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Domingo 22.mai.2022

Ano X - Nº 488

Saúde

Teremos, enfim, uma vacina contra o câncer?

Pesquisadores estão otimistas com novos testes clínicos, que testarão imunizantes capazes de eliminar tumores antes que se formem

Postado em 12 de Abril de 2022 - Flávio Dieguez – Outra Saúde

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O oncologista e geneticista Eduardo Vilar-Sanchez, do Anderson Cancer Center da Universidade do Texas, está em vias de realizar, de acordo com a revista Nature, um dos primeiros testes clínicos de uma vacina anticâncer não viral, em um paciente da síndrome de Lynch – doença associada à predisposição hereditária para o desenvolvimento de diversos tipos de câncer. A experiência é ousada, escreve a revista, e resume promessas ambiciosas de prevenir uma doença, a rigor, invencível. O ceticismo está dando lugar a uma boa expectativa.

“Algumas equipes […] estão prontas para testar vacinas preventivas, em alguns casos em pessoas saudáveis com alto risco genético de câncer de mama e outros”. Uma dificuldade importante é a capacidade dos tumores de suprimir o sistema imunológico – anular as defesas naturais do organismo, especialmente no caso dos tumores mais desenvolvidos. Mas mesmo tumores nascentes podem causar esse efeito. Então, as vacinas podem ter papel importante nesses casos, ajudando pessoas saudáveis com risco de desenvolver câncer.

Note-se: não se buscam vacinas contra os poucos cânceres causados por vírus, como o da hepatite B, associado ao câncer de fígado, ou o do papiloma, associado ao câncer cervical. As vacinas, nesse caso, previnem o câncer eliminando o vírus. Mas agora o que se quer são vacinas que estimulem o organismo a eliminar as próprias células do câncer. Para isso, os imunizantes utilizam moléculas celulares, chamados antígenos, que são abundantes em células cancerosas. As vacinas transportam antígenos que estimulam reações de defesa orgânica, que o corpo então passa a empregar contra as células doentes.

A vacina que a equipe de Vilar-Sanchez vai testar procura atacar “neoantígenos”, que só os tumores têm (os antígenos podem aparecer em células saudáveis também). Os cientistas empregam um vírus especialmente modificado para carregar DNA capaz de introduzir no corpo 209 neoantígenos dos tumores de Lynch. É possível que o teste supere os resultados que essa mesma vacina já obteve em outros casos de câncer, em uma aplicação experimental pela empresa Nouscom, especialista em imunoterapia. No ano passado, a empresa anunciou que havia reduzido os tumores de sete entre 12 pacientes.

Tudo isso é bastante novo, lembra Nature, que há apenas dez anos desabonou a ideia de uma vacina para o câncer como “equivocada”. Claro, a complexidade da doença ainda é muito desafiadora. Ainda em 2017, a revista comentou que “em mais de três décadas de estudos pré-clínicos e clínicos de vacinas terapêuticas contra o câncer baseadas em muitos antígenos e formulações diferentes produziram apenas uma vacina [aprovada pela agência sanitária dos EUA]”. Mas também saudava – num artigo intitulado “O alvorecer das vacinas para a prevenção do câncer” – a evolução dos exames e da triagem do câncer, que revelou muitos antígenos tumorais.

Eles poderiam ser usados para desenvolver vacinas preventivas para o controle ou eliminação dessas lesões. Mais recentemente o National Center for Biotechnology Information divulgou um estudo otimista, que admitia a dificuldade das vacinas diante da imunossupressão causada pelo tumor em doenças em estágio avançado. Mas a eficácia das vacinas estava crescendo, comentou o estudo, com a mudança de foco para lesões pré-malignas (antes do desenvolvimento canceroso) ou para indivíduos saudáveis com alto risco de câncer. Os resultados eram encorajadores mas, ainda melhor, também abria-se a possibilidade de enfrentar até os “espertos” tumores avançados supressores da imunidade.


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