Semana On

Domingo 22.mai.2022

Ano X - Nº 488

Poder

Pacote de Bolsonaro engana trabalhador ao despir um santo para cobrir outro

Auxílio Brasil de R$ 400 começa a pingar na conta eleitoral do presidente

Postado em 18 de Março de 2022 - Leonardo Sakamoto (UOL) - Edição Semana On

 Imagem: Clauber Cleber Caetano/Presidência da República Imagem: Clauber Cleber Caetano/Presidência da República

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O pacote de Jair Bolsonaro para "reaquecer a economia" basicamente permite aos aposentados gastarem agora um 13º que vai fazer falta no final do ano, a endividados usarem dinheiro que já é deles e a quem está na xepa armar novas bombas-relógio em formas de empréstimo consignado. Transferência de renda real para a classe trabalhadora, que viu seu rendimento médio cair quase 10% em um ano, de acordo com o IBGE? Neca.

Lembrei-me, ao ver a pompa do anúncio em Brasília, de uma exposição maravilhosa que passou pela Japan House, em São Paulo, sobre a cultura japonesa de transformar embalagens em obras de arte - o que faz com que frutas comuns, por exemplo, tornem-se presentes inigualáveis.

O governo Bolsonaro reforça que conhece bem a "cultura do embrulhar". Soube empacotar uma série de medidas velhas de uma forma bonita, vendendo aos jornalistas e à sociedade como se fossem a coisa mais incrível que pudesse aparecer quando, na verdade, entregou aos trabalhadores a responsabilidade por aquecer a economia, oferecendo algo que já era deles ou facilitando que se afundem ainda mais.

O pacote prevê que trabalhadores com recursos no FGTS possam sacar até R$ 1 mil do seu próprio dinheiro; que aposentados antecipem o pagamento do seu 13º salário, descobrindo um santo para cobrir outro; que aposentados e pensionistas e beneficiários do BPC e do Auxílio Brasil possam comprometer até 40% de seus benefícios em empréstimos consignados, reduzindo a renda à disposição mensalmente.

Claro que quem está com a corda no pescoço vai participar, mas imaginar que a pessoa se tornará uma devedora eleitoral do presidente por conta de um pacote que permite a ela usar seu próprio dinheiro para amortizar a dívida com o banco ou com a financeira é tratar a massa dos trabalhadores como inimputáveis.

Soluções pouco ortodoxas, como as que incluem perdão de dívidas ou crédito sem juros, são vistas com maus olhos pelo governo - que só adotou uma limitada anistia no Fies porque o ex-presidente Lula estava prometendo o mesmo, caso eleito. Grandes empresas têm acesso a perdões, já trabalhadores têm acesso ao pelourinho.

Aliás, a quarta iniciativa do pacote, que garante microcrédito para microempreendedores de R$ 1 mil a R$ 3 mil, seria interessante e fugiria da lógica das anteriores se o governo não cobrasse juros da ordem de 2% ao mês, ou seja, ainda acima da inflação - IPCA fechou fevereiro em 1,01%, e, janeiro, em 0,54%.

O governo diz que o pacote injetará R$ 150 bilhões "em potencial" na economia, porque sabe que isso não depende dele e sim de como os trabalhadores vão receber a ideia. Daí, qualquer coisa pode ser "em potencial". Um combalido torcedor do Santos pode afirmar que, "potencialmente", ele será campeão paulista, da Copa do Brasil, do Brasileirão e da Super Copa. Ele está certo e fora da realidade, ao mesmo tempo.

Auxílio Brasil de R$ 400 começa a pingar na conta eleitoral de Bolsonaro

Parte dos eleitores de baixa renda que haviam se distanciado de Jair Bolsonaro após votarem nele, em 2018, estão voltando a se aproximar do presidente com o Auxílio Brasil de R$ 400. É o que aponta a pesquisa Quaest, encomendada pela Genial Investimentos, e divulgada no último dia 16. O tamanho do impacto, contudo, é incerto por conta da inflação nas alturas.

Entre os que votaram em Bolsonaro e recebem o benefício, a quantidade dos que consideram que seu governo está "pior do que o esperado" caiu de 45%, em fevereiro, para 23%, em março. Ou seja, uma redução de 22 pontos. Os que consideram que o governo está "melhor do que o esperado" passou de 25% para 31% e os que acham que o governo é "nem melhor, nem pior que o esperado" saltou de 27% para 44%.

Entre os eleitores de Bolsonaro em 2018 que não recebem o Auxílio Brasil, a queda na avaliação negativa, ou seja, os que acham que o governo é pior do que o esperado, foi menor, passando de 35% para 29%. E os que acham melhor do que o esperado passou de 30% para 34%.

Com a terceira via não mostrando ainda ao que veio, há uma tendência natural de que antigos eleitores do presidente que estavam insatisfeitos com o seu desempenho, mas repudiam o ex-presidente Lula, voltem a indicar voto em Bolsonaro. Mas o pagamento dos benefícios faz com que a curva de mudança de percepção sobre o governo seja mais íngreme.

Na avaliação geral, 50% afirmam que o governo Bolsonaro está pior do que o esperado, 31%, nem melhor, nem pior, e 17% melhor do que o esperado.

Outro dado que reforça isso é que a reprovação do governo de Jair Bolsonaro caiu de 57% para 49% entre os que ganham até dois salários mínimos, entre fevereiro e março. Na faixa dos que recebem entre dois e cinco salários mínimos, a avaliação negativa se manteve em 50% e na dos que ganham mais de cinco salários, caiu pouco, de 48% para 45%.

Nas duas regiões mais pobres do país, a reprovação do governo Bolsonaro caiu de forma mais significativa. No Nordeste, passou de 61% para 56% e no Norte, de 48% para 36%. No Sudeste, permaneceu com 47%, no Centro-Oeste, com 42%, e, no Sul, foi de 49% para 48%.

A aprovação no Sul teve um salto de 22% para 32%. A região, que deu uma expressiva porcentagem de votos para Jair em 2018, começa a tomar o caminho de volta para "casa". A avaliação positiva do presidente no Centro-Oeste foi de 26% para 29% - com participação expressiva do agronegócio, é a única região em que ele ganha de Lula no primeiro turno, por 39% a 29%.

No Norte, a aprovação foi de 25% para 29%, no Nordeste, de 16% para 18%, e no Sudeste, de 24% para 25%.

Para efeito comparativo, a avaliação negativa geral do governo Bolsonaro foi de 51% para 49% e a positiva, de 22% para 24% no mesmo período.

O tamanho do ganho eleitoral do presidente com o Auxílio Brasil é, contudo, incerto por conta da corrosão trazida pela inflação. O IPCA fechou fevereiro com um acumulado de 10,54% nos últimos 12 meses. Ao mesmo tempo, é de quase 11% a queda no rendimento médio dos brasileiros no último ano, segundo o IBGE. O gás de cozinha subiu 16,1% na sexta passada e o óleo de soja, o café, o feijão e a batata explodiram em várias capitais, segundo o Dieese.

A pesquisa Quaest aponta que o número de eleitores que considera a economia o principal problema do país foi de 35% para 51% de fevereiro para março.

Entre os que afirmam que a principal razão para a escolha de seu candidato é a situação econômica do país, Lula aparece com 48%, Bolsonaro, 20%, Moro, 8%, e Ciro 7%. Quando a razão é a situação econômica pessoal do eleitor, Lula tem 58%, Bolsonaro, 20%, Moro, 7%, e Ciro, 6%, de acordo com a Quaest.


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