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Domingo 22.mai.2022

Ano X - Nº 488

Coluna

Linn da quebrada: representatividade e humanização para além do BBB

Ser LGBTQIA+ é estar constantemente num paredão. Você é, o tempo todo, julgado, vigiado e, se não atender as expectativas de gênero e/ou sexuais, será punido. Eliminado

Postado em 13 de Abril de 2022 - Ádamo Antonioni – Pragmatismo Político

Foto: Divulgação

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A cantora, atriz e agitadora cultural, Linn da Quebrada, nome artístico de Lina, foi eliminada no último domingo, 10, do Big Brother Brasil, reality show da TV Globo, que está em sua 22ª edição. Lina se identifica como travesti. Em seu discurso de apresentação, ao entrar na casa, disse: “Eu sou o fracasso. Não sou homem, nem mulher, sou travesti”.

A participação de uma pessoa transexual no reality show de maior audiência do país criou muita expectativa para a comunidade LGBTQIA+, desde Ariadna Arantes, que foi a primeira eliminada do BBB 11, nunca mais houve uma participante trans no programa. Anos mais tarde, Ariadna contou que foi alvo de transfobia por diferentes jornais naquela época.

Lina jogou, se jogou, gerou memes, ganhou a liderança, fez alianças com as comadres (Natália e Jessi) e foi chamada pelo pronome masculino pelos participantes por várias vezes ao longo do programa. Lina se identifica com o gênero feminino. Portanto, deve ser tratada pelo pronome feminino: é ela!

Lina foi eliminada com 77,6% dos votos do público, num paredão triplo. O argumento daqueles que defenderam sua eliminação é de que ela não jogou bem, e que nada tem a ver com sua identidade de gênero. O que estes indivíduos, majoritariamente cisgêneros e heterossexuais, não compreendem é que não se trata da pessoa Lina Pereira, mas da multidão de pessoas LGBTQIA+ que, com ela e através dela, se sentiam representados em TV aberta.

O Brasil lidera o ranking mundial do país que mais mata travestis e transexuais pelo 13º ano seguido. Os dados são do Dossiê Assassinatos e Violências Contra Travestis e Transexuais Brasileiras, que contabilizou o assassinato de 140 pessoas trans em 2021. Chama a atenção o modus operandi desses crimes cometidos com requintes de crueldade, são utilizados instrumentos mortíferos e a tortura prévia, travestis e transexuais antes de serem mortas, são apedrejadas, espancadas em lugares públicos, desfiguradas, esquartejadas. Isso demonstra o quanto à vítima, simplesmente, não é considerada “humana”, nem um sujeito digno do direito de viver, pelo autor ou atores do crime.

Em Vida precária, a filósofa Judith Butler afirma: “Quando consideramos as formas comuns de que nos valemos para pensar sobre humanização e desumanização, deparamo-nos com a suposição de que aqueles que ganham representação, especialmente autorepresentação, detêm melhor chance de serem humanizados. Já aqueles que não têm oportunidade de representar a si mesmos correm grande risco de ser tratados como menos que humanos, de serem vistos como menos humanos ou, de fato, nem serem mesmo vistos”.

Quando eu trabalhava numa TV em Campo Grande (MS), certa vez, ouvi da chefe do RH as seguintes palavras que ainda hoje me machucam quando lembro: “Ádamo, não tem problema você ser gay, desde que você trabalhe nos bastidores. Não acho certo você estar à frente das câmeras, apresentando, porque as pessoas comentam e isso pode pegar mal”. Ser LGBTQIA+, no Brasil é isso. É você não poder aparecer. Tem que desaparecer. Não ter visibilidade. Não ter representatividade. Pode até existir, desde que passe despercebido. Entre mudo e saia calado, como diz o ditado popular.

Ser LGBTQIA+ é estar constantemente num paredão. Você é, o tempo todo, julgado, vigiado e, se não atender as expectativas de gênero e/ou sexuais, será punido. Eliminado. Seja simbolicamente, como no caso da Lina, ou fisicamente, como no caso de Dandara dos Santos, uma travesti espancada e morta a tiros em Fortaleza em 2017. As imagens do crime foram divulgadas nas redes sociais, os algozes debochavam e gargalhavam, enquanto Dandara agonizava.

Lina, serei-a do asfalto, como você mesmo nos ensinou a cantar: “Mas não se esqueça. Levante a cabeça. Aconteça o que aconteça. O que aconteça: Aconteça!” Você, certamente, foi um acontecimento intenso, a conter cimentos do ódio nos corações empedernidos da sociedade brasileira. Amoleceu alguns, sensibilizou milhões, não ganhou um milhão e meio, mas em meio a tanto desamor, seu amor, nosso amor, aconteceu. Que amem, amém!

Ádamo Antonioni - Jornalista, professor de Filosofia. Doutorando em Educação (UFPR). Autor do livro: “Odeio, logo, compartilho: o discurso de ódio nas redes sociais e na política”.


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