Semana On

Terça-Feira 17.mai.2022

Ano X - Nº 487

Especial

Não passarão!

Apologia ao nazismo é crime, e ponto final

Postado em 11 de Fevereiro de 2022 - Ricardo Noblat (Metrópoles), Luís Gomes (Sul21), Leonardo Sakamoto, Josias de Souza e Marco Antônio Villa (UOL) – Edição Semana On

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Numa democracia, a liberdade de expressão é permitida e incentivada. Mas como todo o direito, ela tem limites. Não se pode usá-la, por exemplo, para defender crimes. E está na lei que a defesa do nazismo é crime. Logo… Logo, não há acordo. A não ser que se mude a Constituição e a lei federal antirracismo de 1989.

Monark, alcunha do influenciador digital Bruno Aiub, ex-titular e ex-sócio do podcast Flow, defendeu a legalização de um partido nazista no Brasil e o direito de quem for “antijudeu” a manifestar suas opiniões. Disse, do alto de sua ignorância, quando entrevistava os deputados Tabata Amaral (PSB) e Kim Kataguiri (Podemos): “A esquerda radical tem muito mais espaço que a direita radical, na minha opinião. As duas tinham que ter espaço. Eu acho que tinha de ter o partido nazista reconhecido por lei”.

Tabata contestou-o com veemência. Kataguiri concordou com ele em termos e, mais tarde, recuou. Ao fim do dia, Monark foi demitido.

Não é sobre direita e esquerda radicais. O nazismo prega a destruição de todos os povos que possam contaminar a suposta pureza da raça ariana. Como política de Estado, essa ideologia foi posta em prática na Alemanha por Adolf Hitler nas décadas de 1930 e 1940. O nazismo matou judeus, negros, gays, pessoas com deficiência física ou mental, ciganos, comunistas, sociais-democratas, anarquistas, socialistas e testemunhas de Jeová. Só entre os judeus, foram mais de 6 milhões executados em campos de extermínio.

Monark perguntou se “as pessoas não têm o direito de ser idiotas”. Claro que têm, mas nem por isso podem ignorar a lei. Em nota, a embaixada alemã no Brasil ensinou: “Defender o nazismo não é liberdade de expressão. Quem defende o nazismo desrespeita a memória das vítimas e dos sobreviventes desse regime e ignora os horrores causados por ele”.

Em junho do ano passado, um adolescente de 17 anos foi expulso de um shopping center, em Pernambuco, após ser flagrado ostentando no braço uma suástica (a cruz gamada do nazismo). No dia seguinte, o secretário de Turismo de Maceió, Ricardo Santa Ritta, foi às redes sociais e expressou surpresa. Foi demitido.

A Constituição em seu art. 3°, inciso IV, estabelece como um objetivo fundamental da República “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”. Diz que a “prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão”.

Compara com razão o advogado Luiz Kignel, presidente da Federação Israelita do Estado de São Paulo: “Quando um indivíduo sai em público vestindo a camiseta de um time de futebol, ele deixa claro que admira aquele time. A mesma coisa acontece quando ostenta algum símbolo nazista. Os símbolos do nazismo trazem as ideias de intolerância, ódio, racismo e extermínio do outro, que não podem ser admitidas”.

Não é sobre um judeu que fala. É sobre um advogado judeu que reproduz o entendimento da lei de acordo com o Supremo Tribunal Federal, a quem cabe em última instância interpretar a Constituição. “Eu estava bêbado”, desculpou-se Monark em desespero. Agora está desempregado porque fez por merecer.

Assim como tortura e ditadura de qualquer espécie, nazismo nunca mais!

Grupos neonazistas crescem no Brasil

Além do ‘Caso Monark’, outro episódio relacionado ao nazismo ganhou as manchetes da imprensa brasileira nesta semana: o comentarista Adrilles Jorge, agora ex-Jovem Pan, fez um gesto apontado como uma saudação nazista em um programa ao vivo e também perdeu o emprego.

Ambos se defenderam dizendo que foram mal interpretados. “A ideia defendida é que eu prefiro que o inimigo se revele do que fique nas sombras”, disse Monark, em postagem no Twitter. Contudo, os grupos neonazistas estão em franco crescimento e cada vez evidentes no Brasil.

Há quase 20 anos dedicada a mapear os movimentos neonazistas no Brasil, Adriana Dias, doutora em Antropologia pela Unicamp, aponta que, em maio de 2021, existiam pelo menos 530 grupos neonazistas no Brasil, que somariam cerca de 10 mil participantes. O número representa um aumento de 270% em relação ao que conseguia identificar em janeiro de 2019. Com 80 grupos (células), o Rio Grande do Sul seria o terceiro estado do Brasil com maior presença de extremistas identificados, atrás apenas de São Paulo (137) e Santa Catarina (153). Os dados da pesquisa foram revelados originalmente no Fantástico, em 16 de janeiro.

“Na última análise, a gente achou 80 células no Rio Grande do Sul. É um número grande. E essas células são de várias cidades do RS. Por exemplo, a gente identificou em Agudo, Alvorada, Bento Gonçalves. Agora, a gente tem também em cidades médias como Canoas e Caxias do Sul, em cidades pequeninhas, como Nova Bréscia, e também em Porto Alegre”, diz.

Dias diz que apesar de não ser o estado com maior número de células, o RS se caracteriza por ter as mais antigas, com maior articulação internacional, especialmente com grupos da Argentina, e pelo envolvimento na compra internacional de armas.

A pesquisadora diz que os grupos são fragmentados e seguem vários tipos de vertentes distintas, o que inclui movimentos ultranacionalistas brancos, de negação do Holocausto, de supremacia branca misógina, de radicais católicos antissemitas, de radicais luteranos antissemitas, fascistas de origem italiana, separatistas neonazistas, ligados ao neonazismo ucraniano, ao nacionalismo branco russo, ao neopaganismo racista, etc.

Segundo ela, a atuação desses grupos envolve ações como ciberativismo, pichações, colagem de cartazes, distribuição de material para ser baixado da internet e mesmo conversas sobre temáticas neonazistas. “Por exemplo, um taxista neonazi pergunta ao passageiro o que ele acha, como branco, do que está acontecendo. Eles vão atuando de acordo com a sua profissão”, diz, acrescentando que esse tipo de atuação é muito difícil de ser coibida. “Se você for em qualquer brechó de livros no RS, você vai encontrar livros que são proibidos de serem vendidos no Brasil”.

Atuação ‘aberta’ e ‘fechada’

Vereador de Porto Alegre em primeiro mandato, Leonel Radde (PT) faz o monitoramento de grupos neonazistas desde antes de assumir o mandato, quando atuava como policial civil e era membro do coletivo Policiais Antifascismo. Em 2019, ele expôs a organização de um festival de bandas neonazistas que aconteceria em Canoas e, após a denúncia, acabou cancelado.

Radde diz que o seu mandato tem feito o monitoramento de grupos neonazistas nas redes sociais e que acompanha, por meio de um número de telefone infiltrado, a movimentação em grupos de WhatsApp e Telegram. Ele destaca que a principal rede social usada por esses grupos é VK, plataforma russa dos mesmos criadores do Telegram, por ela praticamente não apagar nenhum tipo de conteúdo e pela justiça brasileira ter maiores dificuldades de conseguir a derrubada de postagens.

Contudo, o vereador explica que os grupos neonazistas se comunicam de forma aberta e fechada, o que ocorreria por meio da chamada deep web — sites que não podem ser achados por mecanismos de busca padrão e que precisam de ferramentas específicas para serem acessados — e por meio de grupos de difícil rastreamento em aplicativos de mensagens eletrônicas.

“Mas, claro, são camadas. Quanto mais vai aprofundando, mais difícil fica. Quando tu chega nos grupos mais diretivos mesmo, aí eles fazem uma checagem completa, com vida regressa, RG, e aí a gente não consegue”, diz.

Mesmo sem acesso a essas camadas “mais profundas”, Radde diz que o monitoramento do gabinete conseguiu identificar, apenas em 2021, 30 pessoas que fazem parte de grupos neonazistas e têm atuação aberta nas redes sociais. “No Facebook, tu até encontra algumas coisas ostensivas, mas no VK eles atuam de forma mais ostensiva, porque é bem mais fácil”, diz.

Dias avalia que há três elementos que contribuem para o crescimento dessas organizações. O primeiro deles seria a impunidade. “Os grupos atuam há bastante tempo com bastante impunidade. Se você não tem uma punição severa a esses grupos, eles vão crescer e se expandir”.

Dias pontua que em alguns países, como a Inglaterra, apenas pertencer a grupos que são considerados nazistas e terroristas é um crime com previsão de pena de 10 anos anos de prisão, enquanto pertencer a uma organização do tipo não é crime no Brasil. Para ela, isso também é motivado pelo fato de os membros desses grupos, em geral, serem jovens brancos de famílias de classe média e alta.

“Os garantistas da Constituição aparecem muito quando a pessoa é branca. Então, tem que ter suástica, tem que ter cruz gamada, tem que ter apologia ao nazismo, o que dificulta a aplicação da lei. Mas, quando é um negro que faz alguma manifestação, aí ela é ampla e os atores legais atuam de uma forma diferente”.

O segundo elemento seria o desconhecimento do que foi a Segunda Guerra Mundial e do que foi o Holocausto. “O desconhecimento da história também leva as pessoas a acharem que não é uma questão importante”.

Um terceiro elemento seriam as falas inflamatórias que ganharam força nos últimos anos. “Quando você tem pessoas importantes que fazem falas homofóbicas, racistas, essas frases e manifestações inflamatórias tendem a legitimar esses grupos. Então a gente tem um habitat quase perfeito para que esses grupos cresçam.”

A pesquisa também identificou que lideranças desses grupos participam ativamente de grupos bolsonaristas. Dias diz que foi identificada a ligação com políticos do Estado, mas que não pode falar do assunto porque os casos ainda estão sob investigação policial.

Radde afirma que o crescimento desses grupos é percebido pelo aumento do fluxo de mensagens no monitoramento. “É muito fácil encontrar mensagens de cunho neonazista ou de apologia ao exército alemão na Segunda Guerra”, diz, explicando que falar de questões bélicas é um “disfarce” usados por esses grupos. “Se transformou em uma endemia, toda hora alguém manda um link. É fato que houve uma explosão desses grupos a partir de 2019. Em um ano, a gente conseguiu identificar facilmente 30 militantes frontalmente neonazistas, não é nem racistas. São 30 pessoas que têm seus perfis abertos em redes sociais. Agora tu imagina no subterrâneo”.

Segundo ele, em geral, são pessoas que fazem parte de pequenos grupos (células), como bandas, ou tem vinculação com pautas políticas. “Grupos de antivacina e de apoio ao Bolsonaro se relacionam nessa rede de informação e divulgação de conteúdos. Boa parte desses grupos acabam se misturando”, diz.

Radde afirma que o monitoramento identificou grupos neonazistas se articulando para participar de manifestações contra o passaporte vacinal. A princípio, segundo Radde, não participariam da articulação do movimento contra o passaporte vacinal, mas ele ressalta que foram identificadas relações com lideranças bolsonaristas.

“Quando eu fiz a denúncia do festival neonazista em 2019 e que iria se repetir em 2020, um deputado estadual fez uma denúncia no Ministério Público de que eu era um líder terrorista antifa. A partir disso, os grupos neonazistas começaram a fazer dossiê com fotos, misturando um monte de bobagens, e esses dossiês foram parar dentro de grupos fechados da Polícia Civil. E áudios que eu dialogava com colegas foram parar também nas mãos desses militantes neonazistas. E esses policiais que fizeram essa atuação são bolsonaristas. Então, a gente vê que existe, sim, uma atuação bem umbilical desses grupos”, afirma.

Dificuldade de criminalização

Até o final de 2020, o monitoramento de grupos neonazistas era comandado na Capital pelo delegado Paulo César Jardim, da 1º Delegacia de Polícia Civil de Porto Alegre. Com a criação da Delegacia de Polícia de Combate à Intolerância (DPCI), em dezembro de 2020, a delegada Andrea Mattos passou a comandar esse monitoramento.

Mattos destaca que os grupos monitorados têm como característica serem extremistas em várias questões: a promoção do antissemitismo, da misoginia, do racismo e da LGBTfobia. “Eles costumam misturar todos esses assuntos”, diz.

Sem entrar em detalhes, a delegada diz que, desde 2021, já foram identificados casos que podem ser considerados como condutas criminais, com os inquéritos sendo remetidos ao Poder Judiciário. Contudo, ela observa que a Polícia enfrenta dificuldades para enquadrar essas organizações. “A nossa lei, infelizmente, é muito falha, tem muitas lacunas, e ela permite uma subjetividade, sabe. Esse é o lado ruim da nossa legislação.”

O combate aos grupos neonazistas se dá por meio do artigo 20 da Lei 7.716, de combate ao racismo, que prevê pena de dois a cinco anos de prisão para quem “fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo”.

A delegada avalia que a utilização desses verbos dificulta o enquadramento da atuação online dos grupos neonazistas, especialmente porque eles sabem como driblar a legislação. “Para enquadrar nessa situação aqui é difícil. Para nós, é um trabalho hercúleo para comprovar que houve, de fato, o antissemitismo”.

Ela cita o exemplo recente de um repórter da Rádio Bandeirantes, de Porto Alegre, que foi atacado com várias menções ao nazismo. Contudo, a Polícia Civil não conseguiu enquadrar o suspeito no crime de apologia ao nazismo, apenas como injúria qualificada. “Ele não fabricou, não comercializou, não veiculou, então isso é um dificultador. A legislação tem que melhorar”, diz.

Risco de violência

A pesquisadora Adriana Dias lembra que os grupos neonazistas já foram responsáveis por atos de violência no Brasil, desde ataques a um cemitério de Curitiba, depredado em 1961, até participação em fóruns que incentivaram os ataques cometidos em escolas em Realengo (RJ), em 2011, e em Suzano (SP), em 2019. “Sempre houve momentos de violência, mas agora os momentos de violência estão ficando mais frequentes e mais fortes”, avalia. “Eles estão se armando e eu espero que a gente consiga, de alguma forma, impedir que alguma coisa aconteça antes que elas se tornem perigosos demais”.

Dias pondera que esses grupos se organizam na internet para fazer ações no mundo não digital e que se sabe que há campos para o treinamento de armas no Brasil, embora ainda não tenha conseguido identificar um local do tipo no Rio Grande do Sul.

A delegada Andrea Mattos compartilha do temor de que casos de violência no mundo real possam aumentar, mas ressalta que eles sabem dificultar o trabalho de monitoramento policial que poderia levar à prevenção. “Eu acredito que sim, porque, principalmente na internet, eles usam muito esses grupos de jogos. Eles ficam um tempo em determinado grupo e eles mesmo derrubam e vão criando outro. O que a gente vê é que eles são organizados, entendem demais sobre a questão de internet, meandros, IP, proxy, hospedagem, então eles sabem como dificultar o trabalho da polícia. Não impedir, mas têm um conhecimento muito bom das questões relacionadas ao mundo virtual”.

Para Radde, o risco de aumento da violência é real, especialmente porque esses grupos se caracterizariam pela discussão de atos de violência e pelo fato de que postagens indicam o acesso a armas.

“Chama a atenção que em todos esses grupos, que não são as mesmas pessoas, se propagam atos violentos como se fossem desafios. Por exemplo, ‘eu duvido que tu corte o braço’. ‘Eu duvido que você mate um cachorro’. E geralmente são formados por jovens, que sofreram bullying, enfim, o perfil que se chama de incel. E tu vê nos grupos a automutilação, indivíduos matando cachorros, tu vê que eles cumprem aquelas missões. Então, para mim é uma questão de tempo”, diz. “No nosso entendimento, como esses grupos fazem esse tipo de desafio, dialogam sobre violência, incentivam esses de violência, incentivam o discurso de ódio, e o Bolsonaro também incentiva o discurso de ódio e flexibilizou o acesso a armas, eu tenho certeza que a gente vai ter um ato extremista, mesmo que seja praticado por um indivíduo. Para mim, não precisa ter uma célula com dez pessoas atuando simultaneamente. Basta, e é o que eu acho mais provável, ter um ou dois indivíduos fazendo uma ação extremista, seja numa escola, seja numa creche, seja num cinema, numa faculdade, numa manifestação mais progressista, enfim, para mandar uma mensagem, para se sentirem vitoriosos dentro dessa rede que eles atuam. Isso que me preocupa demais”.

Guru da 'liberdade acima da vida', Bolsonaro tenta distância do caso Monark

A nota de repúdio ao nazismo publicada por Jair Bolsonaro (PL), no último dia 9, foi uma tentativa de se afastar do impacto das declarações do apresentador Monark e do deputado federal Kim Kataguiri (União Brasil-SP), que defenderam um conceito de liberdade que incluiria até a estúpida permissão para criar um partido nazista no Brasil. Bolsonaro é o principal arauto dessa perigosa e mortal ficção da 'liberdade acima de tudo' e, portanto, corresponsável pela normalização de aberrações.

Houve um componente político de fazer um gesto em prol de Israel e, com isso, agradar seus eleitores evangélicos? Sim, claro. Mas a nota significa muito mais que isso.

Bolsonaro mesmo repete sistematicamente desde 2020 que "existe algo mais importante que a nossa vida, que é a nossa liberdade". Na prática, isso significa que a liberdade de expressão pode se colocar acima de qualquer outro direito. O que é uma mentira muito útil para quem está em guerra com os limites legais estabelecidos pela República.

A liberdade de expressão sem restrições que vem sendo defendida por ele é, na verdade, a liberdade para que ele e seus seguidores possam atacar a democracia e os direitos de terceiros sem serem incomodados. Essa visão considera que, por estar em uma democracia, ele tem a liberdade de ferir de morte a própria democracia e não ser devidamente responsabilizado.

Como dizemos desde que ele assumiu o poder em 2019, esse tipo de argumentação apela para o "paradoxo da tolerância" - que voltou a ser pop nas redes sociais nos últimos dias. Para o filósofo Karl Popper, a liberdade irrestrita leva ao fim da liberdade da mesma forma que a tolerância irrestrita pode levar ao fim da tolerância. Os intolerantes argumentam que devem ter liberdade absoluta, o que significa poder para destruir a liberdade alheia. Qualquer indivíduo é capaz de compreender isso, mas rebanhos não necessariamente.

Claro que o direito ao livre exercício de pensamento e à liberdade de expressão são garantidos pela Constituição Federal e pelos tratados internacionais que o país assinou. Mas a liberdade de expressão não é um direito fundamental absoluto no Brasil. Porque não há direitos fundamentais absolutos. Nem o direito à vida é, caso contrário, não haveria o direito à legítima defesa.

E a partir do momento em que alguém abusa de sua liberdade de expressão, indo além de expor a sua opinião, espalhando o ódio, incitando à violência e buscando minar o sistema que garante a existência das liberdades individuais e coletivas, isso pode trazer consequências mais graves à vida de outras pessoas. Lembrando que ninguém nasce odiando negros, indígenas, população LGBTQIA+, mas aprendem a fazer isso.

Pessoas como o presidente dizem que não incitam essa violência. Mas a sobreposição de seus discursos ao longo do tempo mina a credibilidade das instituições e as regras de convívio comum. Ele nem precisaria por os pés nas ruas em outubro para perpetrar um golpe de Estado caso perca nas urnas, se civis e policiais alimentados por ele com as mentiras de que podem fazer o que quiserem fizerem o serviço sujo.

A responsabilidade por uma declaração também é diretamente proporcional ao poder de difusão dessa mensagem. Quanto mais pública a figura, mais responsável ela deve ser. Bolsonaro, Monark, Kataguiri e Adrilles Jorge não são "cidadãos" comuns, têm ou tinham à sua disposição canhões de comunicação e contam com seguidores.

A liberdade de expressão não admite censura prévia. A lei garante que as pessoas não sejam proibidas de dizer o que pensam. E foi isso o que aconteceu. Pessoas falaram e se expressaram do jeito que quiseram. E, agora, precisam arcar com o impacto e as consequências de seus atos.

Monark, Kataguiri e Adrilles rasgaram os limites e, agora, respondem por isso, mas Bolsonaro vem ultrapassando a barreira do aceitável diariamente sem que seja alvo de um processo por crime de responsabilidade porque conta com o respaldo de aliados. Como o próprio procurador-geral da República, que foi célere para abrir uma investigação a fim de avaliar se um crime foi cometido pelos dois acima citados, mas é lento para denunciar Jair contra crimes contra a humanidade cometidos na pandemia, por exemplo.

Criticado, Bolsonaro dá um passinho para trás. E parte do mundo político, dos empresários e da imprensa cravam, diante do breve refugo, que "agora, o presidente acalmou". Até que o próximo ataque chega. E com esse vai e vem, vai conseguindo passar adiante a sua mensagem e esgarçando o tecido democrático que, no final, começa a conviver com violações que antes eram inaceitáveis.

Quem imaginaria, há dez anos, que estaríamos convivendo com ameaças de golpe por um presidente da República, que o líder de um partido político, como Roberto Jefferson, publicaria vídeos empunhando armas e conclamando uma insurreição, que manifestantes se reuniriam aos milhares para pedir a cabeça de ministros do Supremo, que um canal com milhões de seguidores defenderia a existência de um partido nazista como exemplo de liberdade?

Não que o Brasil não fosse um país violento, claro. Matamos desde sempre negros, indígenas, homossexuais e transexuais. Mas os últimos acontecimentos são prova de que estão involuindo como povo.

Em alguns casos, setores da sociedade se rebelam, como foi com o podcast Flow ou mesmo com o comentarista bolsonarista Adrilles. Mas nesses casos, pesou na comoção popular a longa capivara dos envolvidos.

Há, porém, tantos outros casos em que a "liberdade é colocada acima da vida", diariamente, em que biografias são encurtadas em silêncio após discursos violentos de líderes e influenciadores encontrarem quem resolve tirá-los do papel.

Sob Bolsonaro, a apologia ao nazismo cresceu

Sem pressa, Bolsonaro foi o último presidenciável a se manifestar sobre o caso de apologia ao nazismo. Levou às redes sociais uma postagem ponderada: "A ideologia nazista deve ser repudiada de forma irrestrita e permanente, sem ressalvas...". Pediu tratamento análogo para o comunismo. Recomendou moderação: "Tenhamos mais juízo e responsabilidade." Quem leu teve a impressão de que Bolsonaro, cultor da raiva e fabricante de crises, estava completamente fora de si.

Dados oficiais revelam que a maluquice, além de não ser pontal, cresceu nos três anos da Presidência de Bolsonaro.

A Polícia Federal abriu 51 inquéritos para apurar manifestações elogiosas ao nazismo entre janeiro e outubro do ano passado. Em 2020, abriram-se 110 inquéritos. Em 2019, foram 69. Esses números, divulgados pelo Globo, superam a marca registrada entre 2010 e 2018, quando a PF abria uma média de 12 investigações do gênero por ano.

O fenômeno não ocorre por acaso. Sob Bolsonaro, os apologistas do nazismo enxergaram estímulos em Brasília. Roberto Alvim, um secretário de Cultura do capitão, ecoou num pronunciamento oficial palavras de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler. Bolsonaro recebeu em audiência no Planalto uma deputada ultradireitista alemã, Beatrix von Storch, neta do ministro das Finanças de Hitler. Filipe Martins, assessor da Presidência, foi filmado no plenário do Senado fazendo um gesto dos supremacistas brancos.

Quando analisados em conjunto, esses fatos revelam que a democracia brasileira adoeceu. Uma das tarefas do próximo governo será desintoxicar a atmosfera. Palavras bonitas escritas por algum assessor e postadas nas redes sociais não farão de Bolsonaro uma solução. Ele é parte do problema.

Agir contra o nazifascismo bolsonarista antes que seja tarde

Um dia a defesa despudorada do saque e confisco dos bens dos judeus para solucionar a crise econômica. No outro, a defesa da existência legal do Partido Nazista e da perseguição aos judeus. E, finalmente (?), no dia seguinte, a exibição da saudação nazista sem nenhum constrangimento —mais ainda, com orgulho. Quando as SA, as SS, a juventude nazista vão desfilar na avenida Paulista? É o que está faltando.

O extremismo bolsonarista banalizou o nazifascismo. São nazifascistas na prática, mas ainda —graças a Deus— não conseguiram sê-los na teoria, o que levaria a uma potencialização da ação com efeitos inimagináveis. Ainda bem que não conseguiram construir um partido, organizações de massa, produzir intelectuais orgânicos e construir uma visão de mundo com relativa unidade —vivem de frases soltas ao léu.

Estão avançando pois contam com o beneplácito de Jair Bolsonaro. O bolsonarismo é antissemita, homofóbico e racista. Bolsonaro já manifestou seu desprezo pela democracia inúmeras vezes. Age como Adolf Hitler que usou dos direitos garantidos pela Constituição de Weimar para destruir a democracia e instalar o totalitarismo na Alemanha. As limitações cognitivas de Bolsonaro agem, paradoxalmente, a favor da democracia, assim como sua pouca disposição ao trabalho e à organização dos seus fanáticos.

A pronta resposta das entidades judaicas deve ser louvada. O que causa estranheza é o silêncio do grande empresariado de origem judaica. Silenciam como se não pudessem ser atingidos pela fúria dos antissemistas bolsonaristas. Cabe também indagar se a identificação com Jair Bolsonaro se sobrepõe aos valores democráticos da Constituição. Uma leitura dos livros de Primo Levi poderia ajudá-los a deixar de lado o oportunismo criminoso.

A proliferação de armas em poder de grupos simpáticos a Bolsonaro potencializa o perigo de um confronto com o Estado Democrático de Direito. Abundam os símbolos, como o 88 —H é a oitava letra do alfabeto; HH significa Heil Hitler.

A Constituição e a lei 7.716/89 fornecem os instrumentos legais para a pronta ação contra os nazifascistas bolsonaristas. Interromper a propagação do extremismo —mais ainda em um ano eleitoral— é tarefa essencial, antes que seja tarde demais. O ovo da serpente está à vista de todos. Contemporizar poderá ter um alto custo à nossa democracia.


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