Semana On

Quinta-Feira 11.ago.2022

Ano X - Nº 499

Entrevista

‘Não vejo a possibilidade de um partido nazista no Brasil. Mas o fascismo pleno já existe’

Para o professor Luiz Eduardo Motta, Bolsonaro vive um momento de ocaso. Isso não significa, porém, que o ideário de extrema-direita vá submergir com ele

Postado em 14 de Fevereiro de 2022 - Maurício Thuswohl – Carta Capital

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A não ser que aconteça uma reviravolta eleitoral sem precedentes no Brasil pós-ditadura, Jair Bolsonaro está fadado à derrota nas urnas. Sua eventual despedida do Palácio do Planalto deixará duplamente órfão um segmento que já perdeu a liderança ideológica do astrólogo Olavo de Carvalho, morto em 24 de janeiro.

Para analisar o futuro da extrema-direita brasileira no período “pós-Bolsonaro” e as possibilidades de sobrevivência do olavismo sem Olavo, CartaCapital conversou com o professor Luiz Eduardo Motta, diretor do Laboratório de Estudos sobre Estado e Ideologia da UFRJ. Para ele, Bolsonaro vive um momento de ocaso. “Há um descenso devido ao próprio fracasso da agenda econômica desse governo.” Isso não significa, porém, que o ideário que deu origem ao bolsonarismo vá submergir com ele. “As pautas conservadoras continuarão porque elas estão fincadas institucionalmente.”

 

Como ficará dividido o campo ultraconservador no Brasil em caso de derrota de Bolsonaro em outubro?

O bolsonarismo é a expressão tupiniquim do neofascismo contemporâneo. Hoje no Brasil há vários segmentos identificados com esse neofascismo cujas pautas internacionais são racismo, xenofobia, homofobia, misoginia e antiesquerdismo, com ataques aos direitos das mulheres e minorias. São contrários às políticas sociais.

A onda bolsonarista agregou, para além desses neofascistas, outros segmentos de direita, conservadores e antiesquerdistas. E até mesmo parte de um eleitorado que votou no Lula em 2002 e 2006, mas estava descontente com os resultados econômicos que começaram a entrar em evidência a partir de 2013.

As brigas públicas entre expoentes bolsonaristas revelam uma disputa pela liderança do período “pós-Bolsonaro”?

As brigas internas que estamos presenciando se explicam porque o bolsonarismo é um movimento, mas não tem uma concepção orgânica de partido. Sempre houve várias frações e segmentos internos a esse movimento.

O momento agora é de ocaso para Bolsonaro. Há um descenso devido ao próprio fracasso da agenda econômica desse governo. Além disso, a política anticorrupção, que foi uma das principais bandeiras de campanha de Bolsonaro, caiu por terra nesses três anos. São problemas que envolvem a família dele, problemas na aquisição de vacinas, como demonstrado na CPI, sem falar na ausência completa de uma política de combate à pandemia. Então, quando há essa crise de hegemonia, as frações começam a sentir. Estamos vendo trocas de agressões e acusações internas entre as lideranças que emergiram nesse bolsonarismo constituído em 2018.

Haverá um “vácuo de poder” no ultraconservadorismo?

Não vejo uma nova liderança que possa ocupar o mesmo espaço que Bolsonaro ocupou. Ele se tornou uma liderança carismática naquele contexto. Ele já tinha carisma em determinados segmentos quando se lançou na política, embora não fosse uma referência nacional. Mas, aos poucos foi ganhando evidência. Certamente, ninguém apostaria nele em 2016 como um forte candidato à Presidência. Mas, o antipetismo e o antilulismo que se constituíram ao longo dos anos, somados à ausência de um programa de unidade da própria esquerda, levaram o bolsonarismo a ocupar esse espaço que Bolsonaro catalisou como se fosse um político antissistema. A política estava estigmatizada, como geralmente a direita faz. A direita se diz contra o sistema político, mas se retroalimenta desse próprio sistema.

Creio que o Bolsonaro continuará em stand-by para uma próxima tentativa de se manter como essa liderança da extrema-direita. Mas, não vejo mais a possibilidade de ele organizar em torno de si, como em 2018, essa pluralidade de segmentos da extrema-direita e da direita conservadora. Acho que os filhos de Bolsonaro se manterão como lideranças locais, mas vejo incapacidade política neles para catalisarem uma projeção nacional. Jair Bolsonaro ainda continuará como a principal liderança nacional, ainda que enfraquecido se comparado a 2018.

Diversos quadros do conservadorismo que surfaram a onda bolsonarista em 2018 já migram para a candidatura de Moro…

A ruptura do Moro com o Bolsonaro é emblemática. Moro representa a direita moralista e conservadora que eu não qualificaria de neofascista. Esse segmento estava presente no bolsonarismo em 2018, mas o Moro não está demonstrando fôlego e capacidade para se tornar essa liderança que viria a substituir Bolsonaro no campo não necessariamente da extrema-direita, mas do conservadorismo.

Pautas conservadoras identificadas ao “olavismo” terão futuro no Brasil pós-Bolsonaro?

É óbvio que a morte de Olavo de Carvalho vai deixar um grande vácuo, até porque há ausência de uma personalidade como a dele dentro do campo da extrema-direita. Mas, as suas ideias ficarão presentes. A sociedade brasileira tem muitos segmentos conservadores: as Forças Armadas, as polícias militares, as igrejas neopentecostais e a própria mídia. As pautas moralistas calcadas na questão da corrupção derrubaram o governo Vargas nos anos 50 e também estiveram presentes no combate ao governo João Goulart. E, obviamente, foram levantadas durante os governos do PT.

As pautas conservadoras continuarão porque elas estão fincadas institucionalmente. A figura individualizada do Olavo, na verdade, é uma síntese desse conservadorismo que está presente nas instituições que eu já citei, assim como nos aparatos da Justiça. Se compararmos com 30 anos atrás, vemos que houve um retrocesso político no Judiciário e no Ministério Público que internalizaram essa pauta conservadora e a utilizaram e expressaram nas práticas internas das instituições. O Deltan Dallagnol é belo um exemplo disso.

Mas, sem Olavo haverá vida político-ideológica além da borda da Terra plana?

O Olavo de Carvalho sem dúvida foi um fenômeno. Ele captou e antecipou muito bem essa coisa das redes sociais. Entretanto, acho exagerado esse enaltecimento como se ele fosse um intelectual da direita que conseguiu estar no poder e indicar ministros. Ora, intelectuais de direita do passado também estiveram dentro do poder e do aparelho de Estado: Oliveira Viana, Azevedo Amaral, Gustavo Capanema e Francisco Campos já estavam presentes. Isso vale também para Golbery do Couto e Silva, que era um hábil articulador político e também um intelectual.

Olavo percebeu que era fácil cativar seu público sem a necessidade de nenhum aprofundamento. Daí a minha dificuldade em classificá-lo como intelectual stricto sensu. Na verdade, ele foi um grande propagandista ideológico que trabalhava com temáticas e elementos de fácil consumo como, por exemplo, as teorias da conspiração. Não há nenhum aprofundamento nos ensaios dele sobre o autor x ou a problemática y. Nos últimos 15 anos ele teve um discurso eivado de adjetivações, acusações e conspirações. Isso é muito fácil de ser consumido.

O olavismo trouxe um elemento ausente na direita mais clássica, que se pautava pelo racionalismo. Os seguidores do olavismo se pautam pelo irracionalismo. Essa história da Terra plana é um exemplo disso. Sem falar na leitura maniqueísta das teorias da conspiração, daquela coisa do “nós contra eles”. O fato é que essas sementes estão lançadas e eu não acredito que serão superadas em curto prazo. Vai ser necessária uma transformação cultural para superar isso. Não acabará da noite para o dia, será um processo longo.

Existe de fato uma articulação internacional de extrema-direita?

Diferentemente do fascismo das décadas de 20 e 30, que se associou com uma perspectiva até certo ponto keynesiana de desenvolvimento nacional, a pauta do neofascismo é articulada com o neoliberalismo. O desmonte das políticas públicas sociais em um país periférico e dependente como o Brasil acata a pauta e os projetos de outros países, particularmente a pauta econômica dos Estados Unidos. A sua articulação se dá em nível de rede internacional com a participação desde alguns governos de extrema-direita, como na Ucrânia, na Hungria e na Polônia, até gurus da extrema-direita americana como Steve Bannon. É um fenômeno novo, não temos mais o fascismo clássico.

Como você analisa as declarações em favor da legalização de um partido nazista no Brasil feitas recentemente pelo apresentador Monark e pelo deputado federal Kim Kataguiri? Existe na direita brasileira caldo suficiente para que ideias nazistas floresçam ou isso é apenas folclore?

Não é folclore. Há de fato um ressurgimento do fascismo em nova roupagem, o que chamamos de neofascismo, no continente americano e na Europa. Isso tem sido visível nos últimos anos, inclusive com governos de extrema-direita. Não vejo a possibilidade de formação de um partido nazista. Mas, o que já existe de fato é o fascismo pleno, representado aqui pelo governo Bolsonaro. Ele está presente em vários lugares, como vimos nos Estados Unidos com o governo Trump. Ideias supremacistas, um racismo que não é mais escondido, a defesa do uso de armamentos que, em última instância, são utilizados para atingir os movimentos sociais e militantes de esquerda estão presentes nos EUA, no Brasil e em algumas partes da Europa.

No Brasil, a tolerância com as ideias nazistas também se faz presente e já está internalizada para segmentos da extrema-direita. Então, não precisa a formalização desse partido, ele já se faz concretamente pelas ações desse governo e de sua militância mais aguerrida, digamos assim. Há impedimentos legais para a formação de um partido nazista. Por outro lado, nenhum impedimento para um partido de extrema-direita.


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