Semana On

Segunda-Feira 16.mai.2022

Ano X - Nº 487

Especial

O bolsofascismo

País vive processo de ‘autocratização’

Postado em 25 de Março de 2022 - Ivan Longo, Marcelo Hailer e Lucas Vasques (Fórum), Jamil Chade e Chico Alves (UOL) – Edição Semana On

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O vereador de Porto Alegre e policial civil Leonel Radde (PT-RS) foi alvo de ameaças de morte feitas por neonazistas através de mensagens enviadas no número de WhatsApp de seu mandato. Radde coordena a ‘Operação Bastardos Inglórios’, um canal de denúncias, em parceria com a polícia, que visa identificar e combater a atuação de grupos neonazistas no Rio Grande do Sul. 

Nas novas mensagens recebidas, os extremistas chegaram a dar uma data para a morte do vereador: dia 31 de outubro deste ano. "Sua morte está planejada, será dia 31 de outubro de 2022, 21h, no Rio Grande do Sul", diz uma das mensagens. 

"Vamos te matar, seu lixo. Sua cara vai ficar cheia de balas", dizem os detratores, que prometem ainda matar o ex-presidente Lula (PT), a deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) e também o ativista do movimento negro Antonio Isupério, que já vou alvo de ameaças de grupos neonazistas em outras ocasiões. 

"Se prepara, você, Lula e o Isupério estão ferrados, vamos acabar contigo, seus vermes, lixo, macacos de merda (...) Lula vai morrer", dizem, em meio a inúmeras mensagens do tipo. 

Em outra, deixam claro que pertencem a grupos nazistas. "Eu acabo com tua vida se mexer com o cara que vendeu objeto nacional socialista [referência ao Partido Nacional Socialista, de Adolf Hitler]. Se você continuar prendendo fascistas, acabo com tua raça e da Maria do Rosário", escrevem, junto a fotos e gifs de armas e um vídeo de uma mulher negra sendo enforcada e assassinada por supremacistas brancos. 

"Novamente avisamos aos nazifascistas: NÃO SEREMOS SILENCIADOS. A Operação Bastardos segue ativa e logo teremos novidades", escreveu Leonel Radde ao divulgar as ameaças. 

Brasil vive processo de "autocratização"; democracia recua 30 anos no mundo

O caso de Leonel Radde é a ponta de um iceberg tóxico, e expõe o aumento do totalitarismo de direita no país. O Brasil passa por um processo de "autocratização" e é considerado como um dos cinco países onde a democracia sofre os maiores abalos no mundo na última década. O alerta é do V-Dem Institute, da Suécia, um dos principais centros de pesquisa sobre o estado da democracia e que avalia centenas de dados de cada país por décadas. Segundo o estudo, a crise na democracia brasileira só não foi maior graças à atuação da Justiça, freando o presidente Jair Bolsonaro.

Para os pesquisadores do centro, o Brasil não é uma democracia liberal, já que vive desafios para garantir que todos os critérios de um estado de direito consolidado sejam atendidos. No ranking da entidade, o país aparece apenas como uma "democracia eleitoral".

A classificação sobre o índice de democracia nos países é liderada por Suécia, Dinamarca, Noruega, Costa Rica, Nova Zelândia, Estônia, Suíça, Finlândia, Alemanha, Irlanda, Bélgica e Portugal.

Na modesta 59ª posição, o Brasil perde para países como Gana, Bulgária, Senegal, Armênia, Romênia, Cabo Verde, África do Sul ou São Tomé e Príncipe.

O V-Dem Institute, que faz parte da Universidade de Gotemburgo, produz o maior conjunto global de dados sobre democracia, com mais de 30 milhões de pontos de dados para 202 países entre os anos de 1789 e 2021. Envolvendo mais de 3.700 acadêmicos e outros especialistas de outros países, o V-Dem mede centenas de diferentes atributos de democracia e, segundo seus representantes, permite novas maneiras de estudar a natureza, causas e consequências da democracia.

O instituto deixa claro que o Brasil está entre os países que mais sofreu um processo de erosão da democracia na última década, ao lado de Hungria, Índia, Polônia, Sérvia e Turquia. Na América Latina, o Brasil faz parte de um grupo que conta como El Salvador, Nicaragua e Venezuela.

A deterioração da democracia no país só não foi maior por conta da resistência do Supremo Tribunal Federal, diante da pressão de Bolsonaro para deslegitimar o sistema eleitoral.

Outra característica do Brasil é a "polarização tóxica" no sistema partidário e no debate político.

"Por exemplo, a polarização no Brasil começou a aumentar em 2013 e atingiu níveis tóxicos com a vitória eleitoral do presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro em 2018. Desde que tomou posse, Bolsonaro se uniu aos manifestantes para pedir a intervenção militar na política brasileira e o fechamento do Congresso e da Suprema Corte", disse. "Além disso, ele promoveu uma militarização em larga escala de seu governo e a desconfiança do público no sistema de votação", denuncia o grupo.

Erosão da democracia no mundo e um retorno ao ano de 1989

No restante do mundo, a situação é também considerada como preocupante. De acordo com o estudo, o nível de democracia desfrutado pelo cidadão global médio em 2021 caiu para os níveis de 1989.

"Os últimos 30 anos de avanços democráticos estão agora erradicados. As ditaduras estão em alta e abrigam 70% da população mundial - 5,4 bilhões de pessoas", alertou.

A entidade estima que as democracias liberais atingiram o auge em 2012 com 42 países nesta qualificação. Mas, agora, estão nos níveis mais baixos em mais de 25 anos. Hoje, apenas 34 nações podem ser chamadas como democracias liberáis abrigam apenas 13% da população mundial.

"O declínio democrático é especialmente evidente na Ásia-Pacífico, Europa Oriental e Ásia Central, assim como em partes da América Latina e do Caribe", declarou.

Já as ditaduras estão em ascensão. O número de autocracias fechadas passou de 25 para 30 países, com 26% da população mundial

Mas é a autocracia eleitoral que é considerada como a situação mais comum, abrigando 44% da população mundial, ou seja, 3,4 bilhões de pessoas.

Grupos neonazistas se espalham pelo Brasil, apontam pesquisadores

Que o Brasil tem acompanhado nos últimos anos o crescimento de grupos neonazistas não é uma surpresa, basta uma navegação e pesquisa pelas redes para se dar conta de como tais grupos "saíram do armário" e promovem discursos de ódio sem nenhum constrangimento.

Mas, com o objetivo de superar o "achar" e o "perceber", alguns pesquisadores brasileiros têm se dedicados nos últimos anos a mapear os grupos neonazistas no Brasil.

Uma dessas pesquisadoras é a antropóloga Adriana Dias que, segundo as suas estimativas hoje existem cerca de 530 células (formadas por pessoas que estão no município).

A pesquisadora revela que, em 2019, havia detectado 334, um aumento de 58%. O trabalho de Adriana Dias é feito a partir da Unicamp e é permanente. Neste ano, foram identificados cerca de 200 perfis de usuários neonazistas, o que pode indicar novas células.

Thiago Tavares, diretor-presidente e fundador do SaferNet Brasil, ONG que estuda o discurso de ódio no Brasil, também revela números preocupantes: em 2019 foram recebidas e processadas 1.071 denúncias; em 2020, o número de denúncias saltou para 9.004 e 3.884 páginas, das quais 1.659 foram removidas.

A principal preocupação de ambos os pesquisadores, além do crescente número de perfis nas redes, é a "normalização" de tais grupos e de seus respectivos discursos.

Tal preocupação levou especialistas de várias universidades a criarem o Observatório da Extrema Direita no Brasil, que é coordenado por Odilón Caldeirão, professor de História Contemporânea da Universidade Federal de Juiz de Fora.

Há elementos fascistas no governo Bolsonaro, diz professor

A cada dia que passa Jair Bolsonaro confirma que seu governo é influenciado por ideias de um dos movimentos mais abjetos da história: o fascismo. Se no início do mandato os especialistas tinham pudor de usar o termo, o próprio presidente faz questão de confirmar essa influência por atos e palavras.

A última oportunidade em que isso ocorreu foi na visita que fez ao primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban, outro governante de extrema-direita. Ao exaltar a "comunhão de valores" entre os dois países, Bolsonaro repetiu o lema fascista "Deus, pátria, família e liberdade" (apenas a palavra "liberdade" foi acrescentada).

"Não há dúvida de que existem elementos fascistas dentro do governo", confirma o doutor em História Leandro Pereira Gonçalves, da Universidade Federal de Juiz de Fora, em entrevista à coluna. "O governo se articula dentro de uma tendência global dessa ótica populista, autoritária, mais radical".

O professor identifica em Bolsonaro a influência da versão brasileira do fascismo italiano, o integralismo, criado nos anos 1930 por Plínio Salgado. Rejeição a partidos políticos, crítica ao modelo de democracia liberal, anticomunismo e conservadorismo de costumes são algumas das características do movimento.

Autor do livro "O fascismo em camisas verdes - Do integralismo ao neointegralismo" , em parceria com o professor Odilon Caldeira Neto, Gonçalves avalia que o neofascismo cresceu enquanto as forças políticas progressistas do país viam esses grupos como algo anedótico, que jamais ofereceriam risco para a democracia.

Ele alerta para a banalização desse tipo de ideologia. "Há a naturalização em relação não apenas a práticas, mas até mesmo de discursos fascistas que atingem as ruas, atingem a sociedade", alerta

A seguir, os principais trechos:

Governo Bolsonaro é fascista?

Não há dúvida de que existem elementos fascistas dentro do governo. Há uma prática de articulação política fascista, inclusive com defensores desses ideais dentro do governo.

Penso que o governo se articula dentro de uma tendência global dessa ótica populista, autoritária, mais radical, com uma tendência de práticas fascistas. Principalmente dentro de uma composição muito simbólica, resgatando determinados ideias dos anos 30.

É bom ser destacado que essa não é uma tendência apenas do Brasil. É uma tendência global de organizações partidárias e lideranças populistas radicais de buscar nas origens do fascismo determinadas apropriações. É assim em muitos países. Foi assim semanas atrás na eleição portuguesa, que deu uma grande vitória ao Chega, do André Ventura, é assim no Vox, na Espanha, e porque não falar do próprio Donald Trump, e também o Viktor Orban, na Hungria.

(...) O bolsonarismo é um verdadeiro balaio de gatos, uma colcha de retalhos. Existem vários tipos de bolsonaristas dentro do governo e apoiadores do governo. Tem bolsonaristas do lado liberal de Paulo Guedes, caminhando pelo conservadorismo religioso neopentecostal, até grupos que defendem a intervenção militar. Dentro desses grupos bolsonaristas existem os neofascistas. Existe uma prática neofascista de uma militância dentro de determinadas articulações políticas, inclusive no governo Bolsonaro.

Integralismo, versão brasileira do fascismo

Esse foi um movimento que teve muito impacto na sociedade, milhares de pessoas em vários lugares do Brasil aderiram ao movimento integralista, que combatia os partidos políticos. Era contra o modelo da democracia liberal, uma questão que não pode passar desapercebida, porque até pouco tempo o presidente Jair Bolsonaro não tinha um partido político e sempre utilizou um discurso antissistema, algo muito próximo ao que era feito dentro dessa organização. Além de de ter esses grandes inimigos claros, como o comunismo.

(...) Esse lado simbólico é muito importante. Quando o governo, não só o presidente, mas quando outros grupos da política brasileira utilizam o lema "Deus, pátria e família" sabe-se muito bem o que está sendo feito. Não é um slogan que foi encontrado de forma aleatória. Obviamente se sabe que era o lema dos integralistas, do fascismo no Brasil, e propositalmente está sendo repetido, como por exemplo no que ocorreu na recente visita do presidente à Hungria.

Neointegralismo foi subestimado

Como o chefe (Plínio Salgado) morreu, muitos entendiam que o integralismo teria chegado ao fim. Os militantes reorganizaram o movimento em várias vertentes, com o ressurgimento de diversas organizações, justamente o neointegralismo.

Nesse momento, as organizações fascistas brasileiras passaram a ser tratadas com esse tom de chacota

(...) Quantas vezes eu, como estudioso do integralismo, já fui questionado. Até por acadêmicos. "Para que você está estudando integralismo? Para que está escrevendo a biografia de um líder que não tem importância alguma?" Então, a existiu, sim, um menosprezo das forças progressistas.

(...) Eu lembrei muito da relação que existia na política, dos neointegralistas com o PRONA, do falecido Enéas Carneiro. O Enéas sempre foi levado para esses tom mesmo de chacota, o voto de protesto. Só que os neointegralistas encontraram no PRONA do Enéas uma possibilidade de representação.

Banalização do fascismo

É um problema essa naturalização. Em relação não apenas a práticas específicas, mas até mesmo de discursos fascistas que atingem as ruas, atingem a sociedade. Isso não é algo novo. É algo que está ficando cada vez mais visível, mas que já está presente na nossa sociedade. Nos momentos pré-impeachment da presidente Dilma, em 2016, no ato que ocorreu na Avenida Paulista, por exemplo, carros de som carregavam aquelas faixas SOS militares, golpe militar, grupos da integralistas foram para as ruas para criticar a divisão dos três poderes.

Fascistas no governo, nas ruas e nos partidos

Os neointegralistas, em defesa do lema "Deus, Pátria e Família", foram inseridos em uma pasta fundamental para a manutenção da chamada ala ideológica do governo Bolsonaro, que é o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Os neointegralistas foram para as ruas e deixaram seu núcleo virtual. Eles atingiram a política e passaram a agir de forma radical. Basta lembrar episódios como o ataque em 2018 à UniRio, em que o Centro Acadêmico foi destruído por neofascistas, e , mais recentemente, em dezembro de 2019, o ataque à produtora do Porta dos Fundos.

Além disso, uma coisa que é importante ser ressaltada: os neointegralistas e neofascistas passam a aproveitar as brechas legais da política democrática brasileira, justamente para defender a antidemocracia, algo que a gente observa desde as últimas eleições presidenciais.

Depois de terem dialogado com o Prona, do Enéas, com o PRTB, de Levy Fidelix e do general Mourão, de ter dialogado com o Patriota, hoje os neointegralistas fazem parte de um dos grandes partidos da história do Brasil, que é o PTB de Leonel Brizola, de Getúlio Vargas, de João Goulart, e que hoje é defendido e liderado por Roberto Jefferson. Ele que justamente acena uma mudança da política do partido ao inserir o lema "Deus, Pátria, Família e Liberdade", justamente o que foi usado por Bolsonaro na Hungria.

O lema "Deus, Pátria e Família" está cada vez mais atual.

Quase 1 milhão de pessoas leram material neonazista em 2021, diz pesquisadora

“Somente em 2021, quase 1 milhão de pessoas leram material neonazista”, diz Adriana Dias. Além da leitura, esse conteúdo acabou sendo propagado de diversas formas, principalmente por meio das redes sociais, inclusive estimulado por Jair Bolsonaro.

De acordo com as pesquisas da antropóloga, os focos não param de crescer. Em 2009, em função de brigas entre eles, os dois principais grupos neonazistas em atividade no país tinham recuado e as células se desligaram.

“Era o momento de destruir o neonazismo no país, mas nada foi feito. Em 2011, os grupos que restavam organizaram uma passeata no Masp (Museu de Arte de São Paulo) pró-Bolsonaro. A partir daí eles voltaram à cena nacional, criaram uma ligação forte com Bolsonaro e passaram a crescer 60% ao ano”, relatou Adriana.

Ela contou, ainda, que hoje esse crescimento é de 150% ao ano. “Perdeu-se o controle da ameaça que isso representa”.

Uma das causas do panorama atual, ainda segundo a pesquisadora, tem relação com a legislação brasileira. “O mais grave é que apenas o nazismo é tipificado no país. O fascismo, não. Ou seja, o fascismo não é crime no Brasil. Por isso, há grupos imensos fascistas se formando, porque sabem que não é proibido”, revelou.

Adriana apontou, também, que o comportamento reiterado de Bolsonaro “legitima e permite o avanço desses grupos”.

Adriana encontrou carta de Bolsonaro a site neonazista

Para corroborar que a ligação de Bolsonaro com o neonazismo é antiga, Adriana relembrou que encontrou uma carta do atual presidente publicada em sites neonazistas em 2004.

Três sites diferentes de neonazistas mostravam um banner com a foto de Bolsonaro e o link que levava ao site que o então deputado tinha na época, além de uma carta em que ele afirmava:

“Ao término de mais um ano de trabalho, dirijo-me aos prezados internautas com o propósito de desejar-lhes felicidades por ocasião das datas festivas que se aproximam, votos ostensivos aos familiares. Todo retorno que tenho dos comunicados se transforma em estímulo ao meu trabalho. Vocês são a razão da existência do meu mandato”, dizia a carta.

Adriana relatou, ainda, que o avanço desses grupos no Brasil precisa ser brecado. “É um movimento internacional. O maior partido neonazista da Alemanha tem um instituto de pesquisas. Os integrantes escolheram uma cidade do Paraná para instalar o instituto de pesquisas deles. Estão em dúvida entre Londrina ou Curitiba”, informou.

Trata-se do partido ultradireitista de linha neonazista AfD (Alternativa para a Alemanha). Em julho de 2021, Bolsonaro recebeu, no Palácio do Planalto, Beatrix von Storch, neta do ministro das Finanças de Adolf Hitler (Johann Ludwig Schwerin von Krosigk) e filiada a este partido.


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