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Terça-Feira 24.mai.2022

Ano X - Nº 488

Comportamento

Câncer e suicídio: uma relação preocupante

Focados principalmente na sobrevivência, tratamentos como rádio e quimioterapia ocorrem em sacrifício da resistência física e emocional do paciente

Postado em 12 de Abril de 2022 - Lucas Scatolini – Outra Saúde

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O câncer ultrapassou as doenças cardiovasculares como primeira causa de agravo de saúde em países ricos. A incidência da doença disparou na última década: entre 2010 e 2019, houve 26% de crescimento de novos diagnósticos; no mesmo período, mortes decorrentes do câncer tiveram 21% de aumento. Ainda segundo a análise do estudo Peso Global do Câncer, mais de 250 milhões de anos de vida foram perdidos pela incapacidade causada pela doença. Há mais de um século, supunha-se que o objetivo principal no seu tratamento era a sobrevivência, às vezes com o sacrifício de encargos físicos, financeiros e emocionais. Mas, à medida em que aumenta a expectativa de vida, é importante observar os efeitos de tratamentos e danos colaterais na qualidade de vida, e será crucial identificar pacientes com câncer e risco elevado de suicídio.

Há poucos dados ainda que relacionam a intersecção entre a doença e a interrupção da vida. Reportados pelo New York Times, na última segunda-feira, 28/2, os dois estudos mais recentes que foram publicados quantificaram detalhadamente o fardo psicológico causado pelo câncer e o risco de acarretar em doenças mentais, como ansiedade, depressão e, em casos extremos, ideação e tentativa de suicídio. Em um deles, foram revisados 28 estudos, abrangendo 22 milhões de pacientes da doença em todo o mundo. Segundo a análise realizada, a taxa de suicídio entre pessoas com câncer é 85% mais alta que na população geral; os índices de suicídio mais altos correspondem aos pacientes com cânceres de prognósticos piores, como os de estômago e pâncreas.

Ele ainda mostra que nos EUA, onde o câncer é a maior causa de morte, essas taxas são nitidamente maiores que na Europa, Ásia ou Austrália. Entre os motivos, os autores especulam que o alto custo da assistência médica ou mesmo a falta de cobertura para os tratamentos pode levar os pacientes a renunciar à tentativa de cura, para não levar suas famílias à falência. No segundo estudo, do University College London, um gigante banco de dados analisou fichas médicas de 460 mil pessoas com 26 tipos distintos de câncer diagnosticados no Reino Unido entre 1998 e 2020: 5% dos pacientes receberam diagnóstico de depressão após o diagnóstico de câncer e 5% de ansiedade; 1% deles se automutilaram depois da descoberta da doença; ​​​um quarto dos pacientes com câncer apresentaram transtorno de abuso de substâncias.

Em 2019, um estudo publicado na Nature também já alertava para a doença silenciosa: a pesquisa abrangeu mais de 8,5 milhões de pacientes com câncer, 13,3 mil deles cometeram suicídio. Predominantemente, os pacientes que cometeram suicídio eram homens e brancos; quanto mais jovens, maior a taxa em relação àqueles com o diagnóstico já em idade avançada. Outro dado importante, ainda segundo a análise: pacientes com câncer de pulmão apresentaram taxa de suicídio reduzida em cinco vezes após cinco anos de acompanhamento. Por isso, a importância do alerta. “Provavelmente poderemos prevenir o suicídio se falarmos desse assunto e se começarmos a fazê-lo desde cedo”, disse Seliger-Behme, neurologista da Universidade de Heidelberg, na Alemanha, e uma das autoras do primeiro estudo citado acima.


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