Semana On

Domingo 22.mai.2022

Ano X - Nº 488

Poder

Doria e Moro escancaram a debilidade da 3ª via

Manobra do tucano aprofundou o abismo no PSDB; Bolsonaro avalia que herdará os votos do ex-juiz

Postado em 01 de Abril de 2022 - Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On

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Dizia-se que os partidos de centro tricotavam nos bastidores para levar à pista uma "candidatura única". Um nome capaz de retirar Bolsonaro do segundo turno, medindo forças com Lula no segundo round. O vaivém de João Doria e a fuga de Sergio Moro mostraram, nesta quinta-feira, que a suposta articulação não passa de um festival de desespero e traição —dois fenômenos que, em política, ornam com a derrota. Doria e Moro escancararam a debilidade da terceira via.

No melhor estilo Jânio Quadros, Doria avisou de madrugada que renunciaria à candidatura, permanecendo no governo de São Paulo até o fim. No meio da tarde, renunciou à renúncia. Queixava-se da traição do vice Rodrigo Garcia e do presidente do PSDB Bruno Araújo. No plano estadual, Garcia o renegaria quando colocasse o pé sobre o palanque de candidato a governador de São Paulo. Na seara federal, Araújo ajudaria a trazer à boca do palco o tucano Eduardo Leite.

Sentindo-se também traído pelo Podemos, que lhe sonegou apoio e verbas para a campanha, Moro bateu em retirada para o União Brasil. Enfrentou o veto da ala liderada por ACM Neto à sua pretensão presidencial. Não podendo elevar a própria estatura, o ex-juiz rebaixou o pé-direito do seu projeto.

Puxa daqui, estica dali, Doria contentou-se com compromissos cenográficos de Garcia de não renegá-lo durante a campanha para governador. Arrancou uma carta de Araújo reafirmando um respeito retórico pelas prévias partidárias que todos sabem que não existe. Antes de assinar o texto, Araújo avisou Leite e seus apoiadores que agia para evitar a permanência de Doria no Palácio dos Bandeirantes como um estorvo ao projeto partidário em São Paulo. Leite continua na pista. A candidatura de Doria, que já claudicava, provoca o entusiasmo de um velório.

Quanto a Moro, dobrou os joelhos antes de firmar a coluna. Trocou a corrida pelo trono do Planalto pela disputa de uma cadeira na Câmara. De candidato a fenômeno eleitoral, tornou-se um asterisco a serviço do plano do União Brasil de elevar a sua bancada federal para abocanhar fatias mais generosas do bolo de verbas públicas.

Doria e Moro jogaram óleo na terceira via. Se os candidatos desse núcleo imaginam que podem disputar uma eleição presidencial apenas iluminando o passado sujo de Lula e o presente caótico de Bolsonaro, vão continuar derrapando na pista. Detestar Lula e ter horror a Bolsonaro pode render desabafos. Mas não enche o cesto de votos.

Manobra de Doria aprofundou o abismo tucano

A manobra executada por Doria para constranger os tucanos que tramam substituir a sua candidatura presidencial pela de Eduardo Leite aprofundou o abismo em que se encontra o PSDB. Doria arrancou uma carta do presidente do partido, Bruno Araújo, reafirmando o resultado das prévias tucanas. Mas o vaivém do candidato impulsionou a dissidência que trama substituir Doria por Leite, derrotado nas primárias. Deseja-se colocar em pé a chapa Eduardo Leite-Simone Tebet, não necessariamente nessa ordem. O arranjo transita no eixo PSDB-MDB-União Brasil.

"Agora estou tranquilo", disse João Doria depois de intranquilizar rivais e aliados tucanos com a ameaça de permanecer no Palácio dos Bandeirantes, renunciando à candidatura ao Planalto. Após desistir da desistência, Doria tentou justificar a manobra. Alegou que sentiu "a necessidade de ter um apoio explícito" do PSDB.

Em público, Doria distribuiu sorrisos amarelos e disse ter enxergado na carta de Bruno Araújo o apoio "incontestável" de que precisava para trocar o governo paulista pelo palanque. Longe dos refletores, o governador continuou reclamando de correligionários como Aécio Neves e Tasso Jereissati. Avalia que deu uma lição nos traidores. Engano.

Antes de escrever a carta de apoio a Doria, Bruno Araújo disparou alguns telefonemas. Conversou, por exemplo, com Leite e Aécio. O texto serviu para tirar Doria do Bandeirantes, no pressuposto de que a conjuntura se encarregará de expurgá-lo da corrida ao Planalto. Eduardo Leite, o cavalo de Tróia dos tucanos, continua na pista. O problema é que, assim como Doria, o cavalo de Tróia do tucanato galopa dentro da margem de erro das pesquisas. Dispõe, por ora, de 1%.

Bolsonaro avalia que herdará os votos de Moro

Bolsonaro conversou com os operadores de sua campanha sobre os efeitos das mais recentes derrapagens observadas na terceira via. O presidente concluiu que herdará a maioria dos 8% de votos que o Datafolha atribuiu a Sergio Moro. Acha que o provável reforço reduzirá a "zero" a possibilidade de surgir um candidato alternativo capaz de retirá-lo do segundo turno. Compartilham da mesma opinião o filho Flávio Bolsonaro, que coordena a campanha; Valdemar Costa Neto, dono do PL; e Ciro Nogueira, chefe da Casa Civil.

Desprezado pelo Podemos, Moro migrou para o União Brasil fazendo pose de conciliador. Disse que abriu mão de sua candidatura para "facilitar as negociações" que buscam um nome capaz de livrar o país dos "extremos" onde enxerga Lula e Bolsonaro. Insinuou que pode voltar. Na análise de Bolsonaro, o recuo não tem volta. Os novos correligionários de Moro reforçam a percepção do presidente. A ala comandada por ACM Neto no União Brasil se apressa em informar que Moro foi admitido na legenda sob a condição de disputar uma cadeira no Congresso, provavelmente na Câmara.

Pesquisas feitas por encomenda do PL indicam que Moro roubou votos de Bolsonaro sobretudo na faixa mais rica do eleitorado, nicho do eleitorado em que ambos têm o seu melhor desempenho. Daí a conclusão de que o presidente herdará o grosso do espólio do seu ex-ministro. No Planalto, a manobra de João Doria, que ameaçou imitar Moro para forçar uma demonstração de apoio do PSDB, foi tratada como piada.

Na opinião do presidente, o "calcinha apertada", como ele se refere a Doria, ficou numa calça ainda mais justa, pois irritou os tucanos que preferiam vê-lo fora do páreo para apressar a articulação que tenta transformar Eduardo Leite em novidade. Bolsonaro acha que Doria desistirá. Torce para que ele demore a jogar a toalha.


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