Semana On

Quarta-Feira 25.mai.2022

Ano X - Nº 488

Poder

CIA alerta Bolsonaro a não minar eleições

Diretor do órgão de inteligência dos EUA reuniu-se com o presidente brasileiro em julho de 2021 e transmitiu mensagem sobre importância de não questionar lisura do pleito

Postado em 06 de Maio de 2022 - DW, Ricardo Noblat (Metrópoles), Julinho Bittencourt (Fórum), Jamil Chade e Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

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O diretor da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) disse no ano passado a ministros do governo brasileiro que o presidente Jair Bolsonaro deveria parar de lançar dúvidas sobre o sistema de votação do país, relataram fontes à agência de notícias Reuters.

Os comentários do diretor da CIA, William Burns, que ainda não tinham vindo à tona, foram feitos em uma reunião em julho, de acordo com duas pessoas familiarizadas com o assunto que falaram à Reuters sob condição de anonimato. Burns era, e continua sendo, o mais alto funcionário dos Estados Unidos que se reuniu em Brasília com integrantes do governo Bolsonaro desde a eleição do presidente americano, Joe Biden.

Uma terceira pessoa em Washington familiarizada com o assunto confirmou que uma delegação liderada por Burns havia dito aos principais assessores de Bolsonaro que o presidente brasileiro deveria parar de minar a confiança no sistema de votação do Brasil. Essa fonte não estava certa, porém, se o próprio diretor da CIA havia expressado essa mensagem.

A CIA recusou-se a comentar, e o gabinete de Bolsonaro não respondeu a pedidos de comentários.

Receio sobre postura das Forças Armadas

Burns chegou a Brasília seis meses após a invasão do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, por apoiadores do ex-presidente americano Donald Trump que seguiam comandos de seu líder para não reconhecer a derrota eleitoral.

Bolsonaro, um político de extrema direita que idolatra Trump, reproduziu as alegações infundadas do americano de que teria havido fraude nas eleições americanas de 2020. E também lança dúvidas com frequência sobre o sistema de votação eletrônica do Brasil – afirma, sem apresentar provas, que ele é vulnerável e diz que teria sido eleito no primeiro turno em 2018 se não fossem supostas fraudes.

Esse comportamento desperta receio entre seus opositores de que Bolsonaro, que está atrás do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas de opinião, esteja semeando dúvidas para que possa seguir o exemplo de Trump e não reconhecer uma eventual derrota após as eleições.

Em várias ocasiões, Bolsonaro mencionou a possibilidade de não aceitar os resultados, e atacou várias vezes o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Na semana passada, ele sugeriu que os militares conduzissem a sua própria contagem de votos paralela.

Duas das fontes consultadas pela Reuters alertaram para uma potencial crise institucional caso Bolsonaro seja derrotado por uma margem estreita, quando as atenções estarão voltadas para o papel das Forças Armadas brasileiras, que governaram o país durante a ditadura militar de 1964 a 1985, celebrada por Bolsonaro.

Durante sua viagem não divulgada ao Brasil, Burns, um diplomata de carreira nomeado por Biden no ano passado, reuniu-se no palácio presidencial com Bolsonaro, o general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, e Alexandre Ramagem, diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

Burns também participou de um jantar na residência do embaixador dos EUA com Heleno e o ministro-chefe da Casa Civil, general Luiz Eduardo Ramos. O exército brasileiro historicamente mantém laços estreitos com a CIA e outros serviços de inteligência dos EUA.

No jantar, de acordo com uma das fontes, Heleno e Ramos procuraram minimizar o significado das repetidas alegações de fraude eleitoral feitas por Bolsonaro. Em resposta, disse a fonte, Burns afirmou que o processo democrático era sagrado e que Bolsonaro não deveria falar dessa maneira sobre o tema.

"Burns estava deixando claro que as eleições não eram uma questão na qual eles deveriam mexer", disse a fonte, que não foi autorizada a falar publicamente. "Não foi uma aula, foi uma conversa."

Porta-voz discreto de Biden

É incomum que diretores da CIA sejam emissários de mensagens políticas, disseram as fontes. Mas Biden capacitou Burns, um dos mais experientes diplomatas dos EUA, a ser um porta-voz discreto da Casa Branca.

No mês passado, por exemplo, Burns disse em um discurso público que em novembro, quatro meses após visitar Brasília, Biden o despachou para Moscou "para transmitir diretamente para [o presidente russo Vladimir] Putin e vários de seus conselheiros mais próximos a seriedade de nossa preocupação com seu planejamento para a guerra, e as consequências para a Rússia" se eles seguissem em frente.

O teor de seus comentários em Brasília foi reforçado no mês seguinte à sua viagem, quando o Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Jake Sullivan, reuniu-se com Bolsonaro e levantou preocupações semelhantes sobre minar a confiança nas eleições. Entretanto, a mensagem da delegação de Burns foi mais forte do que a de Sullivan, disse a fonte sediada em Washington.

"É importante que os brasileiros tenham confiança em seus sistemas eleitorais", disse um funcionário do Departamento de Estado americano em uma declaração quando solicitado a comentar, acrescentando que os Estados Unidos estão confiantes nas instituições brasileiras, que incluem eleições livres, justas e transparentes.

No sábado, porém, em um novo sinal de inquietação entre alguns dos responsáveis pela política externa de Washington, o mais recente cônsul americano no Rio escreveu em um jornal brasileiro que os Estados Unidos deveriam deixar claro para Bolsonaro que qualquer esforço para minar as eleições desencadearia sanções internacionais.

Durante a campanha presidencial americana de 2020, Biden criticou a performance do governo Bolsonaro em temas ambientais, e o presidente brasileiro foi um dos últimos líderes mundiais a reconhecer sua vitória sobre Trump.

Autoridades em Washington procuraram melhorar os laços com Brasília nas últimas semanas, e os presidentes das duas nações poderão se encontrar pessoalmente em breve se Bolsonaro participar da Cúpula das Américas, que será realizada em junho em Los Angeles.

Na tarde de quinta-feira, o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República divulgou uma nota em que confirmou a reunião com o diretor da CIA, mas disse que "não recebe recados de nenhum país, nem os transmite".

"A agenda com o diretor da CIA foi devidamente divulgada. Os assuntos tratados, em reuniões, na área de inteligência, são sigilosos. O GSI não recebe recados de nenhum país do mundo, nem os transmite. Temos um excelente corpo de diplomatas e adidos para tratar dos interesses nacionais", afirmou o GSI.

Para dar certo, o golpe requer preparativos, e eles estão à vista

 

Estamos de acordo, os que querem Bolsonaro derrotado pelo desgoverno que faz e porque ameaça a democracia, que Lula (PT), Ciro Gomes (PDT), João Doria (PSDB) e Simone Tebet (MDB) devem ser cuidadosos com o que digam para que não sejam mal interpretados e para que não percam votos.Mas sabemos que essa não é uma tarefa simples. Muito menos no mundo das redes sociais, que tudo amplificam, da pós-verdade e das fake news. Fazer política, entre outras coisas, é falar, falar e falar com a pretensão de convencer os que escutam. Quem dispensa o verbo quase sempre se vale da fortuna para se eleger.

Campanha tem a ver com emoção. É, portanto, um terreno propício ao erro. Vence quem erra menos, porque todos erram. A razão é quem deve governar. A vantagem de quem governa, e deseja continuar governando, como é o caso de Bolsonaro, é que ele tem o poder por mais que possa errar. E o poder faz diferença.

Nenhum presidente brasileiro que no exercício do cargo tentou se reeleger perdeu. Nenhum. O país, porém, jamais assistiu a uma eleição disputada por um presidente e um ex-presidente. Esta será a primeira. Bolsonaro apostará no antipetismo, uma vez que não realizou grandes coisas. Lula, na lembrança do que fez.Um tem a seu favor a caneta mais cheia de tinta que existe, agora sob a administração de políticos espertos e sem escrúpulos que não querem ficar sem ela. O outro, a vasta experiência de ter disputado 5 eleições presidenciais consecutivas – ganhando 2, elegendo e reelegendo seu sucessor. Parada difícil, mas escolha fácil.

As próximas pesquisas de intenção de voto mostrarão se Bolsonaro cresce porque retoma os votos que o ex-juiz Sergio Moro havia lhe subtraído ou se cresce porque os que pensavam em votar em um candidato nem Bolsonaro nem Lula começam a aderir a ele. Para isso, sua rejeição terá de estar em queda. É a maior até aqui.

As pesquisas também irão mostrar se os demais candidatos dão sinais de que poderão sobreviver, e, quem sabe, se terão a chance de cair no gosto do eleitor nesta fase da pré-campanha. Só a partir de agosto, com a propaganda diária no rádio, na televisão e por outros meios, é que de fato a campanha terá início.

Não fosse por Bolsonaro, esta seria uma eleição normal. Restaria desejar sucesso ao vencedor e lembrar que deverá governar para todos, para os que votaram nele e para os que não votaram. Mas Bolsonaro só governou para os seus, e com o propósito de desconstruir, não de pelo menos tolerar, o que não lhe apetece.

Não bastasse, está disposto a desconhecer os resultados das eleições se eles lhe forem contrários. O golpe não será dado na noite do primeiro ou do segundo turno, como se imagina e se teme. O golpe já está sendo dado. Golpe requer preparação. Os preparativos estão em curso e sob a luz escandalosa dos holofotes.

Quem pensou que seria possível a invasão do Congresso americano antes que ela ocorresse com transmissão ao vivo? Talvez só Trump tenha pensado. Quem aqui, a quatro meses e pouco das eleições, duvida que algo igual ou pior possa ocorrer tendo por alvo não um Congresso covarde, mas uma Justiça que resiste ao arbítrio?

STF vê risco de interferência das Forças Armadas nas eleições

O ministério da Defesa enviou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) um ofício pedindo a divulgação de sugestões feitas pelas Forças Armadas para as eleições de outubro. O documento foi visto com ressalvas por parte dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

De acordo com a coluna de Bela Megale no Globo, três ministros avaliaram que os militares estariam usando a Comissão de Transparência das Eleições (CTE) como um “movimento em busca de protagonismo no processo eleitoral”.

O ministro da Defesa, general Paulo Sergio Nogueira, relata ainda no ofício “a impossibilidade de ver concretizada” uma reunião solicitada por ele com o presidente do TSE, Edson Fachin.

De acordo com assessores do STE, o encontro foi pedido nesta quarta-feira pelo Ministério da Defesa para aquela mesma data. O gabinete do ministro Fachin informou à pasta sobre a impossibilidade da agenda, porque o ministro estava com o dia tomado por reuniões e pelo fechamento do cadastro eleitoral para as eleições de 2022. A reunião, porém, deve ser marcada.

O movimento ocorreu dois dias após o encontro do ministro da Defesa com o presidente do STF, Luiz Fux, que foi considerado positivo por ambos. Apesar do incômodo com o ofício, integrantes do Supremo e do TSE não acreditam em uma nova escalada de crise entre os poderes.

A coluna diz ainda que, de acordo com juízes do STF, uma medida para evitar esse tipo de uso da comissão seria ampliar o número de participantes no grupo.

A CTE é integrada atualmente por representantes do Congresso Nacional, Tribunal de Contas da União, Forças Armadas, Ordem dos Advogados do Brasil, Polícia Federal Ministério e Público Eleitoral (MPE), além de especialistas na área de tecnologia e representantes de organizações da sociedade civil que atuam na área de transparência eleitoral.

Democracia brasileira está em jogo em 2022, diz Nobel da Paz

O que está em jogo em 2022 nas eleições no Brasil é a democracia. O alerta é da vencedora do prêmio Nobel da Paz de 2021, Maria Ressa. A jornalista das Filipinas foi escolhida para receber a premiação num gesto deliberado por parte dos organizadores do Nobel para mostrar a relevância da imprensa para a democracia e para a paz. Segundo Oslo, ela usou "a liberdade de expressão para expor o abuso de poder, o uso da violência e o crescente autoritarismo em seu país natal, as Filipinas".

Em 2012, ela cofundou a Rappler, uma empresa de mídia digital para o jornalismo investigativo, que ainda dirige. "Como jornalista e diretora executiva da Rappler, Ressa demonstrou ser uma defensora destemida da liberdade de expressão", disseram os organizadores do Prêmio.

Em entrevista exclusiva ao UOL, durante sua passagem nesta semana por Genebra, a jornalista apontou semelhanças entre o que vive em seu país e a relação de Jair Bolsonaro com a imprensa. Durante sua visita, Ressa chegou a comentar a proximidade dos casos brasileiro e filipino em uma reunião com a Alta Comissária da ONU para Direitos Humanos, Michelle Bachelet.

Questionada pela coluna sobre o que está em jogo no Brasil em 2022, Maria Ressa foi clara: "a democracia". "Se Bolsonaro for o mesmo tipo de líder que temos, é uma erosão gradual", disse, admitindo que não tem todos os detalhes sobre como opera o presidente brasileiro.

"É a morte por 10 mil navalhadas e, lentamente, o que vemos é que esses líderes populistas com estilo autoritário vão sendo eleitos. Uma vez no poder, eles corroem as instituições da democracia por dentro. Não é a primeira vez que vemos isso. Hitler foi eleito. Isso aconteceu antes", alertou.

Com mais de 30 eleições pelo mundo neste ano, a jornalista acredita que a sociedade passa em 2022 por um "momento existencial". "Temos de fazer uma escolha. Ou vamos numa direção ou em outra", alertou.

Para a eleição no Brasil, Maria Ressa sugere que uma reação não venha apenas de um grupo de jornalistas ou de segmentos da população. "Deve ser um trabalho de toda a sociedade, como tentamos fazer nas Filipinas. Mobilizar não apenas jornais para trabalhar juntos, mas também grupos da sociedade civil para parar a onda de mentiras", recomendou.

"Tragam pesquisas acadêmicas, para mostrar como estão sendo manipulados, além de advogados e especialistas em direito", sugeriu. Em sua avaliação, o que ocorre nas Filipinas, com Jair Bolsonaro no Brasil ou Donald Trump nos EUA são "partes da mesma onda".

Em seu país, Maria Ressa destaca como as urnas poderão eleger em poucos dias Ferdinand "Bongbong" Marcos Jr., filho do ditador Ferdinand Marcos, que controlou o país por 20 anos. Foram décadas de graves violações de direitos humanos e repressão, além das descobertas de bilhões de dólares em contas no exterior. Em 1986, após uma revolta popular, sua família se exilou no Havaí.

Agora, o filho está de volta e, segundo as pesquisas de opinião, poderia ficar com 56% dos votos. A candidata ao cargo de vice-presidente é Sara Duterte, filha do atual presidente Rodrigo Duterte, amplamente denunciado por violações de direitos humanos.

Segundo a jornalista, porém, esse cenário não está acontecendo da noite para o dia. "Desde 2014, há uma operação de informação que mudou nossa história nas redes sociais. Marcos Jr. não dá acessos aos jornalistas para que façam perguntas. Ele ri das perguntas duras feitas pela BBC e, nesse lugar, ele dá acesso a seus blogueiros e propagandistas. Nas redes sociais, as pessoas não conseguem distinguir entre propaganda e notícia", explicou.

Sem imprensa não há democracia

Maria Ressa ainda destaca os paralelos que existem entre a violência contra jornalistas no Brasil nas Filipinas. "Quando um jornalista é atacado, não existe defesa contra isso. E estamos sendo atacados para que nossa credibilidade seja afetada. Primeiro, desmontam a credibilidade e substituem por uma narrativa que convém ao ditador", disse.

Para ela, a missão da imprensa é a de se contrapor ao poder. "O quarto poder tem essa função de controle e equilíbrio. Se os jornalistas não podem exercer suas funções, então não há democracia", disse. "Um poder absoluto corrompe e isso é parte de nossa função", disse.

Maria Ressa critica quem define os jornalistas como "criadores de conteúdo". "A maior qualidade de um jornalista é a qualidade de perguntar ao Poder perguntas que os irrite. E isso exige que venha de um grupo especial de pessoas que chamamos de jornalistas", explicou.

"Sem fatos, não há verdade. Sem verdade, não há democracia", insistiu.

Segundo ela, há uma aliança hoje entre os detentores de tecnologia e líderes autoritários. "Não teremos a integridade de eleições se não tivermos a integridade da informação.

É falsa a ideia de que as instituições funcionam adequadamente no Brasil

Costuma-se dizer que as instituições estão funcionando no Brasil. Essa tese é falsa. Se funcionassem, a Câmara já teria aberto um pedido de impeachment contra Bolsonaro, que comete crimes de responsabilidade em série. O gavetão de Arthur Lira é uma das evidências da precariedade institucional.

O mandato de Daniel Silveira já teria sido passado na lâmina. O Conselho de Ética da Câmara trocou a cassação por uma suspensão do mandato por seis meses. Lira segura a decisão há dez meses. O fato de a suspensão não ter chegado ao plenário a cinco meses da eleição revela que o centrão transformou a ocupação do Orçamento federal num processo de bolsonarização das instituições.

A Procuradoria-Geral da República já teria formulado meia dúzia de denúncias criminais contra um presidente se as instituições funcionassem. Bolsonaro produz provas contra si mesmo em escala industrial. Ao aprovar a recondução de Augusto Aras ao cargo de chefe do departamento de blindagem de Bolsonaro, com os votos de integrantes da CPI da Covid, o Senado ofereceu ao país mais uma evidência de que as instituições claudicam.

O Supremo Tribunal Federal não teria se convertido numa espécie de terceira Casa do Legislativo se as instituições operassem com perfeição. A essa altura, Bolsonaro já teria sido informado de que o indulto concedido a Daniel Silveira não cabe dentro das quatro linhas da Constituição. Mas a Suprema Corte negocia uma saída política.

Não fosse a disfuncionalidade das instituições, Bolsonaro já teria sido responsabilizado por transformar a usina de confusões do Planalto no único empreendimento que funciona a pleno vapor no seu governo.


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