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Sexta-Feira 20.mai.2022

Ano X - Nº 487

Coluna

Contra a guerra

Frente à polarização estéril no teatro de guerra, há os que dão passagem à vida

Postado em 24 de Março de 2022 - Túlio Batista Franco

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Parece que resolveram acabar com o planeta e a população dentro, tamanha a irracionalidade que toma conta dos dirigentes dos países mais ricos, que invariavelmente ditam os destinos da política global. Já dizia Bruno Latour[1], há uma perda de orientação geral caracterizada pelos dispositivos de destruição do planeta e autodestruição da espécie. E para resistir a este desatino, “será preciso aterrar em algum lugar”. Isto significa redefinir os afetos da vida pública, e suas bases. Já há bastante sofrimento acumulado com a indescritível emergência climática, uma situação limite que mata milhões de pessoas mundo afora todos os anos, além da morte anunciada de milhares de espécies que dividem conosco o ar e as águas de Gaia. Febril, ela não responde mais às condições ótimas de vida, que um dia foi possível oferecer aos viventes deste lugar. Este é um primeiro dispositivo de morte atravessando o planeta.

O segundo: Um vírus que até então vivia no seu lugar, em harmonia com a natureza, fez o movimento de “transbordamento” e pulou de uma espécie silvestre para humana, dando início a uma das maiores tragédias que o mundo moderno conhece, a Pandemia de Covid-19. O morticínio provocado por um agente da natureza, provocado por uma brutal atividade predatória, chegou a um limite perigoso de ameaça à espécie humana.

O terceiro dispositivo de morte, a guerra na Ucrânia. Causou uma destruição avassaladora em 30 dias de conflito, e promete o apocalipse depois que a irracional atitude dos dirigentes norteamericanos, associada à vassalagem medíocre dos governos europeus, resolveram adotar a tática do ressentimento: para matar a economia russa, vão suicidar a economia global. O mundo está à beira de uma recessão global, crise energética e de alimentos, para a qual eles não têm respostas. Não ligam a mínima para a fome. As irascíveis sanções são um novo ataque à população do planeta, especialmente os dos países mais pobres. A advertência vem de Lionel Zinsou, ex-presidente do Benin, que se dirige à diplomacia francesa em tom de advertência e desespero:

“[...] procure uma solução para o seu problema o mais rápido possível, porque se o conflito não terminar em um mês, a África explodirá. É para você que os problemas de energia estão em primeiro plano. Na pior das hipóteses, você terá menos calor e menos carros, e teremos um problema de fome na África! Ouça-me, a crise na África acarretará a destruição da Europa”[2]. Associado ao alerta, Lionel fala de uma África resiliente, com um espírito livre marcado pela decolonialidade, que hoje é parte do imaginário que anima importantes segmentos progressistas do continente.

Em meio à polarização estéril entre os lados que se debatem no teatro de guerra, há os que dão passagem à vida, frente ao horror do momento. Fazem que ela aconteça como potência, solidariedade, generosidade, valores comunitários. Dentro deste mês já vimos mulheres ucranianas alimentando e apoiando a um soldado russo após sua rendição em Kiev; Larissa Leonidovna, diretora do orfanato Svyatoshinksy, que conduziu 200 crianças por mais de quinhentos quilômetros até se encontrarem em segurança na Polônia; Olga a jovem mãe cobriu com o próprio corpo a filha de um mês, no meio de um bombardeio em Kiev, e conseguiu salvá-la. Reside na potência desses corpos uma força que deverá nos levar a um território existencial diferente deste que estamos presos neste momento.

 Enquanto os governos agem centrados na ideia de controle de territórios, recursos e acumulação de riquezas, este cenário prepara a derrota de uma geração. Alguém precisa dizer que tem uma saída que não seja o imperialismo americano, o colonialismo europeu, e o domínio russo. Há de haver em algum lugar, força suficiente para anunciar um novo mundo com liberdade, autodeterminação dos povos, fim de toda forma de opressão, humilhações, guerras.

Fim da Otan.

Pelo desarmamento.

Contra a guerra.

 

 

[1] Onde Aterrar? _ como se orientar politicamente no Antropoceno. São Paulo: Bazar da Boitempo, 2020.


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