Semana On

Sexta-Feira 20.mai.2022

Ano X - Nº 487

Poder

Generais se ajoelham para Bolsonaro

Já não se fazem militares cheios de brios como os de antigamente

Postado em 18 de Março de 2022 - Ricardo Noblat (Metrópoles), Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On

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O primeiro general a pôr-se de joelhos diante do ex-capitão Jair Bolsonaro foi Luiz Eduardo Ramos, atual ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, antes ministro-chefe da Secretaria de Governo e ministro-chefe da Casa Civil.

O segundo general, Hamilton Mourão Filho, atual vice-presidente da República, é aspirante ao Senado pelo Rio Grande do Sul. Ali, em 2015, ele perdeu o Comando Militar do Sul por ter dito que o impeachment de Dilma era “o despertar para a luta patriótica”.

Há fotos de Ramos de joelhos. No caso de Mourão, seu ato de submissão ao ex-capitão afastado do Exército por má conduta foi sonoro, mas não menos humilhante. Ao se filiar ao partido Republicanos para ser candidato, ele disse ontem:

“O presidente Bolsonaro sabe que tem toda a minha lealdade e apoio irrestrito ao seu projeto de reeleição”.

Michel Temer queixava-se de ser um “vice-presidente decorativo” até que sucedeu Dilma. Mourão tem motivos de sobra para se queixar do tratamento que recebeu de Bolsonaro, mas não o faz. É o vice-presidente mais vilipendiado da história do Brasil.

Sobre Mourão nos últimos três anos, o mínimo que Bolsonaro falou em público foi:

“No meu caso, a escolha do vice foi feita meio a toque de caixa, mas o Mourão faz o seu trabalho, ele tem uma independência muito grande. Por vezes, atrapalha um pouco a gente, mas o vice é igual cunhado: você casa e tem que aturar o cunhado do teu lado, não pode mandar o cunhado embora”. (26/7/2021)

No último dia 24, Bolsonaro chamou de “peruada” o fato de Mourão ter condenado a invasão russa da Ucrânia, e repreendeu-o de maneira áspera:

“Deixa eu dizer uma coisa: o artigo 84 da Constituição Federal é bem claro e diz que quem fala sobre esse assunto é o presidente. E quem é o presidente? Jair Messias Bolsonaro. E ponto final. Então, com todo o respeito a essa pessoa que falou isso, ele está falando algo que não deve, que não é de competência dela. Quem está falando está dando peruada naquilo que não lhe compete”.

Se os brios do general foram feridos, ninguém sabe. Mourão teria mais chances de se eleger se fosse candidato ao Senado pelo Rio, mas Bolsonaro manobrou e impediu. Enxotado para o Rio Grande do Sul, ele precisa da ajuda do chefe para se eleger. Daí…

Daí ter curvado a espinha como Ramos, que, sem Bolsonaro, estaria de pijama jogando dominó; ou como o general Braga Netto, de saída do Ministério da Defesa para ocupar a vaga de vice na chapa de Bolsonaro à reeleição. Ramos, Mourão, Braga…

O que os generais de antigamente diriam a respeito deles? A respeito de si mesmo, Mourão disse:

“Ainda não chegou o momento de encerrar minha participação na vida política no país. Cada século tem sua crise, e este século 21 não foge deste aforismo”.

Ajoelhado

Sob Bolsonaro, general virou generalidade. Presidente, divindade. Protegido pelo voto, Hamilton Mourão livrou-se da caneta. Mas foi açoitado pela língua do inquilino do Planalto. Bolsonaro já declarou que o vice "por vezes atrapalha." Comparou-o a um cunhado: "Você casa e tem que aturar, não pode mandar embora".

Ao se lançar como candidato ao Senado pelo Republicanos do Rio Grande do Sul, Mourão respondeu às usuais humilhações com uma inquebrantável submissão: "O presidente Bolsonaro sabe que tem toda a minha lealdade e apoio irrestrito ao seu projeto de reeleição."

Inicialmente, Mourão pediria votos no Rio de Janeiro, onde as pesquisas lhe sorriam. Foi empurrado pelo bolsonarismo para a arena gaúcha. Ali, terá de ralar uma disputa encrespada —à direita, enxerga a ex-senadora Ana Amélia (PSD); à esquerda, a ex-deputada Manuela D'Ávila.

Mourão deve enganchar suas pretensões políticas na caravana do candidato a governador Onyx Lorenzoni, um político que considera precário. Sujeita-se a arranjos que preferia evitar no pressuposto de que arrastará para o seu cesto os votos do bolsonarismo.

Ao sentar praça no Republicanos, Mourão declarou: "Ainda não chegou o momento de encerrar minha participação na vida política no país. Cada século tem sua crise, e este século 21 não foge deste aforismo."

Ainda não se sabe se Mourão fará história. Mas já é possível notar o que a história fez dele. Desce ao verbete da enciclopédia como primeiro general da história a ajoelhar diante de um capitão. Não é um capitão qualquer. Foi definido pelo ex-presidente Ernesto Geisel como um "mau militar." Deixou o Exército pela porta dos fundos.


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