Semana On

Terça-Feira 17.mai.2022

Ano X - Nº 487

Especial

Quem defende tortura não merece a democracia

Eleição de outubro é sobre a civilização e a barbárie

Postado em 07 de Abril de 2022 - Ricardo Noblat (Metrópoles), Leonardo Sakamoto e Josias de Souza(UOL) – Edição Semana On

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Nada, nada justifica a tortura e a morte de quem quer que seja por razão política; por razão nenhuma. Nada justifica uma tapa na cara, quanto mais tortura. Tapa e tortura inflingem dor e medo.

Quem autoriza sua aplicação? As leis não autorizam. A não ser que se ignorem as leis, o que só é possível em um regime assumido ou disfarçado de força bruta, como são as ditaduras.

O homem é um animal como qualquer outro. A única diferença é que ele pensa. Mesmo assim, as leis foram criadas para que os homens pudessem viver em sociedade, do contrário se matariam.

A invenção do Estado foi um momento de lucidez do ser humano, o maior predador do planeta. O que não o impede, justamente por isso, de se dedicar a destruir o meio ambiente que lhe deu a vida.

Jair Messias Bolsonaro não é apenas o pior presidente da história do Brasil, é também o presidente mais predador. Seu desamor por ele próprio o está levando a matar-se devagarinho, mas até aí…

Até aí seria problema dele. A eutanásia só é admitida em 9 países. Em um deles, a Suíça, o ator francês Alain Delon, doente, prepara-se para morrer. A decisão foi dele e deve ser respeitada.

Aqui, a pandemia foi o mais notável exemplo do desprezo de Bolsonaro pela vida alheia, a de milhares de brasileiros vítimas do vírus, ao qual ele concedeu passe livre para que matasse

Bolsonaro aposta na fraqueza da memória coletiva para ser perdoado. Paralelamente, faz questão de lembrar que, além de assassino, foi conivente com tortura e mortes durante a ditadura.

Se não se rebela, filho de peixe peixinho é. Se o pai exalta a memória do torturador Brilhante Ulstra, o filho Eduardo exalta a tortura infringida à jornalista Míriam Leitão nos anos de 1970.

O desejo de todo criminoso é que seus crimes fiquem impunes e acabem esquecidos. A anistia aos “crimes de sangue” foi decretada pelo regime militar para que seus agentes escapassem impunes.

A tortura e a morte foram uma política de Estado, aprovada pelos generais que presidiram o país à época, e não somente tolerada por eles. Todos sabiam que ela estava em prática, embora a negassem.

Se os mais graduados chefes militares de hoje ouvem calados as manifestações de um presidente que almeja reconstruir o Estado Autoritário de triste memória, é porque com ele estão de acordo.

Se se deixam usar por um ex-capitão afastado do Exército nos anos 1980 é porque são cúmplices dele. Não é sobre indisciplina que se trata, é sobre vocação para ditadores, amor a ditaduras.

As Forças Armadas fingem que mudaram, mas não mudaram. Sua formação não mudou. Os recrutas seguem sendo ensinados que os militares em 64 salvaram o país do comunismo e da inflação.

Em 1963, a inflação sob o governo de João Goulart foi de 80% ao ano. O general João Figueiredo, o último presidente da ditadura, legou uma inflação que em 1984 batera na casa dos 215%.

Comunismo como ameaça planetária à democracia não há mais, nem mesmo na China que se diz comunista. Por lá, o capitalismo vai muito bem, obrigado, porém em um regime de partido único.

Quem ameaça a democracia no Brasil é Bolsonaro e também todos os que o apoiam. A próxima eleição deveria ser sobre isso.

Família Bolsonaro faz uso político do desprezo pela dignidade

O deputado Eduardo Bolsonaro poderia discordar educadamente da jornalista Miriam Leitão, que afirmou em um texto que o presidente da República é inimigo da democracia. Ao invés disso, ele a atacou de forma criminosa. Mais do que um sinal de desprezo pela dignidade humana, o caso expõe o medo que o bolsonarismo tem de mulheres jornalistas e reforça como certos temas são tão sensíveis a Jair que precisam ser enterrados com polêmica.

No último dia 3, como resposta a uma postagem de Miriam, ele tuitou que estava com pena de uma cobra que foi usada em uma sessão de tortura na jornalista durante a ditadura militar. Ela estava grávida e já havia sido espancada nua na presença de soldados. Mesmo não sendo novo, esse modelo de agressão continua sendo usado porque choca e funciona.

1) Ao descer tão baixo, ele aciona a "Síndrome do Pombo Enxadrista". Ou seja, na falta de argumentos sólidos, age como um espécime dessa ave ao tentar jogar xadrez: pousa no jogo, derruba peças, defeca no tabuleiro e sai voando, cantando vitória. No fim, o debate é substituído pelo tumulto.

2) Quando crianças, aprendemos que quem tem bons argumentos consegue vencer um debate no diálogo, mas quem não os tem, ataca o interlocutor porque é o que lhe resta. Ad hominem, para ser mais exato. Aqui, o bullying chegou ao poder, ora usando a força bruta respaldada pela liberação de armas de fogo, ora através de uma grande quantidade de seguidores conectados em tempo real.

3) O governo tende a ignorar no jornalismo e nas redes sociais aquilo que não o preocupa. No máximo, coloca perfis fakes com zero seguidor para atacar uma postagem ou deixa que isso seja feito de forma orgânica pelos bolsonaristas-raiz. Miriam Leitão trouxe um tema delicado ao presidente, que torce pela polarização: ela avalia que é um erro da terceira via equiparar Lula e Bolsonaro. E isso, vindo de alguém com capacidade de influenciar, não podia ficar sem resposta.

4) O comportamento lacrador e violento em cima de uma jornalista nacionalmente conhecida de uma empresa de comunicação vista como inimiga pelo presidente anima o rebanho, que vê a imprensa como o "mal". Ao mesmo tempo, a apologia à tortura é bem recebida por esse grupo saudoso da ditadura, que defende a volta de um regime autoritário que puna os que ousarem ser contra. O desprezo pela dignidade humana é, dessa forma, utilizado politicamente para fortalecer posições do bolsonarismo junto aos seus.

5) Por fim, a perseguição bolsonarista é sempre mais violenta quando o alvo são jornalistas mulheres. Agem através de ameaças e agressões on-line, invadindo a vida privada das profissionais, distorcendo fatos, expondo dados pessoais, ameaçando filhos e pais, apelando para ataques sexuais. Acreditam que, dessa forma, outros profissionais de imprensa vão pensar duas vezes antes de questioná-los.

Considerando que muitas das coberturas, entrevistas e investigações mais contundentes são produzidas por mulheres jornalistas, colocando em risco a realidade paralela que o presidente tenta vender, o ódio do bolsonarismo, para além de ser expressão clara de sua misoginia, é também sintoma de medo. E quando acuado, o presidente e sua família ladram.

Para citar alguns casos de Jair: em junho de 2021, Jair Bolsonaro mandou Laurene Santos, repórter de uma afiliada da Rede Globo, calar a boca. Também disse que ela e sua equipe eram "canalhas". No dia 1º de junho do mesmo ano, chamou apresentadora da CNN Brasil Daniela Lima de "quadrúpede" ao distorcer a seus apoiadores uma fala da jornalista. Em fevereiro de 2020, repetiu uma mentira que já havia sido contada por um depoente na CPMI das Fake News e por seu filho, Eduardo Bolsonaro, de que a jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo, teria se insinuado sexualmente em troca de informações.

Em 10 de março de 2019, Bolsonaro compartilhou informação falsa sobre a repórter Constança Rezende, então no jornal O Estado de S.Paulo, promovendo um linchamento virtual. Em 16 de maio daquele ano, atacou Marina Dias, da Folha de S.Paulo: "Primeiro, você, da Folha de S.Paulo, tem que entrar de novo numa faculdade que presta e fazer um bom jornalismo. É isso que a Folha tem que fazer e não contratar qualquer uma ou qualquer um para ser jornalista". E em julho, chamou de "idiota" a pergunta de Talita Fernandes, da Folha, sobre um helicóptero da FAB que transportou parentes e amigos exatamente para o casamento de Eduardo.

No mesmo mês, durante um café da manhã com correspondentes estrangeiros, Bolsonaro foi questionado sobre o fato de a jornalista Miriam Leitão ter sido desconvidada de uma feira do livro em Jaraguá do Sul (SC) após pressão de grupos de extrema direita. Passou a atacá-la, chegando ao ponto de dizer que a tortura que ela sofreu durante a ditadura militar, fato fartamente documentado, era mentira.

"Ela estava indo para a guerrilha do Araguaia quando foi presa em Vitória. E depois conta um drama todo, mentiroso, que teria sido torturada, sofreu abuso etc. Mentira. Mentira", disse. Mentira dele, no caso, pois ela, que fez oposição à ditadura, nunca cogitou se juntar à guerrilha.

Agora, Eduardo Bolsonaro não só reafirma a tortura, que o pai negou que havia ocorrido, como faz apologia a ela. Existe método e objetivos políticos na misoginia e no ataque à democracia desferidos pelo presidente e sua família. Com instituições funcionando normalmente, isso não ficaria impune. Infelizmente, não é o caso.

Eduardo assume que Jair é mentiroso

Ao zombar da tortura que Miriam Leitão, Eduardo Bolsonaro acabou por reforçar a crença popular de que seu pai é um baita de um mentiroso.

Sua apologia à tortura foi duramente criticada por políticos, jornalistas e sociedade civil, gerando denúncias contra ele no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados. Como seu pai alugou o centrão pelo menos até o final do ano com os bilhões do orçamento secreto, ele deve passar ileso. O que mostra o baixo nível em que o Congresso se encontra.

Contudo, ao debochar da tortura sofrida por Miriam Leitão, Eduardo Bolsonaro mostra que ele sabe que o crime ocorreu e que, portanto, Jair, que diz que a tortura não aconteceu, é um mentiroso. Sim, o comentário que faz uso político do desrespeito à dignidade humana ao servir de alimento e distração do rebanho bolsonarista contradiz o que seu próprio pai defendeu em julho de 2019.

De acordo com a última pesquisa Datafolha, uma parcela de apenas 17% da população acredita em tudo o que Jair Bolsonaro diz, enquanto 82% nunca confiam ou confiam apenas às vezes nas palavras do presidente. A mentira é usada como instrumento de seu governo, da mesma forma que foi empregada como ferramenta de sua campanha eleitoral e como base de seus mandatos parlamentares.

O debate levantado por Miriam Leitão em seu texto, de que a terceira via erra ao equivaler Lula e Bolsonaro uma vez que o atual presidente é um inimigo da democracia, é fundamental.

Ironicamente, o comentário de Eduardo acaba por passar um recibo duplo disso, com o ataque à dignidade humana que ele promove seguindo os passos do pai e com as mentiras que Jair conta para construir a realidade paralela de seu projeto de poder.

Família e varíola

Jean-Paul Sartre ensinou que família é como varíola: "A gente tem quando criança e fica marcado para o resto da vida." Na organização familiar dos Bolsonaro, quem sai ao patriarca não endireita. Eduardo Bolsonaro, terceiro filho da linhagem presidencial, abespinhou-se porque Míriam Leitão anotou na sua coluna de domingo que "Bolsonaro é inimigo confesso da democracia." Em reação, o Zero Três correu às redes sociais para debochar da tortura sofrida pela jornalista durante a ditadura militar.

A ignorância impede que percebam que alguém que sofreu a truculência da tortura e exerce o jornalismo com a dignidade e a coragem que caracterizam o trabalho de Míriam Leitão não se intimidará com ameaças ou gracejos ordinários. O autoritarismo não permite que notem o quão abjeto é o comportamento de gente que elogia torturadores e defende a volta do AI-5 escondidos atrás de mandatos obtidos numa democracia que foi conquistada à custa do sofrimento alheio.

O distúrbio dos Bolsonaro não é político. O caso é de psicopatia.

Câmara faz de conta que mandato miliciano de Eduardo Bolsonaro não existe

Há na Câmara um Brasil fictício em que nada que os deputados façam é tão grave que justifique uma punição, muito menos a cassação. Habitante desse mundo paralelo, Eduardo Bolsonaro já se referiu a uma deputada como Peppa Pig, a porca de um desenho animado; já mandou que as pessoas enfiassem as máscaras "no rabo", já defendeu a volta do AI-5 e acaba de debochar da tortura sofrida por Míriam. A Câmara convive com o mandato miliciano do filho do presidente fingindo que ele não existe.

Alvejado por novos pedidos de cassação no Conselho de Ética da Câmara, Eduardo diz que querem passar o seu mandato na lâmina por causa de "uma piada". É nessa ficção que nenhum autor de novela assinaria para não passar por inverossímil que a Câmara decidiu viver. Os colegas já pouparam Eduardo Bolsonaro antes. Voltarão a arquivar o processo agora.

A diferença entre a ditadura e a democracia é que na democracia o direito de ser ouvido não inclui automaticamente o direito de levado a sério quando a piada é um crime como a apologia à tortura. Enquadrado no Código Penal, renderia uma sanção mixuruca: três a seis meses de cadeia ou multa. A cassação, acompanhada da inelegibilidade por oito anos, seria mais adequada. Mas a chance de acontecer é inexistente.

Impune, um deputado miliciano nos corredores e no plenário da Câmara é um personagem em constante mutação. De embaraço passa a hábito, de hábito evolui para parâmetro e, quando se percebe, nada mais precisa ser muito explicado —do orçamento secreto à utilização do plenário como covil de bandidos— no Legislativo que finge que nada aconteceu.

Eduardo Bolsonaro chegou à Câmara embalado por 1,84 milhão de votos. Foi um recorde histórico. O deputado vai à sorte das urnas em outubro. O eleitor de São Paulo pode cassá-lo. Ou pode fazer como a Câmara, fingindo que nada aconteceu. Nessa hipótese, será cumplice de mais um mandato miliciano.


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