão de pessoas vivendo nas ruas, segundo a pesquisa Datafolha.

Dos moradores da cidade de São Paulo, 85% identificam esse fenômeno. Na região metropolitana e no interior do estado, esses percentuais são de 78% e 56%, respectivamente. No caso da capital, os dois últimos censos da População em Situação de Rua, realizados em 2019 e 2021, indicam, de fato, um aumento de 31%.

A ausência de um censo metropolitano ou estadual dessa população não nos permite confirmar a percepção. Mas os dados também chamam atenção e revelam que muito provavelmente o crescimento de pessoas vivendo nas calçadas não se limita à capital.

A análise territorial dos dados censitários disponíveis evidencia percentuais mais elevados de crescimento de população em situação de rua em regiões localizadas fora do centro expandido. Em Perus (555,6%) e Vila Maria/Vila Guilherme (276,3%) é onde o censo identificou as maiores taxas de crescimento, mas em subprefeituras, como Ipiranga, M’boi Mirim, Sapopemba, Itaquera, São Miguel, Vila Mariana e Itaim Paulista, esta população também mais do que dobrou.

Além do aumento do número, o censo também indica uma mudança importante no perfil dos atuais moradores: cresce a presença de famílias inteiras, mulheres e crianças transformando a cena das ruas. Mas o que explica essas mudanças? Não há dúvida que a crise econômica, agravada pela pandemia, com seus efeitos de aumento de desemprego e diminuição de renda dos mais pobres, tem parcela importante de responsabilidade na medida em que tiveram como efeito o aumento da pobreza e consequentemente o aumento da incapacidade de arcar com os custos da moradia para parcelas maiores da população.

Mas não é só isso: é necessário examinar dois importantes aspectos fundamentais para essa equação. O primeiro é a própria dinâmica dos mercados residenciais durante este período, e a segunda é as políticas públicas desenvolvidas para enfrentar esta situação.

Ao contrário do que poderíamos supor, os anos de crise econômica e perda de renda não foram acompanhados por diminuições nos preços de imóveis e aluguéis na cidade. Pelo contrário: nos últimos anos, estamos vivendo um boom imobiliário na capital, apesar da perda de renda, especialmente dos mais pobres.

Isso porque a dinâmica deste mercado está muito mais atrelada à disponibilidade de capital financeiro e seu apetite por ativos imobiliários (o que em períodos de baixas taxas de juros tende a crescer) do que pelas necessidades habitacionais. O resultado está visível nas ruas e ocupações, que também explodiram no período. Configura-se assim uma verdadeira situação de emergência habitacional.

A segunda consideração se refere às políticas públicas necessárias para enfrentar esta situação: momentos de crise exigem políticas especiais e emergenciais. Todavia, exatamente nesta conjuntura, as políticas habitacionais foram basicamente inexistentes. Recentemente, a Prefeitura de São Paulo assumiu a sua responsabilidade de atuar sobre este tema, lançando iniciativas dirigidas à crise habitacional.

A atual gestão paulista abriu recentemente um chamamento público de uma PPP destinada à construção de moradia e espaços de acolhimento para a população em situação de rua.

Porém, a adoção do modelo de PPP como principal resposta para a crise habitacional não é adequado, não apenas por que no modelo proposto até agora não há uma definição concreta dos critérios, formas de acesso por parte da população e contrapartidas. Mas também pelas próprias dificuldades levantadas pelos empreendedores privados que inclusive fazem com que a PPP Casa da Família, lançada em 2019 e acrescida em 2020 de novos lotes, ainda não tenha nenhuma obra iniciada.

O enfrentamento do tema requer uma abordagem específica que enfrente a complexidade do tema: que é habitacional, é social, mas é, sobretudo, urgente.

Inflação de Bolsonaro é o maior cabo eleitoral de Lula junto aos pobres

Com a alta no preço do leite, da batata, do óleo de soja, do pão francês, da carne, do etanol, do diesel, o Brasil registrou a maior inflação para o mês de abril desde 1996, com o IPCA marcando 1,06%. A queda no poder de compra dos trabalhadores continua sendo a principal dor de cabeça do candidato Jair Bolsonaro, que prefere discutir urnas eletrônicas do que o preço do tomate.

O Dieese há havia divulgado que o custo dos alimentos em abril cresceu nas 17 capitais avaliadas mensalmente pelos instituto. Com isso, o preço da cesta básica chegou a assustadores R$ 803,99 em São Paulo, R$ 788 em Florianópolis, R$ 780,86 em Porto Alegre e R$ 768,42 no Rio de Janeiro.

Pesquisa Genial/Quaest, que veio a público no último dia 11, aponta que subiu de 51% para 59% os que avaliam que piorou a sua capacidade de pagar as contas nos últimos três meses.

Em novembro de 2021, 73% consideravam que a economia tinha piorado. Desde então, esse índice estava caindo até que estabilizou em 62%. Uma das razões para isso é que, enquanto 35% apontavam a economia como o maior problema do país em fevereiro, hoje já são 50% - um misto de arrefecimento da pandemia com a corrosão do poder de compra.

Os mais afetados são os pobres, que não contam com reservas e para quem a inflação traz fome. Não à toa, Lula se mantém com 56% de intenções de votos entre quem ganha até dois salários mínimos - Bolsonaro oscilou de 24% para 22% entre abril e maio nesse grupo. Já entre quem ganha mais de cinco salários por mês, Bolsonaro vence Lula por 43% a 36%.

A pesquisa aponta que a desaprovação ao governo Bolsonaro entre os que recebem o Auxílio Brasil de R$ 400 vinha caindo, mas também parou. Oscilou um ponto para cima, de 47% para 48% em um mês, dentro da margem de erro de dois pontos. A inflação vem comendo o benefício.

Em 2006, Lula se reelegeu mesmo com o impacto do escândalo do Mensalão, pois a economia ia bem. A classe trabalhadora é pragmática o bastante para não mudar a situação quando as condições materiais apontam para a qualidade de vida - o que não é o caso agora.

A pesquisa Genial/Quaest mostra que, mesmo com variações (Lula cresceu entre as mulheres e Bolsonaro subiu entre evangélicos, por exemplo), a situação continua igual. O ex-presidente segue com 46% e o presidente varia entre 29% e 31% nos cenários principais.

Até outubro, espera-se alguma melhora no aumento de preços e na geração de postos de trabalho, mas a instabilidade tanto do cenário externo quanto do próprio presidente torna difícil afirmar o que vai acontecer. Se a economia melhorar de forma consistente, o presidente pode crescer entre os mais pobres, que perfazem a maior parte do eleitorado. O contrário pode forçar uma decisão em primeiro turno a favor de Lula.


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