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Sexta-Feira 20.mai.2022

Ano X - Nº 487

Poder

Milicianos a serviço da desinformação

PF diz que ‘modo de agir’ de Bolsonaro se assemelha a milícias digitais

Postado em 11 de Fevereiro de 2022 - Rayssa Motta e Weslley Galzo - Estadão

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A Polícia Federal voltou a relacionar - na quinta-feira, 10 - as investigações em curso contra o presidente Jair Bolsonaro (PL) ao inquérito das milícias digitais. O chefe do Executivo passou a ser formalmente investigado nesta última frente, que se debruça sobre ataques antidemocráticos e disseminação de notícias falsas, depois que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou o compartilhamento de provas contra ele.

Em relatório parcial da investigação das milícias digitais, a delegada federal Denisse Dias Rosas Ribeiro cita como ‘eventos relacionados’ outros dois outros inquéritos que atingem Bolsonaro: o que apura a live feita no dia 29 de julho do ano passado para questionar a segurança das urnas eletrônicas e o que se debruça no vazamento de uma investigação sigilosa da PF sobre uma tentativa de ataque hacker aos sistemas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

“Por se tratar de investigação do que se supõe ser a atuação de organização criminosa, também se encontram no escopo deste inquérito outros eventos relacionados a esse grupo”, escreve a delegada ao listar os inquéritos que têm o presidente como principal investigado.

O documento afirma ainda que as investigações contra Bolsonaro ‘possuem correlação e revelam semelhança no modo de agir’ e ‘aderência ao escopo descrito na hipótese criminal’.

Para a Polícia Federal, os elementos colhidos até o momento corroboram a suspeita de uma ‘atuação orquestrada’ da organização criminosa investigada nas milícias digitais para promover desinformação e ataques contra adversários e instituições. O objetivo, segundo o relatório, seria ‘obter vantagens para o próprio grupo ideológico e auferir lucros diretos ou indiretos por canais diversos’.

O Planalto também foi implicado em outro trecho do documento, o que descreve em detalhes o modus operandi dos investigados. Segundo as conclusões parciais da PF, o grupo se valeria da estrutura do chamado ‘gabinete do ódio’ para operacionalizar ataques e promover fake news.

PF vê ‘atuação orquestrada’

A delegada federal Denisse Dias diz que os elementos colhidos até o momento corroboram a hipótese de uma ‘atuação orquestrada’ para promover desinformação e ataques contra adversários e instituições com objetivo de ‘obter vantagens para o próprio grupo ideológico e auferir lucros diretos ou indiretos por canais diversos’.

“Para além de uma relação de causa e consequência e de suas repercussões criminais, o que distingue as condutas sob apuração da mera manifestação de opinião é o nítido propósito de manipular a audiência distorcendo dados, levando o público a erro e induzindo-o a aceitar como verdade aquilo que não possui lastro na realidade. Reforça essa afirmação a existência de informações indicadoras do uso de contas inautênticas automatizadas em massa (robots) para potencializar o alcance das mensagens difundidas”, diz um trecho do documento.

Um dos exemplos citados no relatório é a campanha capitaneada pela militância bolsonarista em nome do tratamento precoce com medicamentos ineficazes contra a covid-19, como cloroquina e hidroxicloroquina, para tratar pacientes diagnosticados com a doença. A delegada também menciona a elaboração de dossiês contra antagonistas e dissidentes, ‘inclusive com insinuação de utilização da estrutura de Estado para atuar investigando todos’.

Na avaliação da delegada, novas diligências são necessárias para concluir a investigação. Até o momento, a PF identificou que a organização criminosa investigada age em quatro etapas: 1) eleição dos alvos; 2) preparação do conteúdo, separação de tarefas e definição dos canais usados para ‘promover a amplificação do discurso’; 3) publicação simultânea de postagens com ‘conteúdo ofensivo, inverídico e/ou deturpado’; 4) reverberação do conteúdo por meio da ‘multiplicação cruzada das postagens por novas retransmissões’.

Aberta em julho do ano passado, a investigação das milícias digitais nasceu derivada de outra frente de apuração contra aliados e apoiadores bolsonaristas: o inquérito dos atos antidemocráticos. Na ocasião, o caso precisou ser arquivado por determinação da Procuradoria-Geral da República (PGR). Antes de encerrá-lo, porém, o ministro Alexandre de Moraes, na condição de relator, autorizou o intercâmbio de provas e mandou rastrear o que chamou de ‘organização criminosa’.

Sob Bolsonaro, você financia a milícia que engana e envenena a sociedade

O relatório enviado pela delegada Denisse Ribeiro ao ministro Alexandre de Moraes sobre a atuação da milícia digital bolsonarista anima e apavora.

É animador porque ilumina os porões de uma organização criminosa que se dedica a produzir e difundir desinformação e ataques a pessoas e instituições.

O relatório apavora porque pede a realização de novas diligências a oito meses das eleições. Significa dizer que a punição dos criminosos, se vier, não chegará antes do final do mandato de Bolsonaro.

A delegada esmiuçou no documento enviado ao Supremo um esquema que já é de conhecimento público. Confirmou que há milicianos escondidos atrás de computadores instalados no Planalto.

Realçou que a live semanal de Bolsonaro, transmitida desde a biblioteca do Alvorada, é uma das vitrines onde a delinquência é exposta. O presidente mente sobre temas variados —de pandemia a urnas.

Na prática, o contribuinte brasileiro ajuda a financiar a engrenagem montada sob Bolsonaro para ludibriar e envenenar a sociedade.

O gabinete do ódio virou uma espécie de trem fantasma. Após sinalizar ao Supremo que a composição continua nos trilhos, a delegada Denisse saiu de licença maternidade. Quem será o substituto?

Ao reiterar mentiras sobre pesquisas e urnas na live que foi ao ar nesta quinta-feira, mesmo dia em que o relatório da doutora veio à luz, Bolsonaro, o maquinista, sinalizou que continua desgovernado.

Inquérito parado tonifica suspeita de aparelhamento da PF por Bolsonaro

"Se for ilegal a gente vê lá na frente", declarou Bolsonaro quando ganhou as manchetes a suspeita de corrupção na gestão de Fábio Wajngarten à frente da Secretaria de Comunicação da Presidência, a Secom. Faltou definir "lá na frente". Decorridos dois anos, verifica-se que a expressão do presidente era apenas um outro nome para embromação. Aberto em janeiro de 2020, o inquérito da Polícia Federal que deveria apurar o caso continua inconcluso.

Continua aberto também o inquérito que apura a suspeita de que Bolsonaro tramou converter a Polícia Federal num aparelho de blindagem do presidente, da família presidencial e dos amigos. A ausência de conclusão do inquérito sobre Wajngarten é apenas mais uma evidência de que o aparelhamento da PF pode ter mudado de patamar, evoluindo da fase da suspeita para o estágio dos fenômenos inquestionáveis.

Até ser nomeado secratário de Comunicação do Planalto, Wajngarten dirigia uma empresa. Mantinha contratos com emissoras de TV e agências de publicidade que vendem serviços à Secom. Contratado por Bolsonaro, Wajngarten continuou sendo dono de 95% das cotas da empresa. Foi substituído no comando da firma por um amigo de sua confiança. E fez do irmão do amigo seu braço direito na Secom.

Ouvido na ocasião, Wajngarten disse ter sido "orientado pela SAJ [Subchefia de Assuntos Jurídicos do Planalto], pela AGU [Advocacia-Geral da União] e pela CGU [Controladoria-Geral da União]." A orientação foi para "que eu saísse do quadro de gestão" da empresa, declarou. Para ficar em pé, essa versão precisa ser escorada num lote de documentos.

Cabe à PF apresentar respostas para pelo menos duas indagações: antes de ter o seu nome associado à suspeição, Wajngarten encaminhou consultas formais aos órgãos que supostamente o aconselharam a se afastar de sua empresa? Há respostas documentadas dos órgãos de controle à hipotética consulta do ex-chefe da Secom?

Sem esse papelório, a "explicação" de Wajngarten se insere na categoria de conversa fiada.


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