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Domingo 22.mai.2022

Ano X - Nº 488

Poder

‘Decepção’ e ‘vergonha’ são os sentimentos mais relacionados ao governo Bolsonaro, diz pesquisa

Bolsonaro por Bolsonaro: livro reúne frases em show de horrores

Postado em 18 de Fevereiro de 2022 - Estadão, Rubens Valente (UOL) – Edição Semana On

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Uma pesquisa da Genial/Quaest mapeou o sentimento da população em relação ao governo de Jair Bolsonaro e mostrou que “decepção” é o sentimento mais relacionado ao governo, para 36% dos entrevistados.

Vergonha e desapontamento aparecem na sequência entre os sentimentos negativos, com 30% e 19%. O levantamento foi feito entre 3 a 6 de fevereiro e 2 mil brasileiros foram entrevistados. O nível de confiabilidade da pesquisa é de 95%.

Entre os sentimentos positivos sobre o governo, “esperança” foi citada por 28% dos entrevistados. “Confiança” (14%) e “admiração” (13%) vieram na sequência.

“O governo Bolsonaro é sinônimo de vergonha para os eleitores de Lula, sinônimo de decepção para eleitores do Moro e do Doria, e sinônimo de otimismo e esperança para os eleitores de Bolsonaro. Sentimentos divergentes, que vão do otimismo eleitoral à frustração de quem acreditou no projeto”, disse Felipe Nunes, cientista político e diretor da Quaest.

Bolsonaro por Bolsonaro

O arquiteto e empresário Walter Barretto Jr. propôs a si mesmo a tarefa de convencer bolsonaristas a mudar de voto nas próximas eleições. Cansado de debater com amigos e familiares que defendiam e ainda defendem Jair Bolsonaro, ele achou que um caminho era submeter esses eleitores a uma fonte de informação para eles inquestionável: o próprio Bolsonaro.

Autor da coletânea recém-lançada "Bolsonaro e seus seguidores: 1.560 frases" (Geração Editorial, 296 págs., 2022), Barretto pretende, como disse à coluna, que a obra seja usada "como um instrumento técnico, didático e acho que eficaz para reverter o voto de algumas pessoas que ainda acham que têm que reeleger o presidente Bolsonaro".

"Minha ideia é que o cidadão que compre o livro se sente com os amigos, com os parentes, pegue um domingo, um dia com calma, e comece a ler o livro na presença dessas pessoas, para essas pessoas. Para mostrar que o Brasil não pode seguir por esse caminho. Cometemos um erro lá atrás e a gente não pode cometer esse erro de novo."

O arquiteto de Salvador (BA) disse que "fez o teste" antes de lançar o livro e acredita que funcionou. "Quando ouvem as frases, eles ficam envergonhados." Mas mudarão de voto? "Bom, aí não dá para saber, espero que sim."

Ao falar sobre as eleições de 2018, Barretto usou o verbo no plural ("cometemos") só como força de expressão, pois ele mesmo não votou em Bolsonaro. "Eu não escondi de ninguém, está nas minhas redes sociais, votei e fiz campanha para Fernando Haddad [PT-SP]."

Crítico assumido de Bolsonaro, Barretto não escreveu nada "contra" o presidente em seu livro. A obra é toda feita das frases de Bolsonaro e seus apoiadores. O resultado é aquele espetáculo muitas vezes chocante que se vê todos os dias nos jornais, rádios, televisões e internet. Barretto acredita que, num livro, as frases se tornam um registro histórico para consulta de pesquisadores.

"Por exemplo, perto do Sete de Setembro de 2021, a gente percebe, pelas frases de Bolsonaro e de seus seguidores, que eles vão construindo um projeto de golpe que não se consolidou. Mas houve a tentativa. Quem está contando essa história? Não sou eu, são eles. Então não tem muito como o eleitor de Bolsonaro questionar a veracidade. Eles questionam a veracidade de tudo."

Em 31 de agosto daquele ano, conforme está no livro, Bolsonaro afirmou: "A vida se faz de desafios. Sem desafios a vida não tem graça. As oportunidades aparecem. Nunca outra oportunidade para o povo brasileiro foi tão importante ou será importante quanto esse nosso próximo 7 de Setembro". Em 1º de setembro, o presidente afirmou em tom de ameaça: "Com flores não se ganha guerra não, pessoal. Quando se fala em armamento, quem quer a paz, se prepare para a guerra". Como se sabe, a ideia da aventura golpista, ou no mínimo de um ataque ao prédio do STF, naufragou.

Como o livro é "a história do Brasil contemporâneo contada pelo presidente e seus seguidores", no dizer do autor, lá estão frases com "conteúdo homofóbico, racista, a tentativa do golpe de 7 de Setembro, defesa das armas, citações nazistas". É uma exibição deprimente.

Há frases bolsonaristas já consagradas na galeria da infâmia ("o erro da ditadura foi torturar e não matar", de 2016) e outras nem tanto, embora merecessem, como esta, dita em 2017: "Para o PT, brevemente a pedofilia deixará de ser crime". Ou esta, de 2003: "Quero dizer aos companheiros da Bahia - há pouco ouvi um parlamentar criticar os grupos de extermínio - que enquanto o Estado não tiver coragem de adotar a pena de morte, o crime de extermínio, no meu entender, será muito bem-vindo. Se não houver espaço para ele na Bahia, pode ir para o Rio de Janeiro. Se depender de mim, terão todo o meu apoio, porque no meu estado só as pessoas inocentes são dizimadas".

O material sobre os povos indígenas é farto. Trata-se de uma das obsessões de Bolsonaro e seus associados. Em 2008, referindo-se ao indígena Jacinaldo Barbosa, o então deputado disse o seguinte: "Ele deveria ir comer um capim ali fora para manter as suas origens".

"Odeio o termo 'povos indígenas', odeio esse termo. Odeio. 'Povos ciganos'... Só tem um povo nesse país. Quer, quer. Não quer, sai de ré. É povo brasileiro, só tem um povo. Pode ser preto, pode ser branco, pode ser japonês, pode ser descendente de índio, mas tem que ser brasileiro, pô! Acabar com esse negócio de povos e privilégios", disse o então ministro da Educação Abraham Weintraub na fatídica reunião ministerial de 22 de abril de 2020.

"Não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou para quilombolas! (...) Mas nós somos a maioria, nós acreditamos em Deus... a cultura judaico-cristã está em nosso meio... nós aqui somos brasileiros", prometeu Bolsonaro quando ainda era deputado, em 2017. Na Presidência, ele cumpriu a ameaça.

O vice-presidente, Hamilton Mourão, também aparece no livro: "Temos uma certa herança da indolência, que vem da cultura indígena. Eu sou indígena, minha gente, meu pai era amazonense. E a malandragem. (...) nada contra, viu, mas a malandragem que é oriunda do africano. Esse é o nosso caldinho [sic] cultural."

Por motivos óbvios o livro dedica um amplo espaço sobre o negacionismo na pandemia da Covid-19. Doutorando e mestre em Desenvolvimento Regional e Urbano, empresário do setor de shopping centers, ex-presidente da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário da Bahia de 2008 a 2010, Barretto publicou, com outros autores, uma série de artigos sobre "Impacto das decisões das autoridades públicas na vida e na morte da população: Covid-19 no Brasil". O trabalho foi citado no relatório final da CPI da Pandemia, no Senado, e estimou que 27 mil vidas teriam sido salvas se o governo federal tivesse adquirido, em agosto de 2020, as 70 milhões de doses da vacina sugeridas pela empresa Pfizer.

No livro há o registro - hoje quase que já esquecido - da primeira frase dita em público por Bolsonaro a respeito do novo coronavírus. Foi no dia 20 de janeiro de 2020: "Estamos preocupados, obviamente, mas não
é uma situação alarmante". Mas foi só o começo do negacionismo, que se acentua a partir de março. "Tem a questão do coronavírus também que, no meu entender, está sendo superdimensionado o poder destruidor desse vírus", afirmou Bolsonaro no dia 20 daquele mês.

Dali em diante, foi uma avalanche seguida por vários auxiliares e apoiadores do presidente. Como o ministro da Economia, Paulo Guedes, que fez essa conta esdrúxula em 13 de março: "Com 3 bilhões, 4 bilhões ou 5 bilhões de reais a gente aniquila o coronavírus. Porque já existe bastante verba na saúde, o que precisaríamos seria de um extra". Na verdade, só naquele ano o governo gastaria R$ 509 bilhões no combate a um vírus que segue, dois anos depois, infectando e matando em escala assustadora.

Barretto dedicou seu livro "às vidas ceifadas pela Covid-19", com o agradecimento "aos (às) jornalistas, pela defesa da democracia e por informar corretamente aos (às) brasileiros (as) os riscos da Covid-19".

"Quem informou sobre os riscos da Covid não foi o governo, quem informou foi a imprensa", disse o arquiteto, que pretende fazer uma edição atualizada do livro depois do último ano de governo de Bolsonaro - que ele espera ser 2022.


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