Semana On

Quarta-Feira 25.mai.2022

Ano X - Nº 488

Brasil

Dallagnol expôs soberba e desumanidade ao prestar solidariedade a delegada após morte de reitor da UFSC

Diálogos inéditos: para o então chefe da Lava Jato, críticos da operação que levou Luiz Carlos Cancellier à morte são ‘bando de imbecis’

Postado em 20 de Janeiro de 2022 - Rafael Moro Martins - The Intercept_Brasil

Investigação midiática liderada por Erika Marena acabou com zero condenados.
Foto: Pedro Ladeira/Folhapress Investigação midiática liderada por Erika Marena acabou com zero condenados. Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

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Tidos por boa parte da sociedade e da imprensa brasileira como exemplos de super-heróis obstinados na única luta que realmente importa, Sergio Moro e Deltan Dallagnol acumulam derrotas em série e assistem em tempo real à deterioração das próprias biografias. Por culpa exclusiva deles mesmos.

Moro foi carimbado como juiz suspeito pela suprema corte brasileira – à época, já era um político desempregado após se ver forçado a deixar o governo de tintas fascistas de que foi eleitor fundamental e “superministro” de primeira hora. Atualmente, tenta convencer o país de que é um presidenciável com algo a oferecer. É uma lorota que só um a cada 10 eleitores compram, a julgar por 100% das pesquisas de intenção de voto.

Dallagnol, que chegou a se ver “facilmente eleito” um dos três senadores do Paraná, abandonou a carreira no Ministério Público Federal para tentar alçar um voo político bem mais modesto. Planeja ser um dos 30 deputados federais do estado. O moralismo messiânico, infantilóide e maniqueísta que exibe em suas manifestações públicas dificilmente irá lhe garantir algo melhor.

Nem por isso, contudo, se vê no núcleo duro lavajatista alguma disposição à autocrítica a respeito dos métodos que consagraram – e depois malograram – a operação. Um episódio particular, consequência de uma outra operação, mas que espelhava seu modus operandi, mostra como autoengano e culto à truculência são parte do ethos dos personagens principais da Lava Jato.

Em outubro de 2017, o reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier de Olivo, cometeu suicídio após ser alvo de uma operação espetaculosa liderada pela delegada federal Erika Mialik Marena, responsável por batizar outra operação espetaculosa, a Lava Jato. Cancellier era suspeito de participar do desvio de R$ 80 milhões da UFSC. Hoje, sabemos que as investigações não conseguiram nenhuma prova do envolvimento de Cancellier em crime na universidade.

À época, Dallagnol se mostrava convicto de que a operação liderada por sua amiga, da qual não participou, foi absolutamente correta. E não mudou de ideia – “nas investigações em que trabalhou com a delegada Marena, ela sempre demonstrou correção, competência, dedicação e qualidade técnica, assim como respeito aos direitos fundamentais dos investigados e réus”, me disse sua assessoria, por e-mail, em comentário que solicitei para este texto.

Por pensar dessa forma, o ex-procurador e hoje aspirante a político classificou, em 2017, de “bando de imbecis” os críticos da operação da Polícia Federal. No diálogo, até hoje inédito e que faz parte do arquivo da Vaza Jato, Dallagnol usou o Telegram para prestar solidariedade a Marena pelas críticas que ela e a corporação ouviram após o ato extremo de Cancellier. Creio que é oportuno lembrar que Dallagnol é homem que faz questão de propagandear a própria religiosidade – é evangélico batista.

A história de Cancellier voltou ao noticiário com a publicação do ótimo “Recurso final”, livro que condensa a exaustiva reportagem do jornalista Paulo Markun sobre a vida de Cancellier e a operação Ouvidos Moucos.

O livro mostra como a operação, além de motivar uma tragédia irreparável, é um fiasco policial raro, mesmo num país em que as polícias são habitualmente incompetentes: em 817 páginas de relatório, a PF não listou uma única prova dos crimes pelos quais prendeu, mandou algemar as mãos e acorrentar os pés e, mais tarde, indiciou o reitor. O desvio milionário não se confirmou e ninguém jamais foi condenado.

Hoje, o que parou de pé na ação comandada por Marena – quase nada – se resume a um punhado de processos administrativos banais, encarregados de apurar o que realmente houve na UFSC: irregularidades administrativas, e não crimes, como já concluiu em 2019 o Tribunal de Contas da União, o TCU.

Zero resultados, além de uma vida perdida e uma família destruída por pouca diligência e soberba policial. Num país sério, os envolvidos seriam demitidos. No Brasil da Lava Jato, Marena foi promovida em 2019 a chefe do Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional do Ministério da Justiça pelo “superministro Sergio Moro”, hoje correligionário de Dallagnol no Podemos.

Se faltou punição, também não parece ter havido qualquer arrependimento. Em vez disso, no diálogo travado via Telegram em 2017, a delegada e o então procurador-chefe da Lava Jato exibem apenas prepotência e desumanidade. “As decisões foram todas dele”, chegou a escrever Dallagnol, em referência a Cancellier, quatro dias após o reitor se matar em Florianópolis com um bilhete no bolso, manuscrito, com um recado: “minha morte foi decretada quando fui banido da universidade!!!”.

Em seguida, o procurador deixou claro que os métodos da Ouvidos Moucos não diferiam dos da Lava Jato: “Vc respeita todas as regras, atuou 100% corretamente e como fazemos em TODOS os outros casos. Não fique chateada, amiga, que eles não merecem”.

‘Esta é a delegada da Lava Jato’

A história de Cancellier é tristemente célebre: o reitor e seis professores foram presos a pedido da delegada Marena, para quem eram “suspeitos de desviar R$ 80 milhões” de um programa de ensino à distância – sobre o reitor, pesava apenas a suspeita de obstruir a justiça. Todos eram primários, tinham endereços fixos e jamais haviam sido chamados a prestar esclarecimentos pela PF antes do espetáculo midiático promovido por Marena.

Dois dias depois, as prisões acabariam revogadas, mas os suspeitos – já expostos em praça pública pela PF e automaticamente condenados pela opinião pública – foram proibidos de entrar na UFSC. Cancellier preferiu a morte à humilhação. Para Markun, o suicídio foi um ato político. “Com a atitude radical e absoluta do reitor, de perder a própria vida, ele demonstra que a indignação era tamanha, e o desespero, que não tinha outra saída”, falou à Folha.

O livro de Markun é um relato assombroso da soberba e da onipotência da Polícia Federal nos anos de Lava Jato. Um dos trechos merece registro. É o relato da conversa que o reitor em exercício da UFSC, Rogério Cid Bastos – que fora rival de Cancellier na eleição interna –, travou com os delegados da PF na manhã da operação, 14 de setembro de 2017.

Escreve Markun:

O reitor em exercício imaginou que encontraria Cancellier na sala do superintendente [da PF em Santa Catarina, o delegado Marcelo Mosele], mas topou com o pessoal da CGU [Controladoria-Geral da União], do TCU, da Procuradoria Federal e do Ministério Público, além de alguns delegados. O diálogo com Mosele, Rogério não esquece: “Professor, nós estamos investigando um roubo, um desvio de 80 milhões de reais.” “Sobre?” “Ah, um processo de Educação a Distância…” “Existe um erro aí, que pode ser aritmético ou lógico.” “Mas como, professor? A investigação foi muito bem conduzida…” “Não, não foi, porque tem um erro ou aritmético, ou lógico”. “Professor, o senhor não conhece a delegada?” “Não.” “Esta é a delegada da operação Lava Jato de Curitiba, Érika Marena.” “Que bom, muito prazer.” Marena tentou explicar que a investigação tinha sido muito cuidadosa, mas Bastos não deu o braço a torcer: “Continuo achando que tem um erro lógico ou aritmético.” “Por que o senhor está falando isso?” “Doutor, vamos começar pelo erro aritmético, que é mais fácil a gente entender: 80 milhões de reais é o valor do programa de 2006 a 2017, certo? Desses 80 milhões, 40 milhões foram executados pela Capes.” A delegada interveio e disse que estavam investigando a Capes também. Ele continuou: “Bom, se 40 milhões foram repassados pela Capes, não há possibilidade de o reitor ter roubado 80 milhões. Então a notícia devia ser 40 milhões.” Fez-se um silêncio na sala e o professor seguiu com o raciocínio. “Mas ainda tem um erro lógico. Vocês fizeram a investigação, mas a investigação deve ter mostrado que pelo menos um aluno se formou. Então, se pelo menos um aluno se formou, não se pode contabilizar 40 milhões, porque temos mais de mil pessoas formadas. Então, ao fazer uma acusação dessas, a gente tem de ter muito cuidado.”

Cuidado, hoje é certo, Marena não tomou. Mas, meses antes da operação, pelo Telegram, era possível ter uma ideia do que motivou a delegada a ir para cima da UFSC.

A delegada seguiu a listar suas suspeitas no dia seguinte.

Marena, de certa forma, confirma o ato falho cometido por Sergio Moro em entrevista a uma rádio do Mato Grosso em dezembro passado. “Tem gente que combateu o PT na história de uma maneira muito mais efetiva, muito mais eficaz. A Lava Jato”, disparou o ex-juiz, que imediatamente percebeu que a frase não pegaria bem e tentou emendá-la – sem sucesso.

As suspeitas da delegada se apoiam em muito pouco além de uma suspeita generalizada sobre as universidades e um palpável desprezo pelo MST – como se a manutenção de um convênio com o movimento fosse, por si só, algo ilegal.

Dallagnol chegou, de fato, segundo contou a Marena pelo Telegram, a enviar um ofício à Petrobras inquirindo a respeito dos tais convênios. Antes de publicar este texto, eu perguntei ao MPF do Paraná se a Lava Jato chegou a investigar os acordos firmados por universidades. “Não localizamos nada”, foi a resposta da assessoria, numa evidência de que as suspeitas de Marena eram sólidas como prego cravado num pudim.

Não foi caso único. Ao longo dos diálogos travados pelo Telegram, há incontáveis boatos e teorias da conspiração que foram levados a sério pelos procuradores e pelo ex-juiz da Lava Jato – de mansões e fazendas da família de Lula ao crucifixo roubado dele mesmo pelo ex-presidente.

A falta de solidez das suspeitas e da investigação não impediram que a operação Ouvidos Moucos – que mobilizou uma centena de policiais, boa parte deles levada a Santa Catarina de outras partes do país às custas do contribuinte – fosse deflagrada meses depois. Deu no que se sabe.

Foi aí que Dallagnol resolveu usar o Telegram para prestar solidariedade à delegada que batizara a Lava Jato.

Marena só iria responder dali a três dias. Externou desconforto, mas foi incapaz de uma autocrítica sobre os métodos que empregara.

Dallagnol responderia apenas dali a 10 dias. Nem o tempo que havia decorrido da morte de Cancellier – 15 dias – o fez colocar em perspectiva a atuação. Ao contrário: em mau português, disparou contra os críticos:

‘Isso não é justiça’

Dois dias após a prisão de Luiz Carlos Cancellier, o ex-deputado federal constituinte e ex-senador Nelson Wedekin – de quem o reitor, à época jornalista, havia sido assessor – publicou um texto em defesa dele. É tristemente profético.

“A prisão de Cancellier foi um ato despropositado, uma decisão atrabiliária. Uma inaudita violência. As autoridades que tomaram a decisão não se deram conta da desproporção que existe entre o bem que se pretendia preservar e o mal sem cura que dela resultou”, escreveu. “Cancellier será finalmente absolvido, mas a sua reputação foi abalada sem remédio e para sempre. As autoridades responsáveis, os algozes, continuarão na ativa ditando normas, regras, sentenças, e quando errarem, como agora, o azar será de quem atravesse o caminho. Não correm nenhum risco de pagar pelo exagero, leviandade e inconsequência. Me desculpem, mas isso não é justiça”.

Decorridos mais de quatro anos da Ouvidos Moucos e da morte de Cancellier, Erika Marena jamais se desculpou pela operação e seus resultados. Tampouco quase todos os procuradores da Lava Jato (a notável exceção foi Jerusa Viecilli) fizeram qualquer menção de pedir desculpas pela falta de humanidade nas troças com a morte da esposa, do irmão e de um neto do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, expostas pela Vaza Jato.

Como já está claro, o ex-chefe da força-tarefa, Dallagnol, pretende usar a ideia de que “vale tudo contra a corrupção” para pavimentar seu caminho a um cargo de deputado federal. É o mesmo discurso que o ex-chefe informal dele, o aspirante a presidenciável Sergio Moro, tem passado as últimas a grasnar, na até agora infrutífera esperança de que se converta em votos.

Os estragos que os métodos da Lava Jato provocaram são grandes. A eleição de Bolsonaro está na conta da operação, bem como suas consequências – como o aparelhamento da Polícia Federal e a transformação do Ministério Público Federal em espectador inerte do espetáculo de morte patrocinado pelo presidente durante a pandemia de covid-19. Mas vão além do bolsonarismo reinante. O lavajatismo desvirtuou o MP de parte fundamental dos propósitos a ele atribuídos pelos constituintes.

Mesmo fora do MP e do Judiciário, Dallagnol e Moro seguem a representar a voz majoritária nessas instituições. Se fizer o que todo o mundo imagina que fará, Moro deve levar com facilidade uma cadeira no Senado. Dallagnol deve sair das urnas com uma votação expressiva – caso não seja apanhado pela Lei da Ficha Limpa por ter deixado a carreira de procurador da República com um processo administrativo disciplinar em andamento contra si.

Qualquer coisa diferente disso será surpreendente neste nosso país que adora assistir a cenas de violência policial na televisão e aplaudiu como herói o criminoso capitão Nascimento de Tropa de Elite. Mas não significa que esteja certo.

O caminho do Brasil para se tornar uma sociedade mais civilizada e humana passa obrigatoriamente pela desgraça do que Moro e Dallagnol representam. Os dois são produtos da mesma máquina que nos entregou os Bolsonaro, Datena, Alborghetti, Ratinho, Sikera Jr – a máquina que legitima a violência policial e quer lhe dar direito de matar via “excludente de ilicitude”. A polícia que espanca, humilha, condena e executa não é só a que usa farda. Há os que usam terno – e toga.

Em resposta às perguntas que lhe enviei, Dallagnol seguiu na cantilena do autoengano. Repetiu que não reconhece os diálogos – já amplamente reconhecidos inclusive por colegas dele no MPF – e disse que as reportagens do Intercept e de uma série de veículos parceiros na Vaza Jato são “falsas acusações sem correspondência na realidade, por pessoas movidas por diferentes interesses que incluem a anulação de investigações e condenações”. Vindo de alguém que vê no jornalismo um aliado estratégico e dócil repetidor de convicções, não surpreende.

De resto, se mostrou mal informado sobre a “investigação sobre o ex-reitor da UFSC, a qual se encerrou com seu falecimento”, como colocou. Não é bem verdade: as investigações prosseguiram e, na tentativa de justificar a operação, a PF viu ligações entre Cancellier e os alegados desvios na UFSC – sem apresentar uma única prova. “Um suicídio é sempre uma tragédia humana a ser lamentada, independentemente das circunstâncias”, acrescentou Dallagnol.

Também enviei perguntas e pedidos de comentário à delegada Erika Marena, que atualmente trabalha na Polícia Federal do Paraná. Não houve resposta. Marena também se recusou a falar com Paulo Markun.


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