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Terça-Feira 05.jul.2022

Ano X - Nº 494

Coluna

Saúde Mental Antimanicomial Decolonial

É preciso resgatar a valorização geral da alma dos povos originários deste território Brasil

Postado em 19 de Maio de 2022 - Ricardo Moebus

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No último dia 18 de maio comemorou-se, celebrou-se, manifestou-se em todo o Brasil o dia da Luta Antimanicomial.

São décadas deste movimento social plural, integrado por muitos familiares, usuários, simpatizantes, trabalhadores da saúde mental, em busca tanto de uma reformulação radical dos processos assistenciais em saúde mental, mas muito além disso, em busca da construção de uma sociedade mais inclusiva, menos autoritária, mais respeitosa, na qual a vida de todos e cada um seja valorizada, respeitada, incentivada, protegida, cuidada.

A luta antimanicomial trabalha pela desconstrução dos espaços de privação de liberdade e de vida, feitos em nome de supostos tratamentos mentais, mas trabalha mais ainda pela superação dos manicômios mentais, imateriais, cristalizados em preconceitos, em rotinas de aprisionamento cotidiano, em desrespeito, intolerância ou indiferença com a diferença alheia, com a diversidade e a pluralidade.

Porque a necropolítica da lógica manicomial opera sinergicamente com a lógica patriarcal, com todas as formas de opressão de classe, gênero e cor.

A discriminação manicomial é irmã gêmea da discriminação racial, filhotes do mesmo berço fascista.

A lógica capital transnacional que opera impondo sua vontade imperial em todos os territórios, submetendo e subjugando os interesses, os valores e os desejos coletivos locais, é também a lógica neocolonial manicomial.

Por isso mesmo, a bandeira antimanicomial é também a mesma bandeira decolonial. Talvez isso tenha ficado mais claro primeiramente com Frantz Fanon, como em seu clássico livro: “Pele Negra, Máscaras Brancas”.

Neste caso de Fanon a luta anticolonial foi também a luta antimanicomial, em seu momento de libertação da Argélia, luta antirracista anticolonialista pela libertação não só do corpo negro historicamente escravizado, mas também da alma negra, historicamente dilapidada, humilhada, desvalorizada.

E aqui neste Brasil dos homens de bem, que apostam no “America First” também, mais do que nunca a luta antimanicomial é também decolonial, pelo resgate da valorização da pele negra, vermelha, multicolor, da cultura e alma que com elas reluz ofuscando o sinistro  olhar fascista, imperialista, supremacista, que insiste em impor seu jugo, seu jogo, seu logro.

Resgatar a devida e tardia valorização geral da alma dos povos originários deste território Brasil, construir as necessárias reparações históricas, reconhecer tantas dívidas e danos causados e cumulados contra os povos originários é também o desafio antimanicomial decolonial inadiável de nosso tempo.


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