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Quarta-Feira 18.mai.2022

Ano X - Nº 487

Coluna

Como o Rio Paraopeba agoniza em Minas Gerais

Lugar de vida, ele está agonizando e não pode mais proteger as comunidades que com ele viveu e vive todas estas décadas

Postado em 17 de Fevereiro de 2022 - Túlio Franco

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O Rio Paraopeba percorre mais de 500 km em Minas Gerais, nasce e deságua em terreno generoso, dando de beber às árvores, plantas, peixes, comunidades que vivem às suas margens, algumas há mais de um século, e dali tiram o sustento e vida para uma infinidade de pessoas, que têm a vida vinculada ao rio e tudo o que vive com ele, nele, e por ele.

As Minas e o Gerais convivem harmoniosamente desde que mundo é mundo. No entanto uma minoria de pessoas, proprietárias de grandes empresas, cresceu o olho para as riquezas do solo mineiro, e resolveu botar a mão no minério de ferro, mas o fazem de forma predatória. Posicionam enormes máquinas-monstros para cavar a terra vermelha, retiram brutalmente o minério. As toneladas de ferro, manganês, alumínio, bauxita e outros metais são engolidos pela maquinaria voraz, e aquilo que não serve à saciedade dos donos das máquinas, ou, que não será metabolizado pelo organismo que draga e consome a montanha, é expelido. Resíduos minerais contendo metais tóxicos são armazenados no ventre da montanha, através de grandes barragens, que se mantém por décadas a fio contendo aquele lixo na forma quase líquida, meio pastosa.

De tempos em tempos este conteúdo indigesto é expelido. O “vômito da montanha” é sinal de que a própria natureza, como organismo vivo, reage à toxidade brutal a que é submetida. A exploração desregrada dos recursos do solo impacta toda forma de vida no seu entorno, humanes e não humanes. Há uma banalização da vida nestes meios, e o quanto elas não têm valor, para sistemas que são orientados quase exclusivamente pela acumulação de riquezas.

Em um destes episódios a Barragem Córrego do Feijão B1, em Brumadinho vomitou mais de 12 milhões de metros cúbicos de lama tóxica, em ondas gigantes formadas por rejeitos de minério, que saiu a uma velocidade de mais de 80 quilômetros por hora após o seu rompimento, destruindo tudo o que havia à sua frente.

Havia no caminho da lama os prédios administrativos da empresa, e o refeitório, onde funcionáries se encontravam às 12h28min20s do dia 25 de janeiro de 2019, quando tudo veio abaixo. O mundo ficou incrédulo que no lugar onde ficavam as pessoas no seu trabalho cotidiano, e o refeitório, tivessem sido construídos exatamente no caminho da lama de rejeitos. “Onde está a gestão de riscos?”, se perguntavam. Não era incompetência. Simplesmente o valor das vidas para uma empresa que pensava em produzir cada vez mais, causando um estresse em toda rede produtiva, associada a uma irracional redução de custos, e à banalização da vida das pessoas que vivem do seu trabalho, vão formando os ingredientes da tragédia. Seus efeitos não cessam nunca, há quase três centenas de mortos e desaparecidos, milhares de sobreviventes que sofrem a perda dos seus entes queridos, destruição de relações, vida comunitária, a perda de referência. Um Fim de Mundo!

Paraopeba em Tupi significa “Rio de Águas Claras”, que teve do dia pra noite as suas águas tingidas de vermelho pela lama tóxica.  Comunidades ribeirinhas, quilombolas, caiçaras, e outros grupos tradicionais se viram abruptamente sem o Rio com os quais se misturavam nos caminhos de vida, no ato de viver dia após dia. Em Minas Gerais são 356 barragens de rejeitos de minérios, e há ainda inúmeras de outros tipos, apresentando os mesmos riscos.

O Rio é alimento, abrigo, a quem se pede de beber quando se está com cede, de comer na fome, com quem se conversa no final de tarde. Ele é o avô de muitas gerações, com quem se conversa das mazelas da vida, toma um conselho, ajuda a decidir os rumos da vida. O rio e outre humane que convive com as comunidades, e com elas forma a necessária cumplicidade na vida. Hoje está agonizando, machucado por metais pesados no seu leito, não pode mais proteger as comunidades que com ele viveu e vive todas estas décadas. 

Para que nunca esqueçam, o Rio Paraopeba vive!


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