Semana On

Terça-Feira 17.mai.2022

Ano X - Nº 487

Comportamento

Filtros de selfie que afinam nariz e rosto incentivam racismo e cirurgias plásticas entre jovens

Após a proibição do Instagram a filtros que simulem intervenções estéticas, usuários vêm ensinando o uso de softwares que conseguem burlar a regra

Postado em 19 de Abril de 2022 - Fabiana Moraes – The Intercept_Brasil

Reprodução Reprodução

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Eu quero acordar parecendo Cindy Crawford”. A frase, uma referência à supermodelo norte-americana que dominou revistas, anúncios e retinas ao redor do planeta durante a década de 1990, seria até certo ponto banal não fosse por um detalhe: foi proferida pela própria Cindy. Ela, que costumava espantar-se com as fotografias de si publicadas nas Elles e Vogues da vida, sinalizava que desconhecia aquela mulher vista como perfeita após todo o tratamento nas imagens que a deixavam ainda mais magra e tonificada, sempre com a pele lisa e os ângulos do rosto marcados.

Mas, se ali as modificações no corpo e os retoques mais profissionais vinham das mãos de poucas pessoas que dominavam os softwares de edição de imagem, hoje há uma vasta oferta de filtros com grande capacidade de modificar narizes, preencher lábios, aumentar os olhos, reestruturar o rosto, clarear/escurecer a pele e definir maxilares – tudo isso em apps fáceis de baixar no celular. Além disso, a Meta (dona do WhatsApp, Facebook e Instagram) oferece não simplesmente filtros, mas ferramentas de criação de modificação corporal, possibilitando que usuárias e usuários personalizem as mudanças digitais e ainda vendam os filtros e máscaras  para outras pessoas que desejam aquela personalização para si. Ou seja, a possibilidade de um rosto único – como é o de todas e todos nós – é subvertida: a ideia é ficarmos quase todos com a mesma cara.

Um dos programas mais populares é o Spark AR Studio, software gratuito criado pelo Facebook que oferece desde efeitos pré-definidos à criação de projetos do zero. Anteriormente, a função era liberada somente para marcas famosas e celebridades, justamente os “grupos” que não só detinham maior controle sobre manipulação das próprias imagens como também se capitalizavam (e ainda se capitalizam) com a enorme atenção recebida. No YouTube, diversas pessoas ensinam os múltiplos usos do Spark AR, que vão da criação de animações (orelhas sobre a cabeça, perguntas flutuantes, partículas brilhantes, etc.) até as procuradas distorções faciais – com as quais é possível fazer, virtualmente, “verdadeiras” cirurgias plásticas.

Um exemplo é a criadora de conteúdo Larissa Rodrigues, que disponibiliza diversos tutoriais baseados no Spark AR mostrando como conseguir, virtualmente, uma “pele perfeita”, além de truques de maquiagem que alongam cílios e tornam bochechas e lábios corados (o famoso lip tint). A youtuber demonstra de maneira bastante didática, por exemplo, formas de tornar o rosto e o nariz mais fino. Também anuncia que vende seus filtros por preços módicos através de contatos por e-mail (a coluna enviou mensagem para a criadora, mas até o fechamento deste texto, não houve resposta). Dicas parecidas com as de Larissa são vistas também em canais como os de Lorraine Pinheiro Lopes e o Spark AR Tutoriais em Português: neles, filtros de cor, limpeza de pele e outras formas de alteração nas imagens são muito comuns.

Assistindo os vídeos nestes três canais – que trago apenas como exemplos randômicos, pois há dezenas de outros na mesma linha ensinando a utilizar o software – percebi como entre as primeiras dicas está justamente afinar o rosto e o nariz, o que nos leva a pensar como questões de raça e peso corporal também estão fortemente presentes nesses conteúdos (em um dos vídeos do Spark AR Tutoriais em Português, o apresentador já começa avisando: “como fazer um nariz fino e não ficar bugando. Esse vai ser um dos principais assuntos de hoje”). Uma outra característica presente em diversos outros vídeos no YouTube ensinando a realizar deformações: a maioria é apresentado e comentado por pessoas jovens, demonstrando uma mudança paradigmática em relação à questões como plástica e idade, algo que vai extrapolar o ambiente virtual.

A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica estima um aumento de 177% no número de procedimentos estéticos e reparadores realizados no país entre 2008 e 2018 – só os adolescentes de até 18 anos realizam cerca de 115 mil cirurgias plásticas por ano, um número que tende a subir cada vez mais. A dermatologista Gisele Saraiva, membro da Associação Brasileira de Dermatologia, tem acompanhado esse fenômeno de perto: ela conta que hoje é mais procurada por pessoas muito jovens, várias delas com menos de 20 anos, buscando mudanças na aparência. O aumento de lábios e intervenções no ângulo da mandíbula e no nariz são os hits. A relação com as redes sociais é grande: diversos pacientes a buscam mostrando no celular as imagens de si criadas após o uso de filtros. “A realidade está muito distorcida, o paciente de 20 anos e o de 50 anos têm a mesma aparência nos vídeos. É impossível para nós, na área de medicina, conseguir fazer isso no real e mesmo aceitar intervir no rosto de uma pessoa muito jovem”, conta ela, cujo consultório está em Recife. Em São Paulo, o clínico geral Antônio Bruno Neto, há anos especializado em procedimentos estéticos-dermatológicos, também percebe uma relação entre a popularização de filtros estéticos nas redes sociais e a chegada de gente muito jovem em seu consultório. Segundo ele, muitos são do mercado da publicidade, da moda e da beleza querendo parecer ter ainda menos idade.

O uso hard dos filtros que promovem uma espécie de “harmonização facial” (outro fenômeno nacional relacionado às redes sociais) foi barrado pelo Instagram/Facebook em 2019: ali, a empresa divulgou um comunicado informando que iria retirar do Spark AR os filtros associados à cirurgia plástica e, a partir de uma nova política de responsabilidade, novos filtros do gênero iriam passar por uma revisão mais apurada até serem aprovados. Isso porque os relatos sobre a relação entre redes sociais e dismorfia corporal (também casos de suicídios) aumentaram consideravelmente – e isso já antes da pandemia, quando olhar para nós mesmas nas telas se tornou mais comum.

Algumas pesquisas evidenciam esse fenômeno: um estudo realizado entre cirurgiões da Academia Americana de Plástica Facial e Cirurgia Reconstrutiva (AAFPRS, na sigla em inglês) mostrou que, em 2019, 72% deles foram procurados por pacientes que queriam realizar procedimentos para ter uma melhor aparência em selfies, um aumento de 15% em relação à pesquisa feita em 2018. Para se ter ideia da explosão, apenas 13% das pessoas apresentaram a mesma motivação em 2013.

Mas a retirada dos filtros de cirurgia plástica não mudou tanta coisa lá pelos Stories da vida: é possível encontrar diversos vídeos com dicas sobre como driblar os impedimentos do Instagram, como vemos no vídeo do canal de Larissa Rodrigues “como criar filtro de plástica (deformações) QUE APROVA pra instagram story Spark Ar”. Alguns destes criadores possuem enorme relevância na criação de realidades aumentadas, a exemplo de Jeferson Araujo, com 954 mil seguidores no Instagram e que, no ano passado, desenvolveu o filtro Cruella. O trabalho foi um sucesso e chamou atenção da Disney, que comprou o filtro na ocasião do lançamento do filme homônimo. Hoje dedicando-se mais aos filtros artísticos e/ou de humor (como o ótimo Rampage, que tatua o corpo e rosto de quem o usa), Jeferson também produzia tutoriais de cirurgia plástica: em um divulgado em 2019, ele segue a cartilha padrão e ensina os usuários a afinar o nariz. Durante a pandemia, a rinoplastia superou a lipoaspiração entre os procedimentos mais procurados. Em um país de maioria negra, no qual um fenótipo (características observáveis) muito comum é o de pessoas com narizes arredondados ou chatos, esse fenômeno é bastante revelador. Me parece que passa não somente por questões da dismorfia, mas da própria autonegação.

Os “rostos perfeitos” conseguidos ao custo de softwares e exibidos nas redes sociais é uma questão central nas políticas de visibilidade: o que os filtros também nos mostram é a repetição de formas específicas de ser em detrimento de outras. Crítica e conhecedora profunda desse cenário, a arquiteta e maquiadora Magô Tonhon, da consultoria LGBeauté (criada ao lado de Rapha Cruz), vem trabalhando com a ideia de beleza cidadã. Em 2017, criou as hashtags #SinalizaORetoque e #PelePossível justamente para fissurar a falsa perfeição vendida por imagens manipuladas e ainda pressionar criadoras e criadores de conteúdo a informarem as modificações. Ela chama atenção para o impacto destas várias “correções” de imagem em nosso imaginário. “Sobretudo porque elas firmam um ideal de beleza e mobilizam discursos, hoje com mais abalos que antes, que fundamentam racismo, misoginia, transfobia, capacitismo, etc.”

O ativismo de Magô está conectado a uma decisão francesa que, desde 2017, transformou o artigo L2133-2 do Código de Saúde Pública na França em lei: com ele, fotografias retocadas usadas comercialmente passaram a conter avisos indicando as alterações. Sem isso, as empresas podem pagar uma multa de 30% do investimento na campanha. No Brasil, tramita no Congresso o Projeto de Lei N.º 10.022/18, já aprovado pela Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara dos Deputados, que obriga a identificação de retoques digitais de modelos em imagens publicitárias. A proposta, que teve relatoria da deputada Sâmia Bomfim (Psol), ainda será analisada pelas comissões de Defesa do Consumidor e de Constituição e Justiça e de Cidadania.

Magô, uma mulher transgênera, sublinha que a difusão de imagens manipuladas precisa ser tratada, como na França, como questão de saúde pública, e situa essa necessidade também a partir de uma experiência pessoal. “Durante a minha transição, no meu renascimento, era importante tornar minha pele habitável para mim mesma, uma pele de mulher que tem passado, repleta de marcas, poros, texturas irregulares, como qualquer outra. As imagens que eu via no Instagram eram muito diferentes da realidade e aquilo gerava uma frustração muito grande, uma sensação de inadequação. Minha campanha nas redes provocou reações negativas, bloqueios, boicotes, me prejudicou um pouco porque eu estava tentando entrar no mercado como maquiadora. Há uma visão medíocre das áreas da beleza e da moda em achar que meu trabalho é uma recusa ao retoque, quando eu estou chamando atenção para a recusa na sinalização destes retoques”.

Nesse fenômeno formado por desejo, mercado e filtros, vale pensar na esperada popularização, também no ambiente virtual, de corpos e rostos que pouco circulavam no ambiente midiático, principalmente de forma positiva. Perfis de pessoas gordas relacionadas à área da beleza, por exemplo, são seguidos por milhares, a exemplo da empresária Mel Soares e da influenciadora Ju Romano. Esse paradoxo, no entanto, não deixa também de ter alguma conexão com a questão dos filtros. “Acho perigoso alguns discursos de afirmação que ganharam notoriedade, me parece que vão pelo mesmo trilho que justificam outros filtros. Não tento disputar um conceito de beleza do dia pra noite, aquilo que foi entendido como feio durante séculos não vai ser simplesmente belo agora”, reflete Magô, sublinhando a importância de uma fala que também vem de fora dos grandes palcos. “A margem também é uma posição, e pessoas trans e travestis ocupam essas margens. É a partir dela que vamos construir beleza”.

Um fosso entre real e virtual

Há de se chamar atenção ainda para uma problemática: como já foi sugerido anteriormente pela dermatologista Gisele Saraiva, os procedimentos estéticos frequentemente não conseguem, é claro, atender via botox ou bisturi aquilo que é construído à base de software. Esse é um dos desafios mais delicados dessa ordem virtual-real sem fronteiras bem demarcadas e é preciso lidar diariamente com as expectativas irreais das pessoas que procuram modificações no corpo. “A paciente chega ao seu consultório com uma foto cheia de filtro, emagrecida ali, aumentada acolá, e diz ‘olha, doutora, eu queria que você me deixasse desse jeito’. Você tem que parar e conversar. É o tipo de paciente que está confusa, muito influenciada pelo que se joga nas mídias sociais. A gente tem que fazer acompanhamento até mesmo psicológico”, conta.

O fosso mal coberto entre real e virtual também é constante no consultório do médico Antônio Bruno. “As pessoas com 60 anos levam até a mim fotos com filtros ou até mesmo imagens delas com 18 anos. Querem ficar daquele jeito. Eu já mostro na hora que aquilo é impossível, a idade da pele é outra, ela passou por vários processos de perda de hormônio, de elasticidade.” Como era de se esperar, o aumento na procura de procedimentos estéticos e a popularização dos mesmos tem gerado efeito rebote: multiplicam-se notícias sobre rostos e corpos deformados e ainda as mortes principalmente de mulheres, como mostrou a tese do dermatologista Érico Di Santis, da Unifesp, que evidencia a falha de notificações desses óbitos. “Hoje, atendo cerca de dois pacientes por dia para corrigir erros. Existem muitos paramédicos sem conhecimento científico abusando de intervenções, injetando produtos em áreas proibidas. Eu sempre gasto muito tempo durante a consulta para mostrar que aquilo ali não é real, é ilusão”, diz Gisele.


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