Semana On

Terça-Feira 17.mai.2022

Ano X - Nº 487

Poder

Religiosos que apoiaram Bolsonaro em 2018 agora indicam afastamento

Movimentações recentes de importantes líderes evangélicos sugerem que segmento não terá o mesmo engajamento massivo na candidatura à reeleição do presidente

Postado em 18 de Fevereiro de 2022 - Daniel Weterman e Felipe Frazão (O Estado de S.Paulo), Paulo Motoryn (Brasil de Fato), Carta Capital – Edição Semana On

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Pastores que apoiaram a eleição do presidente Jair Bolsonaro, em 2018, começaram a rever suas posições e a preparar terreno para conversas com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na disputa de outubro. Movimentações recentes de líderes evangélicos dão sinais de que Bolsonaro não terá o mesmo engajamento massivo desse segmento para se reeleger.

A tendência de figuras proeminentes de igrejas pentecostais e neopentecostais é a de adotar uma posição mais reservada, diferente da campanha escancarada de quatro anos atrás. Líderes dessas instituições mantêm interlocução com o Planalto, levando demandas por isenções tributárias, perdão de dívidas e maior espaço no governo, mas estão dispostos a negociar com quem for eleito em outubro. No , o Congresso promulgou a emenda constitucional que estende a templos religiosos alugados a isenção de pagamento do IPTU (mais informações nesta página).

O pastor José Wellington Bezerra da Costa, líder da Assembleia de Deus do Belém, a mais tradicional dessa denominação, afirmou ter simpatia por Bolsonaro, mas indicou que não pedirá votos para ele neste ano. Além disso, disse estar aberto para um diálogo com o vencedor, mesmo se for Lula. O pastor já foi próximo dos governos do PT, mas apoiou Bolsonaro em 2018.

A reaproximação de Lula com o segmento tem sido promovida em várias frentes e conta com a ajuda do pastor Paulo Marcelo – que faz parte da ramificação liderada por José Wellington – e do ex-governador Geraldo Alckmin, nome cotado para vice na chapa.

A Assembleia de Deus tem 12 milhões de fiéis no Brasil, segundo o IBGE, divididos entre diferentes alas que foram se separando ao longo dos últimos anos. “Nós nunca tivemos problema pessoal. O presidente Lula é uma pessoa nordestina como eu, e a mim não interessa falar mal dele e de nenhum deles. Política é muito mutável, muito dinâmica. Hoje você entende uma coisa e amanhã pode entender outra. Estamos caminhando e pedindo para que Deus dê o melhor para o Brasil”, afirmou José Wellington.

O pastor admitiu que a Assembleia de Deus faz a intermediação de emendas para três de seus filhos, que são parlamentares. A declaração causou mal-estar entre líderes evangélicos, mas mostrou a prioridade das igrejas em 2022, que é a de aumentar a bancada no Congresso. A Frente Evangélica quer ter pelo menos 30% das vagas na Câmara e no Senado. “Para os meus deputados, faço isso (peço voto). Para presidente, não precisa. Eles têm uma mídia tremenda e dinheiro. Não há necessidade de a igreja se envolver nessa altura”, afirmou José Wellington.

Católicos rejeitam Bolsonaro, evangélicos ainda o toleram, diz pesquisa

A avaliação do trabalho do presidente Jair Bolsonaro entre o eleitorado católico é bem diferente da avaliação entre o eleitorado evangélico. Ao todo, 61% dos brasileiros que vão à Igreja Católica indicam que o atual governo é ‘ruim’ ou ‘péssimo’, enquanto 41% dos que frequentam a Igreja Evangélica apontam que a gestão do ex-capitão seria ‘boa’ ou ‘ótima’.

Católicos que marcam a opção ‘bom’ ou ‘ótimo’ para se referir ao atual presidente somam apenas 23%. Já os evangélicos que indicam não gostar do trabalho de Bolsonaro e o avaliam como ‘ruim’ ou ‘péssimo’ somam 39%.

A ‘vitória’ entre os evangélicos também marca uma inversão na avaliação. Há apenas 15 dias, a maioria deste eleitorado (41%) apontava Bolsonaro como ‘ruim’ ou ‘péssimo’ e apenas 35% diziam o contrário. Vale ressaltar, no entanto, que o novo resultado ainda está longe da melhor avaliação de Bolsonaro no grupo, registrada em agosto de 2021, quando tinha 50% de ‘bom’ ou ‘ótimo’ contra 34% de ‘ruim’ ou ‘péssimo’.

Os dados são da nova pesquisa PoderData, divulgada na quinta-feira 17, que também mediu a avaliação geral dos eleitores brasileiros. Neste aspecto, Bolsonaro tem um desempenho ainda negativo, com 56% dos entrevistados indicando que o governo seria ‘ruim’ ou ‘péssimo’ e apenas 28% de ‘bom’ ou ‘ótimo’.

A pesquisa também apontou na quarta-feira 16 que Lula (PT) segue na liderança da corrida eleitoral com 40% das intenções de voto. Bolsonaro reúne apenas 31% e está em segundo lugar. Sergio Moro (Podemos) tem 9% e Ciro Gomes (PDT) apenas 4%.

A PoderData ouviu 3 mil pessoas por telefone. A margem de erro é de 2 pontos percentuais e o índice de confiança é de 95%.

Em dezembro, pesquisa Ipec mostrou empate entre Bolsonaro e Lula nas intenções de votos entre os evangélicos: o petista com 34% e o atual presidente, com 33%

Desgaste

A atuação de Bolsonaro na pandemia de covid-19 provocou perda de apoio em diferentes segmentos. “Já existe uma migração. Bolsonaro faz uso político da ideia de família tradicional, mas isso se desgastou porque você não tem ações que sejam diferentes de governos anteriores”, disse o reverendo Valdinei Ferreira, da Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo.

Frequentador do Planalto, o missionário R.R. Soares, da Igreja Internacional da Graça de Deus, também tem filhos na política. Um deles é o deputado David Soares (DEM-SP), autor de um projeto que perdoou dívidas de igrejas. O missionário é um dos pioneiros entre os pastores televangelistas. A igreja tem programas diários na TV aberta, um canal próprio e mais de 3 mil templos. “Faz tempo que não falo com ele (Bolsonaro). O País está nessa crise da pandemia, fecharam as coisas, o povo ficou desempregado”, disse Soares. 

Ex-bolsonarista, o pastor Carlito Paes, da Igreja da Cidade, de São José dos Campos (SP), puxa agora críticas ao governo e ao PT e se aproxima do presidenciável do Podemos, Sérgio Moro. “Quando a política vira religião, a crítica consciente desaparece e cede lugar à alienação”, escreveu Paes.

Evangélicos não votam em Lula? Religiosos rebatem a tese de Silas Malafaia

O pastor Silas Malafaia foi alvo de uma série de respostas de evangélicos nas redes sociais negando que os fiéis da religião não votam no ex-presidente Lula ou em outros candidatos, como Ciro Gomes e Sergio Moro. Em entrevista ao Metrópoles publicada no último dia 17, Malafaia disse que os adversários do presidente Jair Bolsonaro no pleito "vão quebrar a cara com os evangélicos". Segundo ele, quem não apoia o atual chefe do Executivo "representa 1% dos evangélicos, ão famosos zé-ninguém”.

“O que é esse jogo de Ciro, Lula e Moro? Eles perceberam que Bolsonaro foi eleito graças ao voto dos evangélicos. Nós representamos 32% do eleitorado. Só que os sistemas e os meios que estão usando não são meios para conquistar. Estão enganados e vão quebrar a cara com os evangélicos”, afirmou Malafaia.

Pouco depois da publicação da entrevista, uma série de comentários foram feitos nas redes sociais contrapondo as falas de Malafaia. Em parte deles, evangélicos se manifestaram afirmando que votariam em Lula e que o pastor não os representa. O Brasil de Fato conversou com o ativista evangélico Vinicius Lima, um dos fundadores do SPInvisível. Segundo ele, "um evangélico, um seguidor de Jesus, deve apoiar aquele candidato que melhor reflete esses valores de Jesus: vida em abundância, dignidade para todas as pessoas, respeito e tolerância".

"O Malafaia disse que não deve apoiar nem o Lula nem o Moro. Quem que ele está falando que deve apoiar? O Bolsonaro? É o Bolsonaro que reflete a vida em abundância, num governo que deixou morrer milhares de pessoas por causa do negligência com a covid-19? É o Bolsonaro que o evangélico deve apoiar? Um governo que é intolerante com pretos, LGBT, com mulheres, com indígenas, com quilombolas. É o Bolsonaro que um evangélico deve apoiar? Um governo que deixou milhares de pessoas na fome de novo?", disse.

Vinicius é um dos evangélicos que contrariam a tese de Malafaia. Ele disse à reportagem que apoia a candidatura de Lula: "Eu também acredito que esse candidato que eu, evangélico deve apoiar também não é o Moro pelo que o Moro fez enquanto era juiz e enquanto foi ministro. Nada disso refletia a verdade, que também é o valor do evangelho, também é um valor de Jesus Cristo. Isso é pela minha visão do que é seguir Jesus. Eu não falo pelos evangélicos, até porque o evangélico é heterogêneo. Eu falo por mim, e na minha visão, hoje o candidato que melhor representa esses valores é a candidatura do presidente Lula".

"A candidatura do Bolsonaro e a candidatura do Moro representam o ódio a intolerância, a mentira, a fome a morte. Por isso acredito que o evangélico não deve apoiar esses dois nomes, mas sim qualquer outro que represente a vida", finalizou.


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