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Terça-Feira 24.mai.2022

Ano X - Nº 488

Cultura e Entretenimento

Torto Arado

O realismo mágico do interior da Bahia entre os mais vendidos

Postado em 04 de Março de 2022 - Rodrigo Pael

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O livro “Torto Arado” nos posiciona em uma fazenda, no interior da Bahia, ocupada por negros que só tinham direito de morar na propriedade como pagamento de seu trabalho. Dentro dos metros quadrados de seus terrenos, as famílias podiam produzir para a subsistência, mas parte de produção ainda era confiscada pelo proprietário das terras.

A obra é maiúscula e de qualidade universal. Seu autor, o professor doutor e geógrafo Itamar Vieira, narra o místico destino de duas irmãs, Bibiana e Belonísia, de uma família rural marcada por um trauma insólito. Uma faca ancestral mutila a língua de uma delas, a fazendo muda, porém juntando a vida das irmãs de forma única.

“Torto Arado” não é para iniciantes. É forte e poderoso. Parece que o autor geógrafo nos faz sentir nos pés e nas mãos o relevo das crenças afro-brasileiras em uma noite de festa ritualística e acordar com a pele oleosa a fritar em um sol inclemente.

A história se passa em um momento em que qualquer tipo de organização social por direitos era punida com a morte, em que as injustiças sociais eram ilustradas na relação com a terra e em que a relação com as divindades é tão diferente como igual a qualquer outra. A religiosidade é traduzida pela vida e pelos cuidados do curandeiro Zeca Chapéu Grande.

As vidas retratadas na obra se mostram muito semelhantes a de negros ainda escravizados e o enredo impõe com força mais essa realidade perene pós-abolição. O livro é muito bom, é poético, é estonteante, é histórico, será um clássico e é necessário.

Rodrigo Pael - Jornalista e professor universitário


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