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Terça-Feira 24.mai.2022

Ano X - Nº 488

Coluna

Quando a guerra tem rosto de mulher

Um fio de humanidade onde reside toda a esperança de que há um mundo possível no futuro

Postado em 20 de Abril de 2022 - Túlio Batista Franco

Reprodução do Youtube - The Telegraph Reprodução do Youtube - The Telegraph

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“Eu vim para casa.... Estavam todos vivos em casa... Minha mãe salvou a todos: meu avô e minha avó, minha irmãzinha e meu irmão. E eu voltei...

Um ano depois chegou nosso pai. Papai voltou com condecorações importantes, eu trouxe uma ordem e duas medalhas. Mas na nossa família ficou assim: a heroína principal era minha mãe. Ela salvou a todos. Salvou a família, salvou a casa. A guerra dela foi a mais terrível. Meu pai nunca usava nem ordens, nem fitas, ele tinha vergonha de se exibir na frente da minha mãe. Ficava sem jeito. Minha mãe não tinha condecorações.

Nunca na vida amei tanto alguém como amei minha mãe...”

Depoimento de Rita Mikháilovna Okunévskaia, soldado, sapadora-mineira[1] do exército soviético na 2ª. guerra mundial, a Svetlana Aleksiévitch no livro “A Guerra não tem rosto de mulher”. Companhia das Letras, 2016.

 

Na Ucrânia de hoje os “corpos de guerra” se dividem entre os que buscam ostensivamente meios para matar, e os que lutam por diversos meios para prover a vida. Os primeiros agem como se corre atrás de uma recompensa, em um esforço brutal pela conquista de territórios, recursos, domínio sobre populações. E os outros, que buscam preservar, produzir, reproduzir as vidas, se esforçam por ser um corpo cuja potência se move contrafluxo, na direção contrária ao esforço blindado por interesses inconfessáveis dos impérios em luta.

O que move os governos? Seu esforço de autopreservação, perseverar no controle dos povos que habitam determinados territórios, na expansão de si mesmos. Ação que é sempre ameaçadora, bélica, aponta para o domínio de povos e nações. Um jogo de forças que atualiza como acontecimento a estupidez da guerra, sua violência desmedida, subtração de humanidade como valor positivo. Em um mundo que vem perdendo há muito tempo o senso de proteção à vida, o conflito armado na Ucrânia, bem como em outras partes do mundo, é a continuidade das linhas de morte que atravessam a política global há muito tempo.

O que se supõe como força, medida pela métrica da precisão do artefato explosivo, a velocidade do míssil, a cidade destruída, os corpos no chão, a destruição, são na verdade a expressão de um mundo que esgota seu projeto de civilização, o fracasso de uma suposta humanidade, nascida no iluminismo da era moderna. A escala invertida dos valores põe abaixo os princípios civilizatórios que deveriam ordenar a sociedade global. A solidariedade é uma prática restrita a grupos determinados. Entre estes, as mulheres têm sido a face exposta da generosidade, coragem, força, potência, se arriscam nas ruas, estradas, vizinhança, que trazem em si o sopro de vida que resta entre tanta destruição.

Vidas se erguem entre os escombros, “corpos de guerra” resilientes, resistentes, força de expressão que tem nas faces femininas as marcas da potência. Estes avançam driblando a violência, e se amparam na generosidade dos encontros com o outro para proteger, cuidar, fazer com que a vida siga seu curso.

 “A Guerra não tem Rosto de Mulher” é o livro de Svetlana Aleksiévitch, que toma a narrativa das experiências de mulheres que lutaram no exército soviético na 2ª. guerra mundial. São histórias de trincheiras, batalhas, hospitais, estradas, sofrimento, e uma alegria contida no retorno para casa. Corpos que carregaram pela vida afora as marcas que a guerra foi capaz de lhes imprimir. Décadas depois de encerrada a 2ª. grande guerra, as agora senhoras atualizam as experiências de suas vidas, outrora jovens meninas que saíam do conforto da casa de seus pais, e a vida doce de uma pequena vila rural, para os sanguinários campos de batalha da Ucrânia, em meados da década de 1940. Trata-se de possivelmente um dos mais relevantes relatos do conflito, porque não são apenas histórias que se contam, mas são as entranhas de corpos violados pela brutalidade da guerra.

A guerra que vemos acontecer no centro da Europa hoje, traz as imagens de milhares de mulheres no front que alimenta as crianças, protege os idosos, mantém íntegras as famílias e comunidades, em cenário tão especialmente difícil, violento, quanto qualquer outro lugar do território conflagrado. Na Ucrânia de hoje a guerra tem rosto de mulher, e com ele persevera um fio de humanidade, reside toda a esperança de que há um mundo possível no futuro.

 

[1] Sapador é um soldado responsável por cavar fossos, trincheiras e galerias subterrâneas, geralmente em operações militares.


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