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Domingo 22.mai.2022

Ano X - Nº 488

Coluna

Floresta Amazônica morre após ser estuprada por garimpeiros

A face grotesca e cruel do ataque às populações indígenas

Postado em 28 de Abril de 2022 - Ricardo Moebus

Sílvia Guimarães - Arquivo pessoal Sílvia Guimarães - Arquivo pessoal

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Uma das faces mais grotescas e cruéis da invasão sistemática e programática do Território Indígena Yanomami veio ao noticiário esta semana com o estupro e homicídio de uma menina yanomami de 12 anos por garimpeiros ilegais que vivem, aos milhares, nas terras indígenas.

Isso acontece justamente no Abril Indígena, o mês consagrado e retomado pelo movimento indígena como o mês da visibilidade das lutas pelos direitos dos povos indígenas no Brasil, declarados na constituição, mas nunca garantidos.

Abril Indígena, para desbancar a hipocrisia do antigo “dia do índio”, mês do Acampamento Terra Livre, maior manifestação indígena do mundo, um apelo gigantesco mas que passa em branco na grande imprensa dos brancos.

O estupro desta jovem indígena neste mesmo mês abril da chegada das caravelas portuguesas neste mundo dos povos originários, atualiza de forma trágica uma cena inaugural desta triste nação construída na violência histórica e atual contra os indígenas, na invasão e na violação de suas terras-territórios-corpos-mentes-mundos.

522 anos depois a cena se repete de forma absurdamente perene, sempre os mesmos garimpeiros aventureiros sanguinários em busca de ouro, invasores armados prontos para implantar o terror, encontram o corpo indígena que habita e reluz na grandeza e na abundância da floresta, ambos vistos como presa fácil para a ambição de saquear corpos e territórios.

Por mais de cinco séculos uma nação que assiste impotente, de joelhos, o império construído pelos saqueadores mineradores estupradores que seguem estuprando diariamente a floresta amazônica e todos os outros biomas que possuam em suas entranhas ouro, ferro, prata, cassiterita, bauxita, manganês, nióbio...

Estupro que escancara a verdade explícita da violência inaugural da formação de uma triste nação ainda incapaz de se levantar e dizer não.

Nem uma gota a mais de sangue indígena é o mínimo que esta suposta nação precisa construir garantir adquirir, para ser algo mais que um eterno campo de guerra e acampamento garimpeiro, à beira de um rio que leva ao pacto humanitário, pacto pela vida, no qual nunca embarcamos.

O relatório “Yanomami sob ataque”, também divulgado neste mesmo abril, material minuciosamente construído, apresentando fartamente todos os dados, as informações, as fotografias, as geolocalizações, as pistas de pouso, os acampamentos, os equipamentos, tudo que se precisaria saber para agir, sobre os invasores ilegais que atuam na criminalidade dentro do Território Yanomami, portanto, a olhos vistos pelo Estado, o relatório denunciava, anunciava, prenunciava que o estupro e o homicídio aconteceriam, seguiriam acontecendo. Triste crônica de uma morte anunciada? Ou de violência pelo Estado chancelada?


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