Semana On

Domingo 22.mai.2022

Ano X - Nº 488

Entrevista

DOF ‘fecha’ fronteira para o crime e se aparelha para ser uma das unidades policiais mais equipadas do País

Departamento de Operações de Fronteira foi criado há 35 anos e hoje protege uma faixa de fronteira com 32 municípios e 1 milhão e 38 mil habitantes, além de patrulhar outros 21 municípios sob influência da região

Postado em 09 de Maio de 2022 - Redação Semana On

Foto: Assessoria de Imprensa do Governo de MS

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Criado em 1987, o Departamento de Operações de Fronteira (DOF) está pronto para se tornar uma das unidades de Polícia mais bem aparelhadas do País. Com armamento pesado, drones, helicóptero, policiais treinados e sistema de vigilância via satélite, a expectativa é de que a fronteira de Mato Grosso do Sul com o Paraguai e a Bolívia deixe de ser definitivamente uma “zona de conforto” para o crime organizado e porta de entrada de drogas para o Brasil.

“O DOF tem recebido diversos investimentos, que nos permite dizer que até o fim de 2022 teremos uma das mais modernas e bem equipadas unidades de polícia do Brasil”, afirma o coronel Wagner Ferreira da Silva, diretor do Departamento. Segundo ele, os policiais estão sendo equipados com aparelhos de visão noturna, visores termais, aeronaves pilotadas por controle remoto e armamento de alta precisão, incluindo pistolas calibre 9mm importadas e fuzis 7,62x51mm. Em breve, a unidade terá sua sede própria, em Dourados, e um helicóptero para o policiamento ostensivo na linha internacional.

O combate aos crimes na fronteira sempre foi um dos principais desafios da segurança pública em Mato Grosso do Sul. Quase no final da segunda metade da década de 1980, em razão da grande extensão de fronteira seca, o contrabando de soja e de gado seguia crescendo, levando o Governo do Estado a criar uma unidade exclusivamente para conter esses crimes.

Anos depois, com o aumento da violência, tráfico de drogas e de armas, o DOF começou a se estruturar para “fechar” a fronteira de Ponta Porã, reforçando o trabalho da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal (PRF), que têm jurisdição nas rodovias federais, sem alcance à malha rodoviária estadual e estradas vicinais que se entrelaçam entre 32 municípios que ocupam a faixa de fronteira e outros 21 municípios sob influência da região.

A fronteira seca de MS com Paraguai e Bolívia foi povoada para ser um ambiente de desenvolvimento, integração social, econômica e cultural, mas as características geográficas fizeram crescer também a violência, exigindo do poder público mais investimentos nas forças de segurança. São 1.517 km de fronteira a serem vigiados – 1.131 km com o Paraguai e 386 km com a Bolívia. A área definida como Faixa de Fronteira pela legislação brasileira compreende 1.517 km de extensão e 150 km de largura.

Em toda a faixa de fronteira são 32 municípios no lado brasileiro, 12 deles situados na linha internacional. Outras 21 cidades estão localizadas em áreas sob influência da região fronteiriça. Sete cidades são geminadas a comunidades dos lados do Paraguai e da Bolívia. Em todos esses municípios vivem, segundo o último censo, 1.038.179 habitantes. As forças policiais atuam em áreas rurais com patrulhamentos móveis e policiamento ostensivo nas cidades geminadas, onde os habitantes se misturam no trabalho, nas escolas, comércio e rotinas do dia.

As cidades geminadas, onde as culturas e as atividades sociais e econômicas se integram e são seriamente ameaçadas pelo crime organizado são: Corumbá/Puerto Suáres; Bela Vista/Bella Vista Norte; Ponta Porã/Pedro Juan Caballero; Coronel Sapucaia/Capitán Bado Paranhos/Ypehú; Sete Quedas/Pindoty Porã; Mundo Novo/Salto Del Guairá.

Um mapeamento realizado pelo Governo do Estado levantou as “válvulas de escape” das organizações criminosas e descobriu-se a necessidade de aparelhar melhor as forças de segurança para conter a violência provocada pelo tráfico de drogas, armas e munições, alta incidência de homicídios, furtos e roubos de veículos, contrabando e descaminho de mercadorias e grande fluxo de criminosos. Em um primeiro momento o Governo designou 30 delegados para as cidades da Faixa de Fronteira. Para ampliar o trabalho e dar suporte às operações de enfrentamento ao crime, além do DOF, foram reforçados os contingentes da Polícia Militar, Polícia Civil, Policiamento Aéreo, Polícia Rodoviária Estadual e Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Fronteira (Defron) e de Narcóticos (Denar).

De acordo com o DOF, somente nos últimos dois anos e pouco mais de quatro meses, as equipes do Departamento apreenderam 509 toneladas de drogas – 264 toneladas em 2020, 195 toneladas em 2021 e neste ano, até início de maio, 50 toneladas. Desde a criação da força especializada, de 1987 até 3 de maio deste ano, foram apreendidos 1 milhão e 136 mil quilos de drogas.

O coronel Wagner Ferreira da Silva, que dirige o Departamento, fala sobre a perspectiva de fortalecimento das ações de combate ao crime na Faixa de Fronteira. Confira a entrevista: 

 

Como o DOF se estruturou física, funcional e operacional para enfrentar o aumento da violência e dos crimes em uma fronteira tão extensa, de 1,5 mil km, com o Paraguai e a Bolívia?

O crime possui mecanismos muito dinâmicos e uma grande capacidade de adaptação, mas o DOF, ao longo dos seus 35 anos de existência, soube lidar com isso, estabelecendo um método de trabalho flexível, baseado em conceitos sólidos de ações assimétricas. Atualmente está estruturado, além das ações ostensivas com um forte núcleo de inteligência policial, treinamento e ensino na área de policiamento de fronteiras, logística, administração de recursos humanos, planejamento operacional, correição, comunicação social e um setor de atendimento direto ao cidadão.

Considerando as estatísticas, o volume de drogas apreendidas nas estradas que ligam Mato Grosso do Sul à Bolívia e Paraguai, é muito grande, o que dá a dimensão cada vez maior do tráfico e também da resposta da fiscalização. Tem sido difícil a “guerra” contra o tráfico de drogas e de armas?

De fato as apreensões de drogas realizadas por Mato Grosso do Sul são em um volume muito grande. Somos o Estado da Federação que mais apreende drogas e isso não é por acaso. Somos os pioneiros na segurança pública nacional a nos preocuparmos com a fronteira. Tanto assim que o DOF é a primeira unidade especializada de fronteira criada no Brasil e tem sido modelo para outras iniciativas. Mas essa “guerra” deve ser travada em ações integradas pelos diversos entes estatais, pois sabemos que a maior parte das drogas e armas que ingressam no território nacional, via Mato Grosso do Sul, tem destino os grandes centros urbanos do País e os portos/aeroportos para se atender o mercado internacional. Esse enfrentamento nos exige tarefas complexas, mas graças à modernização de nossas estruturas temos conseguido fazer frente e realizar entregas importantes à sociedade.

O serviço de inteligência, cooperação internacional e centros de vigilância remota, com utilização de drones e radares, entre outros recursos tecnológicos têm melhorado a eficiência das operações policiais?

A atividade de inteligência policial é atualmente a principal ferramenta para subsidiar a nossa tomada de decisão. É com base no conhecimento produzido que podemos destacar efetivo para reforçar os setores de policiamento, atuar pro-ativamente e como maior eficiência, já que nos torna seletivo e pontual. As ferramentas tecnológicas qualificam o nosso trabalho e nos permite fazer muito mais, com menos recursos materiais e humanos. Temos utilizados de diversas ferramentas e os resultados se consolidam cada vez mais.

As organizações criminosas estão se aparelhando e cada vez mais violentas. As forças de segurança estão bem equipadas para enfrentar o poderio bélico dos bandidos?

O DOF tem recebido diversos investimentos, que nos permitem dizer que até o fim de 2022 teremos uma das mais modernas e bem equipadas unidades de polícia do Brasil. Recebemos equipamentos de visão noturna, visores termais, aeronaves remotamente pilotadas e diversos equipamentos para treinamento operacional. Estamos em vias de receber um helicóptero, que atenderá toda a região de fronteira, pistolas calibre 9mm importadas, fuzis calibre 7,62x 51 mm importados, trocamos todo nosso uniforme e equipamentos de proteção individual para um modelo moderno e fecharemos o ano com mais de 40 novas viaturas recebidas e equipadas para o patrulhamento ostensivo.  É um momento muito especial para o Departamento, que além dos equipamentos receberá uma sede nova com mais de 1.400 m2 de área construída, que nos permitirá ampliar e qualificar nossas ações de enfretamento ao crime transfronteiriço e contribuir com a segurança e proteção da nossa gente da fronteira.

Quando se pensou na polícia de fronteira a discussão apontou que o crime impedia o desenvolvimento. As forças de segurança também têm essa percepção, da necessidade de proteger e dar segurança à população nos dois lados, já que historicamente há uma integração social, cultural e econômica e essa relação é que move o desenvolvimento na Faixa de Fronteira, que não se resume à linha internacional, mas em toda sua extensão com raio de largura de 150 quilômetros?

Qualquer local no mundo só se torna atrativo ao investimento se entre outros fatores apresenta segurança. Sobre essa condição nossos policiais têm total domínio. Sabemos da importância do agronegócio para a economia de Mato Grosso do Sul e como é importante nosso papel de enfrentar o contrabando de defensivos agrícolas, o roubo/furto de maquinários e implementos agrícolas, o contrabando de gado, que pode interferir em nosso status sanitário, além, é claro, de diversas outras práticas criminosas que interferem diretamente naquilo que chamamos de “sensação de segurança”, ou seja, de como a população percebe a sua segurança. Para isso respeitamos as condições culturais e regionais de cada rincão, temos nos integrado às forças de segurança do Brasil, mas também com as forças de segurança e autoridades bolivianas e paraguaias. Isso também tem sido intensificado e aperfeiçoado com as forças de segurança de nossos estados vizinhos, notadamente os estados de São Paulo, Paraná e Minas Gerais, de maneira a apresentar resposta complexa e duradoura a um problema igualmente complexo. Não pensamos somente a Faixa de Fronteira, mas no Mato Grosso do Sul, no Brasil e também nos nossos irmãos paraguaios e bolivianos.


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