Semana On

Quarta-Feira 25.mai.2022

Ano X - Nº 488

Brasil

A educação doente

MEC ignora efeitos da pandemia no setor

Postado em 20 de Janeiro de 2022 - Ana Paula Bimbati e Josias de Souza (UOL), Cida de Oliveira (RBA) – Edição Semana On

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As perdas de aprendizagem ao longo da pandemia são consideradas irrecuperáveis para 43% dos brasileiros. Entre mulheres, o índice é de 47%. Entre pais e mães, 48%. Os dados são de pesquisa do Datafolha, encomendada pelo Instituto Unibanco.

O estudo entrevistou 2.070 pessoas em todo o Brasil, em 129 diferentes municípios, durante os dias 23 de novembro e 2 de dezembro de 2021. A pesquisa dividiu os brasileiros em cinco faixas etárias de 16 a 24 anos, 25 a 34 anos, 35 a 44 anos, 45 a 59 anos e mais de 60 anos.

Entre os homens e pessoas mais jovens, de 16 a 24 anos, a visão é mais positiva: 61% e 71% acreditam que as perdas podem ser recuperadas. Em contrapartida, as perdas são vistas como irrecuperáveis por 39% dos homens e 28% dos mais jovens — 1% dos mais jovens não soube responder.

"Vivência negativa" do ensino remoto

O superintendente do Instituto Unibanco, Ricardo Henriques, afirma que as perdas em educação podem se recuperar com políticas públicas estruturadas.

"Não há porquê, nem teoricamente, nem empiricamente, existir um certo fatalismo pedagógico. Há como enfrentar essa crise e, para isso, precisamos ter uma ideia de recomposição da aprendizagem", explica Henriques.

O superintendente também afirma que a percepção dos brasileiros pode estar relacionada a uma "vivência negativa" do ensino remoto. Especialistas afirmam desde 2020 que o fechamento das escolas e a aula online precária afetariam ainda mais alunos da rede pública, pobres e negros.

Uma pesquisa feita pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) apontou que a dificuldade de acesso à internet e a baixa qualidade de conexão para assistir aula prejudicou mais os alunos pretos e pardos do que os brancos no Brasil.

Para mitigar os efeitos da pandemia, Henriques sugere que os estados e municípios estruturem uma política intersetorial para buscar crianças e adolescentes que possam ter abandonado as atividades escolares. "Uma abordagem que mobilize educação, área social, de direitos, saúde para ter o melhor mapeamento da situação dos alunos", indica.

Reportagem feita pelo UOL mostrou que estados têm lançado programas de auxílio financeiro e merenda reforçada para atrair os alunos para escola.

Além desses projetos, os governos devem se atentar a políticas de alfabetização e aos estudantes do ensino médio. Henriques explica que, para lidar com o jovem, as escolas não podem pensar apenas na abordagem pedagógica, mas também em mobilização e engajamento.

"Precisamos de estratégias coordenadas, estruturadas e que façam sentido para cada realidade. Não é porque a aula voltou hoje, em 2022, que os efeitos da pandemia serão sentidos apenas agora, mas em 2023 e 2024 também", analisa o superintendente do Instituto Unibanco.

Importância da educação

A pesquisa também apresentou perguntas sobre a importância da educação durante a pandemia. Para 47% dos brasileiros, houve redução da importância da edução no período.

Para 39% das pessoas mais jovens (de 16 a 24 anos) e 43% de pessoas das classes sociais A e B a visão é mais positiva: a importância aumentou. Por outro lado, 40% dos brasileiros de 25 a 24 anos e 52% dos mais pobres apresentaram uma opinião negativa.

Para Henriques, a importância pode ter diminuído porque a população percebeu um "desinvestimento" na área. "Essa é uma resposta que pode expressar o momento de vida daquela pessoa, que está vulnerável, mas também do olhar que ela tem sobre a educação na sociedade. Pode ter diminuído para ela, mas ela pode ter percebido uma desimportância no todo", explica.

Em contrapartida, os brasileiros afirmaram que os itens mais importantes em relação ao papel da educação na vida de uma pessoa são: ter mais conhecimento (25%), conseguir um emprego (21%) e ser respeitado na sociedade (16%).

"Quando vemos os valores que eles apresentam fica mais fácil compreender a percepção de importância da educação, que pode ter sido uma percepção em relação ao todo e não uma desvalorização por parte da sociedade", diz Henriques.

Prevenção às drogas e educação sexual

Para 51% dos pais e mães de alunos com mais de 12 anos, a prevenção às drogas deve ser a questão mais importante a ser discutida no ensino médio. Em segundo lugar, no ranking geral, aparece educação sexual com 10% e desigualdades sociais e racismo com 9% cada.

O tema de educação sexual é avaliado por especialistas como essencial para criança e o adolescente aprender sobre seu corpo e, inclusive, entender sobre assédio. O STF (Supremo Tribunal Federal) já votou contra uma lei municipal que vetava, por exemplo, a discussão de gênero nas escolas.

O Escola sem Partido é um movimento que é contra a discussão nas escolas e a chamada "ideologia de gênero". O conceito é pejorativo e usado pelo campo ultraconservador, muitas vezes ligado ao fundamentalismo religioso, contra os avanços nos direitos sexuais e reprodutivos e na igualdade de gênero, em especial a população LGBTQIA+.

MEC ignora efeitos da pandemia na Educação

Há no Ministério da Educação problemas de dois tipos. Os problemas do governo e os problemas da sociedade. Numa ponta, quatro em cada dez brasileiros avaliam que a pandemia impõe prejuízos irrecuperáveis à aprendizagem. Noutra, o MEC se finge de morto. O país convive com o quarto ministro da Educação da Era Bolsonaro. E esses dois mundos —o real e o governamental— ainda não se tocaram.

Imaginou-se que o ministro Milton Ribeiro, egresso do meio universitário, interromperia a mania da atual gestão de maltratar a Educação. Mas o substituto do desastre Abraham Weintraub eliminou a perspectiva otimista numa das primeiras entrevistas que concedeu depois de assumir.

Milton Ribeiro mal havia sentado na poltrona de ministro quando declarou que concordava com a tese segundo a qual a pandemia escancarou as desigualdades educacionais. Mas achava que não tinha nada a ver a questão. "Esse não é um problema do MEC, é um problema do Brasil", ele afirmou. "Vai fazer o quê? Não foi um problema criado por nós."

O ministro também reconheceu declarou que a má distribuição da internet constitui uma dificuldade. Mas avaliava que a encrenca não lhe dizia respeito. "Esses são problemas sociais, que eu não tenho como responder. Vão afetar a escola, mas isso aí já é para um outro departamento, de assistência. Não tenho como resolver isso."

Esse mesmo ministro agora negligencia o flagelo produzido pela pandemia no sistema educacional. Não é que o MEC ignore a solução do problema. A questão é que o ministro evita enxergar o problema. E a primeira condição para solucionar um transtorno é a disposição de conhecer o tamanho da urucubaca. Daí a percepção de que o prejuízo educacional imposto pela pandemia é mesmo insanável.

Novo Ensino Médio: ‘País adota neste ano a mais perversa das reformas’

Na propaganda da TV, os estudantes comemoram a chegada do Novo Ensino Médio. “É real, agora a gente vai poder escolher em que área do conhecimento a gente quer se aprofundar”. “E até escolher fazer uma formação profissional e tecnológica”. É como se estivessem diante de um modelo capaz de corrigir as deficiências do atual, proporcionando ensino de qualidade, ambiente propício aos estudos e reduzindo o abandono escolar, que é maior nessa etapa final da educação básica. Mas não é bem assim.

O novo Ensino Médio, que começa a ser implementado em todas as escolas brasileiras a partir deste ano para os alunos que concluíram o ensino fundamental e até 2024 se estenderá a todas as turmas, é a menos conhecida e a mais perversa das reformas já feitas a partir do golpe de 2016. “A reforma do Ensino Médio foi a menos explorada, menos discutida de todas as reformas aprovadas no país, como a trabalhista, por exemplo. Seu objetivo não é buscar a melhoria e o fortalecimento da universalidade da escola pública, elevar a qualidade do ensino para os alunos mais pobres, que mais precisam de investimentos. Ao contrário, oferecer um ensino anda mais precarizado. Uma perversidade”, disse o pesquisador e professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) Fernando Cássio.

Baixado por meio da Medida Provisória 746, de 2016, que entre outras coisas instituía a política de incentivo à ampliação das escolas de tempo integral, e convertido na Lei Federal 13.415, de 2017, o novo modelo não é dividido por disciplinas como o atual, mas por áreas do conhecimento: Matemática e suas Tecnologias, Linguagens e suas Tecnologias, Ciências da Natureza e suas Tecnologias e Ciências Humanas e Sociais Aplicadas. A lei prevê que os alunos deverão ter no mínimo 1.800 horas/aula desses componentes, os quais deverão ser compostos por disciplinas da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). E mais 1.200 horas/aula, flexíveis, com conteúdos da formação técnica e profissional.

Para os defensores do modelo, como Michel Temer, seu então ministro da Educação, Mendonça Filho, fundações e empresários do setor, o objetivo é acabar com a “escola chata”, dar ao estudante a possibilidade de escolha para que ele opte por uma formação profissionalizante. E mais do que isso, entregar um certificado do ensino médio regular e técnico profissionalizante ao final do curso.

Ensino Médio esvaziado

No entanto, o aluno terá sua formação básica ainda mais esvaziada. Para se ter uma ideia, história do Brasil não aparece no currículo repleto de menções ao marketing e empreendedorismo. E a profissional ficará muito aquém daquela mantida por redes públicas estaduais, como o Centro Paula Souza, e federais, em cujas escolas há laboratórios, professores capacitados e equipamentos para cursos de ponta.

No estado de São Paulo, que tem um modelo semelhante ao adotado no restante do país, a Secretaria Estadual de Educação apresentou aos alunos 11 itinerários formativos como percursos de aprofundamento da formação geral fundamentada na Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

“Além dos dez percursos de aprofundamento, o estudante pode optar por um décimo-primeiro itinerário, de formação técnico-profissional”, disse Cássio, que é integrante da Rede Escola Pública e Universidade (Repu) e do comitê diretivo da Campanha Nacional pelo Direito à Educação.

Esse itinerário técnico-profissional, segundo ele, pode ser de dois tipos. O primeiro compreende um menu com 21 cursos técnicos que substituem 900 horas dos itinerários de aprofundamento. “É o chamado Novotec Integrado, que promete aos estudantes um diploma do Ensino Médio e outro de técnico. A formulação é sutil. Não se trata de uma formação técnico-profissional em sentido estrito, mas de uma introdução de 900 horas que deverá ser complementada depois, se o estudante desejar obter. A diferença de carga horária entre o Novotec Integrado e um curso técnico regular é significativa. Para obter um diploma de técnico em Química no Centro Paula Souza, é necessário cursar 2.000 horas-aula, mais 120 horas de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Seria necessário passar mais um ano na escola”, comparou.

Outra modalidade é o Novotec Expresso, ainda mais precarizado segundo o pesquisador. Isso porque substitui unidades curriculares, como Ciências da Natureza, por cursos de curta duração na área de mídias digitais, como edição de vídeos, que se aprende em pequenas escolas privadas de computação no bairro. “Para a Secretaria de Estado da Educação paulista, é um aprofundamento curricular com dois cursos profissionalizantes focados no mundo do trabalho. “

“Um exemplo: Quem escolher o itinerário de aprofundamento curricular em Ciências da Natureza junto com o Novotec Expresso poderá substituir a unidade curricular 2 do itinerário – que trata de origem da vida, evolução, gravitação e grandezas do Universo, a Química da vida na Terra, etc. etc. pelo curso ‘Seu desenho do 2D ao 3D (AutoCAD). Já a unidade curricular 3, que trata de tecnologias de acessibilidade e inclusão, poderá ser substituída pelo curso ‘Excel aplicado à Área Administrativa’. Menos Ciência básica, mais profissionalização de baixa complexidade”, criticou, lembrando que a oferta desses cursos será limitada à infraestrutura da escola e perfil dos professores.

Privatização no Ensino Médio

Ainda no caso de São Paulo, o novo Ensino Médio não agrega recursos necessários e ainda faz com que o governo paulista privatize parte da oferta educacional por meio do Novotec Expresso. As escassas verbas das escolas estaduais serão alvo de disputas com pequenas escolas privadas que vivem de ensinar AutoCAD, Excel e design de jogos – Uma realidade muito comum em todo o país. “O governo estadual não tem a pretensão de equipar a rede de ensino ou contratar profissionais para essa oferta”, ressaltou.

O argumento da flexibilização curricular e da liberdade de escolher um percurso formativo mais próximo de suas aspirações ou aptidões é, portanto, falacioso, segundo Cássio. Ao escolher um itinerário de aprofundamento curricular, todos os outros itinerários são deixados para trás. “Se a opção incluir os penduricalhos do Novotec, a formação do Ensino Médio paulista ficará ainda mais reduzida. A própria escolha da palavra aprofundamento serve para nos distrair daquilo que o novo Ensino Médio realmente produz: estreitamento curricular. O referido aprofundamento – que na verdade implica na redução do tempo da formação geral – ocupa 28,6% da carga horária total do Ensino Médio paulista”.

Esse enxugamento, que deixará ainda mais empobrecida a educação oferecida aos filhos dos mais pobres, terá efeitos sobre a dinâmica do mercado de trabalho conforme o professor da UFABC. O Novo Ensino Médio poderá até suprir a demanda por designers de jogos ou operadores de planilhas eletrônicas. Mas se esses trabalhadores oriundos do Novo Ensino Médio terão o repertório necessário para compreender a lógica das planilhas ou criar o conteúdo artístico dos jogos e aplicativos, o problema não competirá mais à escola pública. “Dirão os mais cínicos que foram os próprios estudantes, no pleno exercício do seu protagonismo, que escolheram trocar a sua formação escolar geral por cursinhos profissionalizantes precários.”


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