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Terça-Feira 24.mai.2022

Ano X - Nº 488

Mundo

Aliados europeus de Bolsonaro são acusados de receber dinheiro de Putin

Na Itália, Alemanha, Espanha, França ou Hungria, grupos de extrema direita estão sendo alvos de críticas e questionamentos por conta de suas relações com o Kremlin

Postado em 29 de Abril de 2022 - Jamil Chade - UOL

Imagem: Gabinete de Matteo Salvini/Via AFP Imagem: Gabinete de Matteo Salvini/Via AFP

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Os principais aliados do presidente Jair Bolsonaro (PL) na Europa estão sendo acusados de receber recursos do presidente russo Vladimir Putin para campanhas eleitorais ou movimentos políticos. Na Itália, Alemanha, Espanha, França ou Hungria, grupos de extrema direita estão sendo alvos de críticas e questionamentos por conta de suas relações com o Kremlin.

Um dos principais aliados de Bolsonaro na Europa, o italiano Matteo Salvini, é um deles. Os dois líderes estiveram juntos em novembro de 2021, quando o brasileiro visitou a cidade de seus antepassados no norte da Itália.

A camisa de Salvini

No início de março, já com a guerra em andamento, Salvini visitou uma cidade polonesa, fronteiriça com a Ucrânia, para dar seu apoio aos refugiados ucranianos.

Mas sua viagem se transformou em um desastre. Ao ser recebido na cidade de Przemysl, o italiano foi surpreendido por um gesto inesperado. O prefeito local deu um presente ao líder da extrema direita italiana: uma camiseta estampada com o rosto de Vladimir Putin e com a inscrição em russo: "Exército de Putin".

A camisa foi a mesma que Salvini usou em 2014 na Praça Vermelha, em Moscou. "Gostaríamos de ir com o senhor para a fronteira e a um centro de acolhida de refugiados para que veja pessoalmente o que fez seu amigo Putin a todas essas pessoas que estão cruzando a fronteira, umas 50 mil por dia", lamentou, irritado, o prefeito. Salvini se afastou, enquanto era chamado de "bufão, palhaço" por populares no local.

O áudio da reunião com russos

Em 2019, o site Buzzfeed News ainda abriu uma crise profunda na política italiana ao revelar um áudio de uma reunião entre os principais assistentes de Salvini, na época vice-primeiro ministro italiano, e representantes de Putin. O encontro ocorreu em outubro de 2018, em Moscou. Na pauta estava a negociação de uma "grande aliança".

Oficialmente, seria discutido um acordo sobre petróleo. Mas, segundo a publicação, a "meta real era minar as democracias liberais e moldar uma nova Europa nacionalista, alinhada com Moscou".

O que disse o assistente pessoal de Salvini

Um dos interlocutores na reunião é Gianluca Savoini, antigo porta-voz de Salvini, seu assistente pessoal e que dirigia uma associação cultural pró-Rússia. É dele o pontapé inicial para a discussão:

"É muito importante que, neste período geopolítico histórico, a Europa esteja mudando. Em maio próximo, serão as eleições europeias. Nós queremos mudar a Europa", afirma.

Ele prossegue: "Uma nova Europa tem que estar próxima da Rússia, como antes, porque queremos ter nossa soberania. Queremos realmente decidir por nosso futuro, italianos, por nossos filhos. Não dependendo da decisão dos iluminados de Bruxelas, dos EUA. Nós queremos decidir."

Na sequência, o assistente cita Salvini e seus aliados europeus. "Salvini é o primeiro homem que quer mudar toda a Europa. Juntos, nossos aliados e colegas e outros partidos na Europa. Freiheitliche Partei Österreichs (Partido da Liberdade Austríaco) na Áustria, Alternative für Deutschland (Alternativa para Alemanha), Madame Le Pen, e outros países o mesmo, Hungria com Orban, na Suécia Sverigedemokraterna (Democratas da Suécia). Temos nossos aliados. Queremos realmente começar a ter uma grande aliança com estes partidos que são a favor da Rússia, mas não a favor da Rússia para a Rússia, mas para nossos países."

Na gravação, os interlocutores apontam termos de um acordo para canalizar secretamente dezenas de milhões de dólares do petróleo russo para o partido de Salvini, a Liga Norte.

Salvini, nos dias seguintes às revelações, negou ter recebido dinheiro dos russos. "Nunca tomei um rublo, um euro, um dólar ou um litro de vodka em financiamento da Rússia", disse Salvini. No poder, ele tentou aproximar a Itália do presidente russo Vladimir Putin e fez várias visitas a Moscou. "Salvini tem uma atitude acolhedora em relação a nosso país", disse o chefe do Kremlin.

Bastidores da reunião

Durante a reunião de 75 minutos, fala-se de um possível negócio envolvendo uma empresa russa vendendo petróleo no valor de cerca de US$ 1,5 bilhão. Um desconto seria aplicado para permitir que a Liga embolsasse parte da diferença. A Buzzfeed, porém, insiste que o áudio não apresenta evidências de que a transação já tivesse sido confirmada naquele momento.

Mesmo assim, a reportagem insiste que, "a gravação revela a extensão elaborada que os dois lados estavam dispostos a fazer para esconder o fato de que o verdadeiro beneficiário do acordo seria o partido de Salvini —uma violação da lei eleitoral italiana, que proíbe os partidos políticos de aceitar grandes doações estrangeiras— apesar do conforto com que ele e outros líderes de extrema direita da Europa desfilaram publicamente suas simpatias políticas pró-Kremlin".

Na conversa, Salvini é ainda descrito entusiasticamente pelos russos como o "Trump Europeu".

No dia anterior ao encontro, ele havia feito um discurso no qual denunciou as sanções contra a Rússia como "loucura econômica, social e cultural", antes de se encontrar com o vice-primeiro ministro russo, Dmitry Kozak, e com Vladimir Pligin, membro poderoso do partido de Putin, Rússia Unida.

Segundo a reportagem, o áudio "fornece a primeira prova concreta das tentativas clandestinas da Rússia de financiar os movimentos nacionalistas europeus, e a aparente cumplicidade de algumas figuras superiores da extrema direita nessas tentativas".

Milhões de euros para Marine Le Pen

Quem também passou a ter de se explicar foi a candidata da extrema direita na França, Marine Le Pen. Ela terminou a eleição no último fim de semana com uma votação recorde e 42% de apoio. Mas não foi suficiente para derrubar Emmanuel Macron.

Dias antes da votação, seu partido admitiu que está pagando 12 milhões de euros que tomou de um banco russo-checo. O valor seria o acerto atingido por conta do empréstimo que tomou de 9,4 milhões de euros, ainda em 2014.

O First Czech-Russian Bank foi comprado pela empresa de aeronáutica Aviazapchast JSC. Naquele momento, ela alegou que teve de ir em busca de recursos em Moscou diante da recusa de bancos franceses em darem créditos para seu movimento.

Em 2020, porém, a Aviazapchast entrou na lista de empresas sob sanção dos EUA por vender armas para o Irã, Coreia do Norte e Síria.

Marine Le Pen jamais escondeu sua admiração por Putin e, desde 2013, realizou cinco visitas oficiais ao país. Uma das mais polêmicas ocorreu semanas antes das eleições de 2017, quando ela também chegou em segundo lugar. Em fotos e declarações à imprensa, Putin deixava claro que considerava que a francesa era a representante de um "movimento que cresce pela Europa".

A retribuição era evidente. No Parlamento Europeu, eram os deputados do partido de Le Pen quem assumiam a defesa de Moscou nos debates.

Em 2014, o partido de seu pai, Jean Marie Le Pen, conseguiu um empréstimo de 2 milhões de euros de uma empresa offshore, com sede no Chipre. Segundo uma investigação do site Mediapart, a empresa tinha relações com um ex-agente da KGB ligado a oligarcas russos.

Em 2017, Marine Le Pen se beneficiou dessa situação, já que ela pediu um empréstimo para o partido de seu pai para a campanha eleitoral daquele ano.

Tudo mudou em 2017, quando as leis foram revisadas e foi estabelecido que bancos não europeus não poderiam financiar campanhas eleitorais. A partir daquele momento, Le Pen passou a apostar numa relação com a Hungria, uma sólida aliada de Putin na Europa.

O "irmão" Orbán

De fato, a Hungria se transformou nos últimos dez anos numa das principais plataformas de defesa de Putin na Europa. O primeiro-ministro do país, Viktor Orbán, foi chamado de "meu irmão" por Bolsonaro e ambos estabeleceram alianças em temas como a defesa da família, do cristianismo e em matéria de gênero.

Mas Orbán também foi o primeiro líder europeu a romper com uma posição comum da UE e receber Putin em Budapeste, depois da anexação da Crimeia, em 2014.

Naquele mesmo ano, seu governo escolheu a estatal russa Rosatom para renovar a única usina nuclear da Hungria, por um valor de 12,5 bilhões de euros. Para isso, os próprios russos iriam fazer um empréstimo em condições generosas de 10 bilhões de euros e que teria de ser pago em apenas 21 anos, contando a partir de 2026.

Por anos, o projeto foi bloqueado pela UE, que alegava que a licitação húngara não tinha sido realizada dentro dos padrões de Bruxelas e que o banco envolvido no projeto, o Vnesheconombank, estava sob sanções.

Em 2017, porém, a UE cedeu e deu seu sinal verde para a obra, o que causou a indignação da oposição húngara. Zoltan Illes, ex-deputado pelo Partido de Orbán, chegou a alertar que o financiamento para a usina era "camuflagem" e que a meta de Putin era "comprar influência".

Apesar de histórias radicalmente diferentes, Orbán e Putin compartilham de ideias claras sobre a democracia iliberal, defendem supostos valores cristão e insistem sobre a necessidade de que soberanias sejam valorizadas. Ambos, porém, usam o Ocidente como argumento de que seus governos estão sob ameaça.

Alternativa para Alemanha e a neta do ministro de Hitler

Outro país que registra um interesse especial de Putin é a Alemanha. O Kremlin é acusado por forças políticas de Berlim de ser um dos principais apoiadores do partido Alternativa para Alemanha (AfD, sigla em alemão), de extrema direita.

Uma das representantes do movimento, Beatrix von Storch, é neta de um dos mais importantes ministros de Adolf Hitler e foi recebida pelo presidente Jair Bolsonaro no ano passado, assim como pelos principais nomes do bolsonarismo no país. Na Europa, porém, o partido é alvo de suspeitas por suas relações com o Kremlin.

De acordo com o Dossier Centre, em Londres, Moscou mapeou parlamentares de extrema direita que poderiam ajudar a defender os interesses do Kremlin na Europa. Um deles era Markus Frohnmaier, do AfD. Num documento de abril de 2017, quando Frohnmaier ainda era candidato, ele é apontado como um potencial aliado e que precisaria de apoio na eleição.

No mesmo documento, os russos indicam qual seria o resultado da ajuda que dariam ao político: "teríamos nosso próprio deputado completamente controlado no Parlamento". Frohnmaier passou a ser um dos deputados que critica as sanções contra a Rússia e visitou a Crimeia, anexada por Moscou em 2014.

O Dossier Centre é financiado por Mikhail Khodorkovsky, um opositor de Putin e que permaneceu por dez anos em prisão na Rússia.

Naquele mesmo período, um dos jornais mais importantes do país, o Frankfurter Allgemeine Zeitung, revelaria como membros do partido ganharam um voo privado para visitar Moscou durante a campanha eleitoral. Os beneficiados eram Frauke Petry, Marcus Pretzell e Julian Flak. Dois deles confirmaram a veracidade das informações.

"Los nuevos amigos" de Eduardo Bolsonaro

Quem também vive um momento de questionamento é o movimento de extrema direita na Espanha.

Por anos, o partido Vox manteve uma relação de profunda alianças com as organizações ultracatólicas Hazte Oír e CitizenGo. Há poucos meses, um divórcio foi estabelecido, com as entidades acusando o partido de estar abandonando a agenda de valores.

Mas, enquanto a sociedade durou, uma das questões foi seu financiamento. Um dos membros do Conselho da CitizenGO é Alekséi Komov, um oligarca associado a Konstantin Malofeev, que chegou a ser alvo de sanções por sua proximidade com o Kremlin.

Numa investigação, a entidade OpenDemocracy revelou como a CitizenGO é apoiado por milionários russos, na esperança de ajudar o movimento espanhol a ganhar força para eleições.

Nos últimos anos, e principalmente depois que Donald Trump foi derrotado nos EUA, o deputado Eduardo Bolsonaro promoveu uma aproximação ao Vox. Ele foi um dos signatários da Carta de Madri, uma espécie de guia escrito por membros da extrema direita espanhola para "defender a liberdade e a democracia" na América Latina e Península Ibérica.


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