Semana On

Domingo 22.mai.2022

Ano X - Nº 488

Coluna

Crianças na guerra

O fazer de um mundo presente

Postado em 07 de Abril de 2022 - Cléo Lima

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Em 24 de fevereiro, quando a Rússia iniciou a invasão militar em larga escala contra a Ucrânia, eu não imaginava que estava perto de viver mais uma experiência de guerra: já vivi a guerra em território brasileiro; o país enfrenta, há décadas, guerras urbanas armadas nas favelas, como a invasão militar ocorrida no Complexo do Alemão, em 2010, na cidade do Rio de Janeiro.

Nos périplos por Portugal, tenho vivenciado muitos encontros e diversas realidades: vou compartilhar convosco, leitores, algumas narrativas sobre estes encontros, em especial sobre este, de uma questão mundial que está afetando muitos viventes: a Guerra entre a Rússia e Ucrânia.  Neste país, numa cidadezinha linda, que está enfrentando questões graves de desertificação, a camará (que se equipara ao governo de Estado no Brasil) prontificou-se em acolher refugiados da Ucrânia; notem que não utilizei a palavra “ucranianos”: o porquê vamos ver logo à frente.

 As primeiras famílias que aqui chegaram compunham-se de cinco mães e cinco crianças: chegaram exaustas dos cindo dias de viagem que fizeram de carro próprio até Portugal. O local escolhido para lhes abrigar foi a residência de estudante, onde também fui acolhida e acredito que não se trate de um acaso: já tenho em meu corpo esta experiência.

Era notório que aquelas pessoas tinham um alto padrão de vida e que, como tantas outras, haviam perdido suas residências e seu poder aquisitivo, de um dia para o outro no decorrer dos ataques russos. Segundo algumas dessas mães, não havia mais o que fazer, não adiantava ficar ajudando na produção de coquetéis molotov, arriscando ainda mais suas vidas e a de toda família: as lágrimas correram, aquecendo seus rostos, ao dizer dos de seus maridos, filhos, pais, tios, sobrinhos que para trás ficaram para lutar.

 A viagem não foi fácil. Algumas delas foram roubadas no caminho, outra teve o carro avariado; crianças exaustas, alojamentos inapropriados, mas era o que tinham e elas seguiram mesmo com as incertezas que as atravessavam. Para outros tantos refugiados que chegaram alguns dias depois do primeiro grupo foi ainda pior. Enfrentaram mais de 20 dias de viagem, além do frio de - 9 graus, corredores “humanitários” onde mal tinham lugares para dormir, trens superlotados, discriminação ética e racial... Tudo valia a pena para salvar suas vidas.   

No primeiro dia mães e crianças foram acolhidas, assim que chegaram, pela Dra. Borboleta: a linguagem da palhaçaria dispensava apresentações, era simplesmente uma conexão entre abraços e sons, que variavam entre apertos de mãos, desengonçados, e conversas de um jogo monossilábico, “ah, uh, oh”... Uma espécie de código palhaçal, com afirmativas e negativas como: “Sim wifi, não wifi”... “Ah, uh, oh!”... Um jogo de improvisos com todo o corpo presente dentro daquele encontro potente. Vencemos a barreira da língua que, confesso a vocês, foi a maior das preocupações. No decorrer da semana, passamos a nos comunicar através de gestos, ou de um inglês intermediário, ou, ainda, do tradutor do celular... E por aí seguíamos as comunicações.   

Passados alguns poucos dias, outros refugiados chegaram à residência de estudante, entretanto, este grupo possuía características diferenciadas: não eram apenas ucranianos, mas também imigrantes que moravam e trabalhavam na Ucrânia. Ao chegarem houve um “estranhamento” entre eles e os ucranianos que cá estavam; emergiram questões graves, xenofóbicas e racistas. Sim, leitores, mesmo diante de uma crise humanitária causada por uma GUERRA, em que o que está em jogo são VIDAS, ainda assim há quem despreze o valor de certas vidas. Ouviu-se, de alguns ucranianos, cuja autopercepção era de “sentir-se” de “classe média”, algumas queixas; indignaram-se, por exemplo, por haver abrigados “não ucranianos”. No entanto, penso que a questão é: todos estão navegando num barco sem ter onde ancorar, todos em situação de abrigamento e vulnerabilidade - são crianças, idosos, dentre outros -. Como assim não abrigar todos que precisam? Todos estão enfrentando as consequências da guerra.

 Algumas famílias chegam apenas com uma pequena mala, carregando o que restou de seus pertences pessoais. Alguns não conseguem dormir e não são poucos os momentos em que os vejo com olhos parados em lágrimas. A cada dia, a luz no fim do túnel fica ainda mais e mais distante... O que me resta é estender meus pequenos braços e abrir meus ouvidos para acolhê-los.

 As narrativas desses viventes e de tantos outros que enfrentam tamanhas vulnerabilidades, precisam ser defendidas. Como diz a Dra. Borboleta: É urgente salvar o mundo de todas as formas de discriminação, de tortura, de desigualdade, pois o que está em causa é a supremacia da Vida, ou seja: Por que algumas vidas não importam? Por que alguns ainda excluem outros? Quando a humanidade irá entender que Todas as vidas importam? É criminoso desumanizar ainda mais quem já está numa situação de desumanização.    

 Em pleno século 21, os homens insistem no descalabro das guerras, do fascismo, em nome de uma suposta ordem mundial para determinado país; não irei entrar nesse mérito por agora, mas não, não dá mais para suportar tamanha presunção, arrogância e desumanidade. Então pergunto: Qual o caminho para salvar a humanidade, se não a educação? Mas não qualquer educação: urge romper com essa educação para o capital, que dilacera corpos e mentes, educação esta construída para competitividade e não para a cooperação. Mal saímos de uma das maiores crises sanitárias da história, em decorrência da COVID-19 que gerou, por usa vez, uma crise humanitária, passamos por vários desastres climáticos, fome... e, então, trava-se uma guerra, que atinge vários países.

Enquanto resolviam-se as questões de quem ficaria com quem nos alojamentos, (alguns ucranianos não queriam ficar com indianos, palestinos, e por ai vai), todas as crianças sentaram-se juntas no refeitório e produziram um encontro potente de crianças com crianças: entre elas, cor, raça ou etnia, era o que menos interessava, só desejavam acolher umas às outras, em uma autopoiese de músicas, desenhos, solidariedade, acalanto, produzindo cuidado vivo e em ato.

 Este encontro me remeteu ao que vivi no Complexo do Alemão. Nessa época, eu era uma psicossocióloga e palhaça, que não sabia muito daquele território, mas tinha uma certeza viva: a de que era preciso cuidar na radicalidade que se exige no ato do cuidado, um cuidado não centralizado no corpo biológico ou psicológico, mas no cuidado afetuoso; mais uma vez a vida exigia-me abrir a caixa de ferramentas criativas, expressivas, escutativas e afetuosas, para envolver-me numa tarefa como esta, de acolher, crianças, mulheres, idosos e todos que ali chegaram vulnerabilizadas (os) pelo horror produzido pelas imagens da guerra. Esta radicalidade da potência de produzir cuidado e vida demanda, de forma indispensável, saber o que se está fazendo, ter múltiplos olhares e um corpo sensível ao outro: para mergulhar num mar em plena onda, é preciso saber surfar.

Aqui não está sendo diferente, está acontecendo uma produção afetiva, em que a arte e o brincar se entrecruzam, atravessando todos os corpos, sem distinção de cor, raça, etnia. Enquanto os “adultos” se “adulteram”, como bem dizia Rubem Alves, as crianças insistem em nos ensinar grandes experimentações de humanidade. 

A Gaia grita, as crianças gritam, os povos originários gritam e parece-me que o mundo ensurdeceu, em meio ao caos e à barbárie. Ainda assim com o mundo desmoronando, surgem pequenos seres que insistem em criar aparelhos escutatórios e auditivos, movimentos amorosos, produzir grandes encontros e acontecimentos. Eles mostraram e mostram pequenas fórmulas de produzir afetos e amor em meio à barbárie. Havemos de aprender com elas, as crianças, a fazer um mundo no presente!


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