Semana On

Terça-Feira 24.mai.2022

Ano X - Nº 488

Coluna

Mão amiga, braço forte, pau mole

O jornalista Victor Barone resume a semana política

Postado em 13 de Abril de 2022 - Victor Barone

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A série de escândalos que colocou as Forças Armadas no centro de mais uma crise para o Governo Federal ganhou um capítulo. Além de Viagra, próteses penianas, remédio para calvície e botox, o Ministério da Defesa licitou a aquisição de R$ 37 mil em bisnagas de gel lubrificante íntimo. As compras, que constam no Portal da Transparência, referem-se aos de 2019 e 2020. A sequência de descobertas sobre o perfil de gastos públicos do Exército, Marinha e Aeronáutica foi provocada por denúncias do deputado federal por Goiás Elias Vaz (PSB). Antes, o goiano já havia provocado debate nacional sobre uso de dinheiro público para o Exército comprar leite condensado, filé mignon, picanha, salmão, cerveja, whisky, champanhe, entre outras aquisições que afrontam os brasileiros.

Com base nos editais para aquisição dos produtos, parte dos lubrificantes seria destinada para hospitais. No entanto, há pedidos direcionados à Intendência da Marinha em Manaus e à Companhia de Infantaria do Exército. A 15ª Companhia de Infantaria Motorizada do Exército, localizada em Guaíra (PR), por exemplo, requereu 10 de bisnagas de 50 gramas dos lubrificantes íntimos. Também há registro de pedido para o Centro de Aquisições Específicas da Aeronáutica da Ilha do Governador. Nesse caso, a solicitação foi de mil unidades, cujo valor, somado, alcança R$ 19.990. Já o Centro de Intendência da Marinha em Manaus requereu também mil bisnagas do produto ao custo total de R$ 13.490.  Causa estranheza a quantidade excessiva e a destinação dos itens para unidades que não têm relação com os hospitais militares ou divisões de saúde das três forças.

O Ministério da Defesa adquiriu Minoxidil e Finasterida, dois dos principais remédios para combater a calvície masculina. Entre 2018 e 2020, foram empenhados R$ 2,1 mil para aquisição deste tipo de medicação. O uso da finasterida, inclusive, pode ter como efeito colateral disfunção erétil. O mesmo órgão público também licitou Viagra e prótese peniana, ambos são alternativas para casos de impotência e a perda de libido. No caso do Viagra, inclusive, há suspeita de superfaturamento de até 143% no valor do produto adquirido pelo Governo Federal e que, segundo o presidente Jair Bolsonaro, é destinado a tratamento de hipertensão.

Nas redes sociais, o assunto foi alvo de críticas e humor.

Em café da manhã com pastores no Palácio do Planalto, Jair Bolsonaro mentiu ao dizer que o Viagra comprado pelas Forças Armadas são para combate à hipertensão arterial e às doenças reumatológicas e minimizou a quantidade, segundo ele de 50 mil comprimidos do medicamento para militares da Marinha, Exército e Aeronáutica. Bolsonaro disse ainda que "as Forças Armadas estão apanhando muito de ontem para hoje” por causa das compras do Viagra, sem citar as licitações para tônico capilar e para próteses penianas.

O jornal britânico The Guardian ironizou a "farra da virilidade" praticada com dinheiro público pelas Forças Armadas Brasileiras. A reportagem começa dizendo que os opositores ao presidente Jair Bolsonaro, estão exigindo respostas após a revelação de que as forças armadas do país gastaram dezenas de milhares de pílulas para impotência [sic]. “Devemos entender por que o governo Bolsonaro está gastando dinheiro público na compra de quantidades tão grandes de Viagra”, declarou o parlamentar Elias Vaz (PSB-GO). 

E o jornal britânico prossegue citando a publicação do jornal O Globo sugerindo que as dosagens compradas eram geralmente usadas para tratar pênis, não pressão arterial. “Como você se sente sabendo que estamos pagando pelo Viagra para as forças armadas?” a cantora brasileira Zélia Duncan perguntou a suas centenas de milhares de seguidores no Twitter. “Sinto-me impotente”, respondeu um.

Ao final, o The Guardian descreveu a imagem que o presidente do Brasil transmite para o mundo. "Bolsonaro, de 67 anos, é um ex-capitão do Exército e paraquedista que encheu seu gabinete de militares e deu a entender repetidamente que estaria preparado para liderar uma “intervenção” militar contra as instituições democráticas do Brasil [sic]". 

Leia a reportagem completa do The Guardian

E o problema não se resume a apetrechos sexuais. Dede 2021 tem sido registradas compras milionárias para as Forças Armadas. Entre fevereiro de 2021 e fevereiro de 2022, o Ministério da Defesa adquiriu mais de um milhão de quilos de picanha, filé e salmão

DEBOCHE E CENSURA

O Gabinete de Segurança Institucional (GSI), comandado pelo ministro Augusto Heleno, decretou sigilo de 100 anos sobre os encontros entre Bolsonaro e os pastores lobistas Gilmar Santos e Arilton Moura, suspeitos de pedirem propina no Ministério da Educação (MEC) para liberar recursos para prefeituras. A tentativa de esconder informação veio como resposta a um pedido do jornal O Globo. 

O presidente Jair Bolsonaro (PL) resolveu agir com deboche sobre o tema quando questionado por um internauta sobre os sigilos. "Presidente, o senhor pode me responder porque todos os assuntos espinhosos/polêmicos do seu mandato, você põe sigilo de 100 anos? Existe algo para esconder?", perguntou o usuário do Twitter identificado como Lucas Elias Bernardino em uma postagem de Bolsonaro. O titular do Palácio do Planalto, então, respondeu, usando um emoji com o sinal de positivo: "Em 100 anos saberá". O internauta, por sua vez, reagiu à resposta de Bolsonaro. "Presidente, me parece um tanto quanto cômodo para o senhor e péssimo para toda a população, pq se a ‘verdade é o que nos libertará’, 100 anos não é muito tempo não?", questionou. 

Entre os sigilos de 100 anos impostos pelo governo, estão, por exemplo, ao processo contra o ex-ministro Eduardo Pazuello, que é general do Exército, por ter participado de manifestação com cunho político-partidário, ao cartão de vacinação do presidente e aos registros de acesso de seus filhos ao Palácio do Planalto. 

ATAQUES ANTIDEMOCRÁTICOS

Em entrevista a uma rádio do Pará, Jair Bolsonaro (PL) voltou a atacar ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e saiu em defesa do blogueiro Allan dos Santos, investigado como um dos chefes da milícia virtual que propaga discursos de ódio nas redes que fugiu para os EUA após virar alvo da corte. "Nós temos um jornalista, o Allan dos Santos, pode gostar dele ou não gostar, não me interessa isso daí, mas ele não pode viver como um exilado", disse. Na sequência, Bolsonaro iniciou os ataques, mirando primeiramente o ministro Alexandre de Moraes. "O próprio Alexandre de Moraes tentou extraditar, trazer para cá o Allan dos Santos. Não conseguiu, porque a legislação americana não extradita baseado nisso, na questão da liberdade de expressão", afirmou.

Bolsonaro ainda disse que alguns ministros do STF são "o grande problema" para passar a boiada na legislação ambiental. "Queriam amarrar o governo federal, nos proibir completamente de investir e buscar melhorias para a região [da Amazônia]", disse o presidente.

Bolsonaro mentiu mais uma vez para defender a mineração em terras indígenas, dizendo que as jazidas de potássio, que estão fora das áreas demarcadas, dariam suficiência para a indústria de fertilizantes do Brasil. Ele ainda voltou a que há exagero nos números sobre queimadas e desmatamento da Amazônia e disse que o PL que legaliza a grilagem de terras iria acabar com esse problema. "Até mesmo fogueira de São João pode ser foco de calor", declarou. "Vamos botar ponto final nesse número exagerado de focos de incêndio que existe na Amazônia", emendou.

GENTE DE BEM

Ecoando o discurso de ódio das redes e de políticos simpatizantes de Jair Bolsonaro (PL), um homem que diz ser morador da cidade de Natividade da Serra, que fica no Vale do Paraíba, próximo ao litoral norte de São Paulo, fez novas ameaças a Lula (PT). Em vídeo que circula em grupos de whatsApp, o homem vestido com a camiseta de Bolsonaro e um boné aparece em uma área rural. Com as mãos para trás ele faz ameaças. "Oh, Lula, deixa eu falar um negócio para você seu pinguço, ladrão, vagabundo, quadrilheiro. Você tá ameaçando os outros, seu bandido ordinário. Gostaria que você viesse me visitar aqui também. Eu moro aqui na cidade de Natividade da Serra, [bairrro de] Pouso Alto, perto de Caraguatatuba. Venha me visitar, diz o homem". Em seguida, ele mostra uma arma e começa a disparar tiros em um boneco que está logo à frente.

FRASES DA SEMANA

“Meu menino, era meu chefe de gabinete, eu botei ele lá”. (Ciro Nogueira, senador, PP-PI, chefe da Casa Civil de Bolsonaro e um dos líderes do Centrão, sobre Alexandre Cordeiro, presidente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica, órgão por onde passam negócios bilionários)

“Presidente, o senhor pode me responder por que todos os assuntos espinhosos e polêmicos do seu mandato, você põe sigilo de 100 anos? Existe algo para esconder?”. (Lucas Elias Bernardino, no Twitter. Resposta debochada de Bolsonaro: “Em 100 anos, você saberá”.)

“Bolsonaro fala que não tem corrupção no governo. Não tem porque não estão apurando. Por que o Fabrício Queiroz não foi depor até hoje? O meu irmão foi depor. Eu, que não fui intimado, foram lá em casa me buscar. Por que o Queiroz não depõe?” (Lula)

“Falo como psiquiatra: em parte, o eleitor do Bolsonaro não está no campo da racionalidade. Bolsonaro tem um piso elevado de eleitores que se identificam com seus valores, com a maneira dele de ser, com o que ele diz. Esse eleitor não sai dele.” (Marcelo Castro, senador, MDB-PI)

“Sei que alguns votarão em mim para barrar a extrema direita, não para apoiar meu projeto. Eu respeito isso.” (Emmanuel Macron, presidente da França, candidato do centro-direita, que disputará o segundo turno com Marine Le Pen, candidata da extrema-direita. A esquerda o apoia)

“Nenhum presidente, desde o fim da ditadura de Getúlio em 1945 – e passando sobre a ditadura militar— deu tantos motivos para ser investigado, exonerado por impeachment e processado, nem contou com tamanha proteção e tolerância quanto Bolsonaro.” (Janio de Freitas, jornalista)

“Poucas vezes na nossa história republicana o escritor, o artista, o produtor de cultura, foram tão hostilizados e depreciados como agora”. (Gilberto Gil, ao tomar posse como o novo imortal da Academia Brasileira de Letras)


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