Semana On

Quarta-Feira 18.mai.2022

Ano X - Nº 487

Cultura e Entretenimento

Onde ver, ler e ouvir obras da Semana de Arte Moderna de 1922?

Obras de Lídia Baís serão expostas no Sesc em São Paulo, em comemoração ao centenário da Semana

Postado em 08 de Fevereiro de 2022 - Julia Braun (BBC News Brasil), Semana On – Edição Semana On

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A Semana de Arte Moderna, evento organizado por um grupo de intelectuais e artistas por ocasião do Centenário da Independência em 1922, foi um verdadeiro marco na história de São Paulo, considerada um divisor de águas na cultura brasileira.

O evento que comemora 100 anos na próxima semana foi realizado entre os dias 13 e 17 de fevereiro, no Teatro Municipal de São Paulo, e financiado pela oligarquia paulista.

O festival incluiu exposição com cerca de 100 obras, aberta diariamente no saguão do teatro, e três sessões noturnas de apresentações de literatura e música.

Influenciados pelo fim da Primeira Guerra Mundial e pelas vanguardas europeias, os organizadores propunham o rompimento com a arte acadêmica e o compromisso com a independência cultural. Também lutavam pela valorização de uma arte "mais brasileira".

Apesar de ter provocado irritação e algazarra no público presente por suas visões, a Semana conseguiu revelar novos grupos, artistas e publicações, tornando a arte moderna uma realidade cultural no Brasil.

A BBC News Brasil destaca a seguir alguns dos principais trabalhos apresentados durante o festival, assim como dicas sobre onde encontrar e visitar as obras atualmente.

Anita Malfatti

A pintora paulista Anita Malfatti, que também era desenhista, gravadora, ilustradora e professora, é uma das mais relevantes artistas brasileiras, com papel determinante na introdução da estética modernista no país.

Sua relevância pode ser aferida pelo destaque concedido a ela na programação da Semana de Arte Moderna: Anita foi a artista com maior representação individual na exposição, com 12 telas a óleo e oito peças entre gravuras e desenhos.

Uma das obras da artista exibida durante a Semana de 1922 foi 'A estudante', de 1915. O quadro faz parte do acervo do MASP (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand), que tem entrada gratuita todas as terças-feiras e na primeira quarta-feira de todos os meses.

A pintura 'O Farol', de 1915, faz parte da Coleção Gilberto Chateaubriand no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro. O museu funciona de quinta a domingo e tem entrada gratuita.

O quadro 'O Homem de Sete Cores' também foi exibido. É possível admirá-lo ao vivo no Museu de Arte Brasileira - MAB FAAP, que funciona todos os dias exceto às terças-feiras.

Já a pintura 'A Ventania', 1915, integra o acervo do Palácio dos Bandeirantes, a sede do governo de São Paulo. O local pode ser visitado de segunda a sexta-feira, das 10h às 16h, e a entrada é franca.

Di Cavalcanti

Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo, mais conhecido como Di Cavalcanti, destacou-se nas artes plásticas por retratar figuras populares da cultura brasileira, como as favelas, o samba e o carnaval.

Na Semana de Arte Moderna, além de apresentar onze telas no hall do Teatro Municipal, o pintor carioca foi responsável por ilustrar as capas do programa do evento e do catálogo da exposição de artes visuais.

Uma de suas obras exibidas foi 'Amigos (Boêmios)', 1921, que atualmente faz parte do acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo. A entrada no museu é gratuita aos sábados e é obrigatório apresentar comprovante de vacinação contra covid-19.

John Graz

O pintor suíço-americano John Graz foi outro dos artistas convidados a expor na Semana de Arte Moderna. Entre as obras escolhidas para fazer parte da exposição estava a tela 'Retrato do Desembargador Gabriel Gonçalves Gomide', de 1917. O quadro faz parte do acervo do MASP, em São Paulo.

Graz também exibiu a obra 'Paisagem da Espanha', pintada em 1920. O quadro está em exibição na Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Vicente do Rego Monteiro

O pintor e escultor pernambucano Vicente do Rego Monteiro também participou da mostra. Suas obras eram fortemente inspiradas pela cultura indígena e marcadas pela simplificação.

Ao todo, o artista exibiu oito trabalhos no Teatro Municipal. Um deles, intitulado 'Retrato de Ronald de Carvalho', de 1921, pode ser visitado atualmente no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro.

Victor Brecheret

Italiano, Victor Brecheret foi um dos precursores do movimento modernista brasileiro nas artes. Sua obra é marcada por diferentes técnicas da escultura, do mármore à terracota, e de temas relevantes da cultura nacional.

O escultor foi convidado a exibir 12 obras na Semana de 1922, entre elas 'Cabeça de Mulher'. A estátua em terracota de cerca de 35 cm de altura faz parte do acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo.

A escultura 'Soror Dolorosa', de 1920, também foi exibida. Atualmente, a obra em bronze pode ser visitada na Casa Guilherme de Almeida, na cidade de São Paulo. O museu está aberto de terça a domingo, das 10h às 18h.

Mário de Andrade

Um dos idealizadores da Semana de Arte Moderna, Mário de Andrade foi um grande poeta, romancista e crítico de literatura e arte. O escritor leu alguns de seus poemas no palco do Theatro Municipal de São Paulo ao longo dos três dias de apresentações, mas foi criticado pela imprensa paulista e vaiado em diversas ocasiões pelo conteúdo vanguardista das obras.

Isso aconteceu durante o segundo dia de apresentações, quando Mário de Andrade recitou o poema Ode ao Burguês, que faz parte do seu livro Paulicéia Desvairada. A antologia de contos foi publicada em 1922 e é reconhecida por muitos como a primeira obra realmente de vanguarda do movimento modernista.

O poema escolhido para ser apresentado no Teatro Municipal desagradou pois atacava a burguesia e, dessa forma, muitos dos presentes na plateia.

Também no segundo dia do evento, Mário realizou uma conferência, que mais tarde viraria livro, publicado como ensaio intitulado A Escrava que Não é Isaura. Em sua fala, o escritor defendeu a modernidade no Brasil, sugerindo um olhar que mire as raízes da cultura popular brasileira.

Todas as obras de Mário de Andrade se tornaram domínio público em 2014, o que significa que os livros que contém o poema e a conferência apresentados no Teatro Municipal podem ser baixados gratuitamente pelo Google Livros e outras ferramentas online.

Graça Aranha

Mais conhecido por seu papel na diplomacia brasileira, Graça Aranha também teve um papel significativo no movimento modernista e na Semana de 22. Além de organizador e financiador, ele ficou encarregado de proferir o discurso inicial intitulado "A emoção estética na arte moderna".

Parte da palestra está disponível para leitura na página do autor no site da Academia Brasileira de Letras (ABL), que Aranha ajudou a fundar em 1897.

Graça Aranha iniciou seu discurso elogiando os jovens e ousados artistas modernos, mas dedicou-se em grande parte a academia, assim suas regras e moldes para a arte. "O que se pode afirmar para condená-la é que ela suscita o estilo acadêmico, constrange a livre inspiração, refreia o jovem e árdego talento que deixa de ser independente para se vasar no molde da Academia", diz um trecho da apresentação.

Manuel Bandeira

O poeta pernambucano Manuel Bandeira não participou da Semana de Arte Moderna de 1922, mas seu poema "Os Sapos" foi lido no segundo dia de evento. Os versos foram declamados por Ronald de Carvalho, em meio às vaias da plateia.

O poema de 1918 carrega métrica regular e preocupação com a sonoridade, em uma espécie de paródia da poesia parnasiana. O objetivo era criticar o apego do formato à métrica, o que causou indignação do público.

É possível ler o poema na coletânea 'Melhores poemas: Manuel Bandeira', publicada pela Global Editora em 2020. Ele também está disponível no site do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da Universidade de São Paulo (USP).

Heitor Villa-Lobos

O compositor carioca Heitor Villa-Lobos foi a principal figura da música na Semana de 1922. Ele já era um dos mais importantes compositores brasileiros à época do evento e exibiu sua obra em dois dias de apresentações.

Mas foi o terceiro dia de apresentações no Teatro Municipal que entrou para a história. Antes mesmo de começar sua apresentação, o maestro causou uma das maiores polêmicas da Semana ao subir no palco com um pé calçado com um sapato e outro com chinelo. Sua atitude foi classificada por muitos como desrespeitosa e rendeu vaias e críticas da plateia, mas depois descobriu-se que o compositor sofria com um calo, o que o impediu de vestir o calçado.

Entre as obras do compositor apresentadas estiveram "Segunda Sonata", "Danças Africanas", "Valsa Mística", "Cascavel", "Terceiro Quarteto", entre outras.

Todas as peças podem ser escutadas em aplicativos de streaming como o Spotify e também no Youtube.

Há ainda a possibilidade de desfrutar das obras do compositor no espaço Ouvillas, localizado dentro do Parque Villa Lobos na cidade de São Paulo. Ali os visitantes podem descansar em bancos e espreguiçadeiras enquanto ouvem as músicas tocadas em pequenas caixas de som.

Guiomar Novaes

As apresentações musicais da Semana de Arte também foram compostas por Guiomar Novaes. A paulista é considerada por muitos como a maior pianista brasileira.

Guiomar participou do primeiro dia de apresentações. O desejo dos modernistas era que ela tocasse as paródias que Erik Satie fez das obras de Chopin, mas ela se recusou. Por fim, ela apresentou sucessos de Debussy, Blanchet e Villa-Lobos. É possível ouvir gravações da pianista tocando essas obras no Spotify, Deezer, Apple Music e YouTube.

Obras de Lídia Baís serão expostas no Sesc em São Paulo

Cinco obras da artista sul-mato-grossense Lídia Baís pertencentes ao acervo do MARCO (Museu de Arte Contemporânea) vão fazer parte da exposição “Raio-que-o-parta: ficções do moderno no Brasil”, no Sesc 24 de Maio, em São Paulo, como parte da programação “Diversos 22 – Projetos, Memórias, conexões”, realizada pelo SESC em comemoração ao centenário da Semana de Arte Moderna em São Paulo e ao bicentenário da Independência do Brasil.

A exposição, que tem curadoria de Aldrin Figueiredo, Clarissa Diniz, Divino Sobral, Marcelo Campos e Paula Ramos, participação dos curadores assistentes Breno de Faria, Ludmilla Fonseca e Renato Menezes, e curadoria geral de Raphael Fonseca, além da consultoria de Fernanda Pitta, será aberta no dia 10 de fevereiro, próxima quinta-feira, e vai até o dia 07 de agosto.

Pensada de modo ensaístico, a exposição pretende mostrar como a noção de arte moderna responde ao processo de modernização do país, não se restringindo, portanto, aos marcos oficiais, mas se expandindo para antes e para depois de 1922, tendo diferentes temporalidades, interesses formais e temáticos, distintos sotaques e maneiras regionais.

Em função de tentar entender partes do Brasil moderno, tudo está misturado, tempos, categorias, procedências, classificações, artistas canônicos e artistas das margens. São mais de 600 itens coletados em todas as regiões do Brasil, apresentados em 4 núcleos: “Deixa falar”; Centauros iconoclastas”; “Eu vou reunir, eu vou guarnecer”; “Vândalos do Apocalipse”. “Raio-que-o-parta” é o nome de um estilo de arquitetura desenvolvido em Belém do Pará.

As cinco obras que vão fazer parte da exposição são: dois autoretratos (sendo que um deles é o que simboliza a trindade); Alegoria Profética; Alegoria e Micróbio da Fuzarca. A gestora de arte e responsável pela reserva técnica do MARCO, Cristiane Freire, explica o processo de escolha das obras: “A Equipe do MARCO, em conjunto com a equipe de produção da própria exposição, foram as encarregadas de selecionar as obras que vão fazer parte da exposição. Nós temos uma infinidade de obras, e dentro dessa gama grande de produção da Lídia Baís, a gente tinha que colocar algumas que são mais conhecidas, mas também a gente precisava garantir que fossem aquelas obras que teriam condições de ser transportadas, expostas com todo o cuidado. Porque nós temos muitas obras aqui que são maravilhosas, porém que necessitam hoje de restauração, melhoria na sua moldura para poder sair para exposição”.

Segundo Cristiane Freire, houve um trabalho muito especial com relação à segurança, uma seguradora foi contratada (Liberty Seguros), e o transporte foi feito pela Atlantis Fine Arts. Foi feito um laudo técnico para a saída das obras do MARCO.


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