Semana On

Quarta-Feira 18.mai.2022

Ano X - Nº 487

Poder

'Facada' da inflação na renda dos trabalhadores é que deve definir eleição

Máquina de fakenews do governo voltou relacionar o crime de Adélio a ‘partidos de esquerda’

Postado em 18 de Fevereiro de 2022 - Leonareo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On

Reuters Reuters

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O uso político por Jair Bolsonaro da facada que levou na campanha de 2018 tende a funcionar cada vez menos, mesmo entre seus apoiadores, por conta da economia deteriorada, com a disparada nos preços dos alimentos, dos combustíveis e da energia elétrica, as altas taxas de desemprego, subemprego e informalidade, a derrocada no valor da renda dos trabalhadores, o aumento no endividamento das famílias e, claro, a fome.

O grosso da população está mais preocupado com a 'facada' que a inflação causou em seu orçamento do que com as teorias conspiratórias plantadas pela campanha à reeleição do presidente da República. Mesmo o eleitoreiro Auxílio Brasil de R$ 400 perde, mês a mês, seu poder de influência à medida em que seu poder de compra diminui, demandando que o governo procure novas formas de estourar o orçamento para gerar voto.

Nos últimos dias, a máquina de guerra digital de Jair Bolsonaro voltou a inundar redes sociais e aplicativos de mensagens com a mentira de que Adélio Bispo atentou contra sua vida a mando de partidos de esquerda. Essa ação tem a mesma natureza da sabotagem da vacinação infantil, ou seja, manter os seguidores radicais excitados visando às eleições. E excitados, eles vão às ruas saudar o "mito" em atos de campanha e xingam membros da família que reclamam da vida.

Em 2018, os adversários de Jair se uniram para condenar o atentado que sofreu. Agora, todos os políticos que se consideram do espectro democrático devem rechaçar tentativas de manipulação que tentem reescrever os fatos. Pois a investigação da Polícia Federal apontou que Adélio tem graves problemas mentais e agiu sozinho.

A instabilidade política causada por um presidente que atenta contra as regras da democracia, tendo promovido atos golpistas, como o de 7 de setembro do ano passado, e a falta de rumo da política econômica ajudaram a elevar ainda mais o dólar. Dólar mais caro, inflação mais alta. Por conta de Jair, sofremos mais do que a maioria do mundo.

Ao mesmo tempo, o desprezo do governo diante pelas mudanças climáticas cobra seu preço na geração de energia e na seca que atinge a agricultura. Se tivéssemos alguém planejando a construção e não a desconstrução do país, teríamos gerido melhor os reservatórios das hidrelétricas em 2020 e garantido estoques reguladores de alimentos para fazer frente à estiagem de agora.

O resultado, todos conhecem. De acordo com o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), em janeiro a cesta básica de alimentos aumentou em 16 das 17 capitais avaliadas mensalmente pelo instituto. As maiores altas foram em Brasília (6,36%), Aracaju (6,23%), João Pessoa (5,45%), Fortaleza (4,89%) e Goiânia (4,63%).

No último mês, a batata subiu 42,12% em Belo Horizonte, 31,74% no Rio de Janeiro e 20,3% em Goiânia. Tomate escalou 47,43% em Aracaju. E o café saltou em São Paulo (17,91%), Aracaju (12,95%), Recife (12,77%) e Brasília (11,64%).

Se olharmos para o retrovisor, só há desgraça nessa estrada. Nos últimos 12 meses, ou seja, entre janeiro de 2022 e janeiro de 2021, temos expressivas altas acumuladas em Natal (21,25%), Recife (14,52%), João Pessoa (14,15%) e Campo Grande (14,08%). Lembrando que a inflação oficial do país, o IPCA, fechou em 10,06%.

Sempre há um chinelo velho para um pé cansado, então essa ação de ressuscitar o ataque vai reverberar entre parte das falanges bolsonaristas. Mas o presidente, que já havia perdido um substancial apoio na classe média por conta de seu negacionismo diante da covid-19, como apontam pesquisas de opinião, verá a rejeição ao seu governo permanecer alta devido à situação econômica.

E a economia é a chave. Em 2006, Lula foi reeleito, derrotando Geraldo Alckmin no segundo turno, mesmo com a avalanche de denúncias de corrupção envolvendo seu governo porque as perspectivas da economia eram boas. A maioria da classe trabalhadora é extremamente pragmática e avalia quem pode garantir melhores condições de vida para suas famílias.

Claro que o imponderável pode influenciar no resultado da eleição deste ano, sempre pode. Mas o que elegeu Bolsonaro em 2018 não foi o atentado que sofreu, mas o fato de ele ter surfado na onda da antipolítica, aproveitando um país cansado em meio a um esgarçamento institucional causado pelo processo de impeachment e por uma prolongada crise econômica.

A mentira e as teorias da conspiração terão seu papel em 2022, como tiveram há quatro anos, mas será a economia a grande questão a ser avaliada por esse naco pragmático da sociedade nas urnas. Ressuscitar o episódio da facada pode até ajudar Bolsonaro a se manter onde está e ir ao segundo turno, mas não será o bastante para manter seu emprego no Palácio do Planalto.

Fixação pelo 'efeito facada' expõe falta de rumo da campanha de Bolsonaro

Bolsonaro rodopia nas pesquisas eleitorais como um parafuso espanado. Estacionado na segunda colocação, conserva a aparência de candidato favorito a perder a Presidência da República para Lula no segundo turno. Nessa circunstância, a insistência com que Bolsonaro e seus operadores tentam reproduzir em 2022 o "efeito facada" não serve senão para expor a falta de rumo da campanha à reeleição.

Nesta segunda-feira, Bolsonaro pendurou no Twitter um vídeo gravado em setembro de 2018, nas pegadas da primeira cirurgia a que se submeteu depois da facada, na Santa Casa da cidade mineira de Juiz de Fora. O paciente soa na peça em timbre messiânico: "Todos nós temos uma missão aqui na Terra, e essa missão será cumprida por mim. Até o momento, Deus quis assim."

Bolsonaro alegou que não se lembrava do vídeo. Conversa mole. A filmagem foi feita e divulgada na ocasião do atentado, há três anos e cinco meses, pelo ex-senador Magno Malta.

No mês passado, o presidente e sua prole já haviam desperdiçado parte do seu tempo tentando grudar o marketing da facada no enredo do camarão mal mastigado que transportou Bolsonaro de suas férias catarinenses para o hospital paulista Vila Nova Star com dores intestinais. Após receber alta, o candidato repisou sua tese segundo a qual o esfaqueador Adélio Bispo não agiu sozinho.

Bolsonaro chegou mesmo a antever novas internações. Afinal, não tem como garantir que "lá na frente" não vá "tomar um caldo de cana e comer um pastel" que lhe obstruam o intestino grosso.

Nenhuma explicação sobre o resultado de 2018 será levada a sério se não mencionar o "voto antipetista" e o "efeito facada". O problema de Bolsonaro é que as pesquisas esboçam outro enredo para 2022. O eleitor anti-PT ainda existe. Mas a rejeição de 60% indica que Bolsonaro fez surgir uma legião de eleitores antibolsonaristas.

Como qualquer presidente, Bolsonaro pode pleitear a reeleição. Mas é preciso que tenha desempenho para isso. Comparado à encenação de 2018, chega a 2022 virado do avesso.

A pose de político antissistema foi dissolvida na aliança com o centrão. O discurso anticorrupção perdeu-se no vão da rachadinha. A agenda liberal era de vidro e se quebrou a golpes de oportunismo, fisiologismo e populismo.

Na sucessão passada, o capitão dispunha de apenas 8 segundos de propaganda na TV. Teve de erguer barricadas nas redes sociais. Esfaqueado, passou a desfrutar de uma exposição de 24 horas diárias no noticiário. Tudo isso sem sair da cama do hospital.

Hoje, Bolsonaro celebra acordos que lhe proporcionarão usufruir do latifúndio televisivo do centrão. Falta-lhe assunto, não tempo de propaganda. A obsessão pela facada não tem a menor importância. O capitão demora a perceber que parte do eleitorado que seduziu em 2018 enxerga no Planalto não a vítima de um atentado, mas o culpado por uma gestão ruinosa.


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