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Sexta-Feira 20.mai.2022

Ano X - Nº 487

Poder

Entre Lula e Bolsonaro, Igreja Universal decide apoio em agosto

O poderoso chefão da Assembleia de Deus confessa seus pecados

Postado em 11 de Fevereiro de 2022 - Gilberto Nascimento (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles) - UOL

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A Igreja Universal do Reino de Deus emite sinais ambíguos a respeito de quem vai apoiar de fato para a eleição de presidente da República. Embora não admita publicamente, a Universal mantém conversas informais e procura manter as "portas abertas" com os dois principais pré-candidatos: o atual presidente Jair Bolsonaro (PL) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O líder máximo da igreja, o bispo Edir Macedo, não deve tomar nenhuma decisão até agosto, apurou a reportagem com pessoas próximas à cúpula da instituição. A instituição ainda mantém o apoio público ao governo de Jair Bolsonaro.

No Rio de Janeiro, ao menos dois bispos da Universal mantêm conversas com representantes do PT sobre uma eventual reaproximação com Lula. O deputado federal e bispo Marcos Pereira, presidente do Republicanos, o partido político ligado à igreja, costuma dizer a colegas parlamentares, em conversas reservadas, não ver problema algum em apoiar o petista e ex-aliado. Procurado, o deputado e bispo Marcos Pereira não pode falar em nome da igreja sobre eventuais apoios a candidatos, segundo sua assessoria.

Emissários de Edir Macedo

Macedo costuma negociar seus apoios, sem se expor. Para isso, manda seus emissários, afirma Ronaldo Didini, membro e pastor da Universal entre 1985 e 1997 - o período de maior crescimento da igreja -, e à época muito próximo do bispo.

"Não é próprio de Macedo tomar esse tipo de decisão pública. Tem vários emissários que fazem a ponte com os candidatos e podem negociar paralelamente. Mas, no final, é ele quem decide", afirma.

"E ao conversar com os dois lados, não fecha a porta com nenhum deles", acrescenta Didini. Ele mesmo já serviu de emissário de Macedo em conversas com políticos como o ex-governador Paulo Maluf (PP), o senador José Serra (PSDB) e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Didini afirma que a Universal detém poder único de barganha entre as igrejas evangélicas quando negocia seu apoio em uma eleição presidencial.

"Entre todas as igrejas evangélicas, ela é a única com características diferenciadas, porque o seu líder, afinal, é dono de uma emissora que ocupa o segundo lugar no país e ainda controla um partido político com representação no Congresso".

Macedo apoiou os governos de Lula (2003-2010) e de Dilma (2011-2016), até o começo do processo de impeachment da presidente. Na eleição 2018, apoiou inicialmente Geraldo Alckmin (PSDB) para depois embarcar na candidatura de Bolsonaro.

Envio de recados

No último dia 23 de janeiro, Macedo - que mora em Miami, nos Estados Unidos - retornava ao Brasil e, no mesmo dia, a igreja divulgava em seu site artigo dizendo que "quem é cristão não vota em partidos de esquerda".

Os esquerdistas estariam se travestindo hoje "de defensores do povo, quando, na verdade, querem repetir no Brasil fórmulas desgastadas e ineficazes - incluindo aí os regimes ditatoriais - e espalhar ainda mais o caos para que suas atitudes de desgoverno não sejam notadas".

A candidatura de Lula - embora não tenha sido citada explicitamente -, também deveria ser rejeitada por pregar contra o "casamento convencional" e incentivar "a liberdade do uso de drogas". Porém, como já dito antes, emissários do bispo conversam com petistas.

Quatro dias antes "vazara" na imprensa comentário atribuído a um membro da cúpula da igreja - cujo nome foi mantido no anonimato -, a respeito de uma suposta "crescente insatisfação" da instituição religiosa com o presidente Bolsonaro.

No ano passado, a Universal já havia feito críticas ao presidente nos telejornais de sua emissora, a TV Record, por avaliar que Bolsonaro não teria defendido a igreja como ela gostaria - e esperava -, numa disputa e polêmica com o governo e a Justiça de Angola. Macedo perdeu o controle de sua denominação naquele país - após uma revolta de bispos e pastores locais -, e religiosos brasileiros estão sendo julgados no momento em um tribunal angolano.

Agora, a cúpula da Universal teria concluído que Bolsonaro se preocupa mais "com os seus filhos do que com o povo". O presidente fora descrito, segundo essa nota na imprensa, como um "um líder frágil" que não estaria dando a atenção necessária questões como a "explosão do desemprego, o crescimento da miséria, a volta da fome com força e a insensibilidade com as mortes causadas pela Covid".

Estratégia da Universal

Na avaliação de políticos e religiosos, ao enviar esses recados, a estratégia da Universal é manter o diálogo aberto com os dois favoritos à disputa - e também com um eventual nome da chamada "terceira via", que possa vir a crescer nas pesquisas, como Sergio Moro (Podemos) e João Doria (PSDB).

Ao criticar tanto Bolsonaro como Lula, a Universal estaria também "valorizando o seu passe, para vender caro o apoio", na interpretação do teólogo protestante Fábio Py, professor do programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense.

"O passe da Universal é muito caro. E vem ocorrendo uma disputa entre presidenciáveis por esse apoio. A igreja vem sinalizando que está com Bolsonaro ainda, que é difícil ser cristão de esquerda e busca uma reaproximação com o presidente, após os seus problemas em Angola. Mas deixa claro que aceita as pontes com qualquer outro setor. Historicamente é assim", afirma o teólogo, estudioso do pentecostalismo.

"Até agosto, provavelmente, a igreja vai avaliar qual projeto político lhe interessa mais, quem lhe dará mais pontos, mais condições e mais apoio às suas mídias e eventuais financiamentos a suas emissoras. A Record hoje é beneficiada por grandes fatias de verbas publicitárias", afirma Py.

Outro ex-pastor da Universal, o hoje youtuber Davi Vieira, que atuou por mais de 30 anos na instituição e se tornou um duro crítico da igreja nas redes sociais, acredita que Macedo esperará um pouco para avaliar que tem mais chances de vencer e, só então, tomará uma decisão. "Pelo que ouço de pastores que estão lá dentro, continuarão as conversas com vários candidatos, inclusive com Sergio Moro, que quer se aproximar do Republicanos. Vão discutir possíveis acordos, e no fim ficar com quem levar o caneco", prevê.

A tendência, crê o teólogo Fábio Py, é de a Universal anunciar oficialmente o apoio a Bolsonaro. Mas, se Lula mantiver a atual vantagem nas pesquisas eleitorais até as vésperas do segundo turno, ele avalia que a igreja, nesse momento, pule do barco e declare apoio ao petista.

"Embora incentive certos políticos, isso não quer dizer que a Universal fechará portas a um eventual vencedor. Muito pelo contrário. Historicamente, ela abre diálogo com os setores mais diferentes. Só não dialoga com a extrema esquerda. Mas com a centro-esquerda ou centro-direita, faz isso com muita primazia", afirma.

O deputado Paulo Teixeira (PT-SP), por outro lado, considerou as afirmações da Universal de que "cristão não pode ser de esquerda", como "tardias e fora de época". Para ele, a coordenação política da igreja já teria muito clara hoje a necessidade de dialogar com Lula.

"A igreja não pode estar desconectada de seus fiéis, pessoas simples, que sofrem hoje com as dificuldades econômicas e a miséria e querem mudança", avalia.

A Universal criou o grupo Arimateia (de José de Arimateia, descrito na Bíblia como político) para incentivar a participação política de seus fiéis. A instituição afirma busca escolher "representantes políticos de bom caráter e de boa índole, que defendam ideologias favoráveis à nação e lutem em prol dos interesses coletivos".

A reportagem enviou uma série de perguntas sobre a eleição presidencial à assessoria de comunicação da Universal, mas não recebeu resposta.

O poderoso chefão da Assembleia de Deus confessa seus pecados

“O homem de Deus não se vende por qualquer importância”, pregou José Wellington Bezerra da Costa, 86 anos de idade, homem de negócios bem-sucedido, dono de mais de 100 empresas do ramo religioso, e poderoso chefão da Assembleia de Deus no Brasil, com cerca de 300 templos e 6 milhões de fiéis.

Encaixou em seguida: “A igreja” (referindo-se a dele, a mais influente entre as evangélicas), “não precisa de dinheiro do Estado”. Não resistiu, porém, e foi direto ao que lhe interessava: instruir os pastores de sua denominação religiosa a como proceder em época de eleição e no manuseio de verbas públicas.

Ele é pai de três filhos (o deputado federal Paulo Freire Costa (PL-SP), a deputada estadual Marta Costa (PSD-SP) e a vereadora Rute Costa (PSDB-SP). E, no ano passado, os 3 tiveram acesso a R$ 25 milhões em recursos públicos. Nas eleições que disputaram, foram abertamente apoiados pela igreja do pai.

Na mais recente reunião com suas ovelhas em São Paulo, segunda-feira passada, Bezerra da Costa ensinou:

“A emenda só vai para o prefeito por intermédio do pedido do pastor da Assembleia de Deus. O eleitorado que ali está, irmãos, não é do prefeito, mas são irmãos em Cristo que estão nos apoiando para que os nossos candidatos continuem trabalhando.”

Disse que seus filhos são livres para escolher os prefeitos a serem beneficiados, e revelou como eles os abordam:

“Você quer dinheiro? Quer, mas chame então o pastor da Assembleia de Deus”.

Ouvido pelo jornal O Estado de S. Paulo, Bezerra da Costa confirmou tudo o que dissera, e disse mais:

“Quando o prefeito de uma cidade precisa de uma verba, evidente que mandamos o pastor da nossa igreja para que ele tenha conhecimento com o prefeito. O nosso deputado vai entender, naturalmente, se a verba for coisa lícita, mas pelos canais oficiais. A igreja não tem qualquer compromisso político.”

“O candidato da minha igreja, eu ponho ele no púlpito, eu ponho ele na minha casa, eu ponho ele no meu carro, eu ponho ele onde eu quiser. Quem trouxe a política para o ministério da Assembleia de Deus fui eu porque entendi que existem interesses da igreja, especialmente legais.”

Transparência maior, impossível. Bezerra da Costa e seu rebanho apoiaram a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, e pretendem repetir a dose este ano.


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