Semana On

Quarta-Feira 18.mai.2022

Ano X - Nº 487

Poder

Sete de cada dez novos seguidores de bolsonaristas são robôs, mostra levantamento

Comprado por Elon Musk, Twitter é campeão em denúncias de crimes de ódio

Postado em 08 de Maio de 2022 - Vanessa Lippelt (Congresso em Foco), Bruna Alessandra (Fórum) – Edição Semana On

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Desde o último dia 25, perfis de aliados e familiares do presidente Jair Bolsonaro (PL) têm visto suas contas no Twitter inchar, subitamente, com dezenas de milhares de novos seguidores. O crescimento coincide com o anúncio da compra da rede social pelo bilionário Elon Musk. A plataforma Bot Sentinel analisou com exclusividade cinco contas de aliados do presidente Bolsonaro para checar quantos desses perfis são de pessoas reais e concluiu que 67,4% do total são de contas consideradas não autênticas, ou robôs.

“Esse foi uma movimento muito incomum. Todas essas contas foram criadas a partir do dia 25 e não apresentam nenhuma atividade”, explica Christopher Bouzy, criador do Bot Sentinel. A plataforma dedica-se ao combate da desinformação nas redes analisando e identificando perfis considerados robôs ou bots, que são uma aplicação de software concebido para simular ações humanas repetidas vezes de maneira padrão. No caso do Twitter, os robôs simulam interações como responder ou replicar postagens, além de seguir outros perfis com o objetivo de aumentar o engajamento e a relevância na rede do passarinho. 

Entres os dias 25 e 28 passados, a deputada bolsonarista Carla Zambelli (PL-SP) arrebanhou 101.867 novos seguidores. Porém, 54.483 desses perfis são de contas consideradas não autênticas, 53,48% do total, segundo o Bot Sentinel. A plataforma disponibilizou a lista dos novos perfis, seus IDs e quantidade de tuítes publicados para comprovar a data da criação e a inatividade dos novos seguidores.

Outro agraciado com a multiplicação de seguidores é o filho 01 do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que ganhou 75.702 novos seguidores e foi às redes propagandear que havia arrebatado mais da metade de novos fãs do que normalmente conquistaria em um mês. Ocorre que, de acordo com o Bot Sentinel, 61,9% desse total, o que corresponde a 46.868 seguidores,  foram criados desde a segunda-feira e têm características de perfis não autênticos. Ou seja, bots.

Em poucas horas, após o anúncio da compra do Twitter por @elonmusk, ganhei mais da metade de seguidores que normalmente ganho em 1 mês. Algumas mudanças no engajamento já são perceptíveis. Era fato que o algoritmo anterior sabotava as contas.
Entenderam? pic.twitter.com/Q72YzUjtxq

— Flavio Bolsonaro (@FlavioBolsonaro) April 26, 2022

Apostas de Bolsonaro nas eleições de 2022, os ex-ministros Damares Alves e Tarcísio de Freitas também viram suas contas no Twitter receber uma enxurrada de novos seguidores. Damares, pré-candidata ao Senado pelo Distrito Federal, acumulou, até o momento, 60.217 novos followers, sendo que 39.863 deles são de contas não autênticas. Já Tarcísio, que deve disputar o governo de São Paulo, emplacou 83.244 seguidores desde o dia 25. Do total, 64.765 também de contas com autenticidade questionada.

Até mesmo o ministro do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, general Augusto Heleno, faturou algumas dezenas de milhares de seguidores na sua conta do Twitter nos últimos quatro dias: foram mais 53.789.  Porém, após análise do Bot Sentinel, verificou-se que 78,1% desse total são de perfis correspondentes a robôs.

Na última segunda-feira, o presidente Jair Bolsonaro ganhou 65 mil novos seguidores. Desses perfis, 61,299 foram criados no mesmo dia, de acordo com denúncia de Christopher Bouzy,  fundador do Bot Sentinel. A lista com os perfis criados pode ser vista aqui.

“Me perguntam se essas novas contas que passaram a seguir Bolsonaro são orgânicas e a resposta curta é não. Eu não acredito que dezenas de milhares de brasileiros decidiram criar novas contas ao mesmo tempo para segui-lo porque Elon Musk comprou o Twitter”, explicou Bouzy.

Em nota, o Twitter afirma não ter identificado nada de anormal na plataforma.

“Temos analisado as recentes variações na contagem de seguidores de perfis no Twitter globalmente. Ao que tudo indica, essas oscilações parecem ter sido, em grande parte, resultado de um aumento na criação de novas contas e desativação de outras, organicamente. Seguiremos analisando essas alterações e, como parte de nossos esforços contínuos, tomando medidas contra contas que violem nossa política de spam. Manteremos as pessoas informadas a respeito do assunto conforme seguimos observando as movimentações”, informou a assessoria de imprensa da rede social.

Para o doutor em Ciência Política e especialista em desinformação e comportamento político Carlos Oliveira, o uso de robôs visa manter e aumentar o engajamento e a relevância do discurso bolsonarista nas redes.

“Os bots não vão votar,  mas eles vão manter o engajamento e talvez pessoas que se desanimem com pesquisas eleitorais quando veem que o Bolsonaro está atrás possam, a partir desse engajamento, se lembrar e ter um ânimo a mais. O engajamento é bom para manter o que já tem. Não implica voto. Implica muito mais euforia em torno de um nome. Estudos mostram que não há um impacto direto das mídias sociais e das mensagens que circulam nelas sobre decisão de voto, por exemplo. O que existe é o aumento no engajamento, a condução da agenda dos debates. E, através dos bots, eles conseguem engajamento.”

Twitter é campeão em denúncias de crimes de ódio

Nos dois últimos anos, o Twitter  figura entre as páginas da internet que mais propagaram crimes de ódio, segundo a organização Safernet.

No ano passado, a Central  de Denúncias da Safernet recebeu 7.426 reclamações de conteúdos publicados no Twitter. Desse montante, a plataforma removeu apenas 309 publicações denunciadas.

Segundo a entidade, a maior parte dos crimes denunciados se refere a exploração sexual infantil, com mais de cinco mil registros. Em seguida aparecem os crimes de racismo, apologia e incitação a crimes contra a vida e assim por diante.

 A Safernet também registrou crescimento de 60% conteúdos neonazistas, com 14.476 denúncias no ano passado, contra 9.004 em 2020. As denúncias de pornografia infantil também registraram aumento de 3,65% em 2021, com 101.833 casos. Em relação à LGBTfobia, foram 5.347 denúncias. 

Especialistas em tecnologia e ativistas tem apontado para uma possível retaliação do Google e da Apple à rede social - com a exclusão dos aplicativos dos sistemas operacionais de celulares - caso haja uma mudança na política sobre restrição a discursos de ódio e fake news. O acesso de usuários à rede através dos celulares é o principal meio de uso da plataforma.

O assunto ganhou repercussão após uma postagem do ativista Shaun King. "Fui informado esta manhã que a Apple e o Google removerão o Twitter da App Store se ele não moderar e remover o discurso de ódio. Esta não é uma política nova, mas um compromisso já assumido. A Amazon Web Services tem o mesmo compromisso. Então é isso", disse King.

A possibilidade foi corroborada por outros analistas, inclusive adeptos do Partido Republicano, que criticaram Tim Cook, CEO da Apple. 

Veja o ranking de denúncias:

 Exploração sexual infantil  - 5.139
Racismo  - 920
Apologia e incitação a crimes contra a vida  - 349 
LGBTfobia  - 303
Neonazismo - 236
Xenofobia - 193
Violência contra as mulheres - 175 
Maus tratos contra animais  - 83
 Intolerância religiosa - 21
Tráfico de pessoas – 4

Crimes devem continuar

Bolsonaristas - incluindo o presidente da república - comemoraram  a venda do Twitter.  Isso porque Elon Musk flerta com a extrema direita global e a expectativa é que, uma vez dono do Twitter, a rede social seja o paraíso da disseminação de fake news e discurso de ódio, em nome da "liberdade de expressão".

Espera-se, por exemplo, que a conta do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, seja reativada. O ex-mandatário foi banido da plataforma em janeiro de 2021 por incitar a violência e, sistematicamente, divulgar fake news. Bolsonaro, por sua vez, já recebeu punições da rede social por motivos parecidos. 

Por inúmeras vezes Elon Musk demonstrou seu perfil autoritário. A mais notória delas foi quando admitiu, em junho de 2020, que "vai dar golpes em quem for necessário" para conseguir lítio ao comentar sobre a derrubada de Evo Morales na Bolívia. Desde o episódio, Morales tem apontado que existiam interesses internacionais nos recursos bolivianos.

"Nós vamos dar golpes em quem nós quisermos! Lide com isso", afirmou o bilionário ao ser questionado nas redes sobre o seu papel no golpe orquestrado na Bolívia em outubro de 2019 em razão das reservas de lítio presentes no país. Para desenvolver os carros elétricos, o mineral é fundamental, afinal as baterias desses veículos são de lítio.

Morales comentou sobre a declaração e disse que ela comprova o que já vinha dizendo. "Elon Musk, dono da maior fábrica de carros elétricos, fala sobre o golpe na Bolívia: 'Vamos dar golpes em quem quisermos'. Outra prova de que o golpe foi devido ao lítio boliviano; e dois massacres como saldo. Sempre defenderemos nossos recursos!", escreveu no Twitter.

 A transação contestada 

 A transação final para a compra do Twitter por Elon Musk saiu por US$ 44 bilhões (quase R$ 215 bilhões no câmbio atual).

Desde que o magnata dono da Tesla e da SpaceX anunciou seu intuito de adquirir a plataforma, parte dos membros do conselho de administração do Twitter tentou de tudo para impedir a venda, inclusive acionando a tal estratégia chamada no mundo dos negócios de “pílula de veneno”, que consiste em permitir aos acionistas minoritários comprarem mais ações com desconto nos preços, fazendo o valor do restante das ações disparar, o que tornaria a compra total por alguém de fora mais difícil.

Quando Musk já tinha 9% das ações do Twitter e demonstrou intenção de abocanhar mais uma fração, para chegar pelo menos a 15%, para na sequência comprar tudo, o conselho de administração do Twitter informou por meio de uma nota, emitida a partir da sede da rede social, na Califórnia, nos EUA, dizendo que "a pílula de veneno reduziria a probabilidade de qualquer entidade, pessoa ou grupo obter o controle do Twitter por meio da acumulação de mercado aberto sem pagar a todos os acionistas um prêmio de controle adequado ou dar ao conselho de administração tempo suficiente para tomar decisões informadas". No entanto, isso não foi o suficiente para domar a sanha do bilionário.


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