Semana On

Quarta-Feira 25.mai.2022

Ano X - Nº 488

Poder

Exército que Bolsonaro chamou de ‘seu’ começa a se afastar dele

Militares avaliam retorno a uma posição política mais discreta

Postado em 16 de Janeiro de 2022 - Rudolfo Lago (Congresso em Foco), Eduardo Maretti (RBA) - Edição Semana On

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Durante o governo Michel Temer, quando comandava o Exército o general Eduardo Villas Boas, pesquisas encomendadas pela força apontavam para índices altos de confiabilidade da sociedade com relação à instituição. Foi a partir dessas informações que Villas Boas começou a ensaiar uma política de maior aproximação dos temas políticos. Antes mesmo de o presidente Jair Bolsonaro começar a despontar como favorito na corrida eleitoral, os então candidatos à Presidência começaram um expediente até então inédito desde o fim da ditadura militar e após a redemocratização: incluíram nas suas agendas reuniões com o comandante do Exército.

Nessas reuniões, Villas Boas entregava a eles um caderno com as reivindicações do Exército para o novo governo. Era o início de um processo de protagonismo político que levaria ao engajamento militar à candidatura de Jair Bolsonaro, com a criação do que ficou conhecido como “grupo de Brasília”, uma turma de oficiais da reserva, aposentados com alta patente, que se reunia em uma sala no subsolo do Hotel Imperial em Brasília.

O grupo congregava cerca de 20 oficiais da reserva. Entre eles, alguns generais que formariam o núcleo duro militar do hoje presidente, como o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, e o hoje vice-presidente Hamilton Mourão (este agora nem mais tão próximo assim de Bolsonaro). E se reunia mesmo antes de se definir pela candidatura de Bolsonaro, mas imaginando como poderiam interferir de forma mais direta no debate político. Inicialmente, desconfiavam mesmo da opção Bolsonaro, visto como um militar imprevisível e indisciplinado. Como, porém, ele ia ganhando potencial na corrida eleitoral, chegaram à conclusão que a melhor opção era aderir a ele.

“Passados três anos de atropelos, indecisões, tomadas de atitudes e falas contrárias aos discursos, a onda chegou à praia sem força e com ela os restos de dejetos atirados ao mar durante o período”, avalia ao Congresso em Foco um desses generais. A adesão a Bolsonaro, considera ele, acabou tendo um efeito oposto ao pretendido quando as pesquisas apontavam para a impressão de confiabilidade das Forças Armadas pela sociedade. Fatos como, por exemplo, a desastrosa passagem do general Eduardo Pazuello pelo Ministério da Saúde, comprometeram a imagem dos militares.

Como Sísifo

Por isso, hoje boa parte deles avalia o retorno a uma posição mais discreta e mais distanciada da política. Como acontecia até então. “Nas nossas pesquisas sempre aparecíamos no topo da confiabilidade e jogávamos parados, fazendo o estritamente determinado nos ditames legais. Agora, com um suposto representante tão incapaz, vamos ter que empurrar a pedra de novo morro acima como Sísifo. Espero que a mantenhamos no topo, mas levará tempo para a escalada”, diz o general, mencionando o personagem da mitologia grega Sísifo, tema de um ensaio do escritor e filósofo francês Albert Camus – segundo Camus, a humanidade repetiria o mito de Sísifo, eternamente condenada a empurrar uma pedra até o topo da montanha, da qual ela rolava, obrigando-o a eternamente empurrá-la de volta.

Segundo o general, diante da impressão dada hoje pelas pesquisas de que não haverá espaço em outubro para outra opção que não seja a manutenção de Bolsonaro ou o retorno do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, boa parte desses militares já se inclina por aceitar a volta de Lula, como o “menos pior”.

“Muitos com quem eu falo ainda acham que entre os dois ficam com o menos pior”, afirma. Outros, como a própria fonte do Congresso em Foco, resistem. “Se esquecem do aforismo de Hanna Arendt: ‘Um mal menor ainda continua sendo um mal’”, completa, referindo-se à filósofa alemã, autora de “A Banalidade do Mal”.

No final, avalia ele, o grupo de apoiadores de Bolsonaro, seja qual o caminho que irá seguir, desidrata.

A alternativa, portanto, é voltar para a posição mais institucional, de garantidores da ordem e da segurança, subordinados a quem quer que venha a ser o presidente. Esse o caminho, imaginam, para a retomada da posição que tinham.

Segundo esse general, a motivação principal para a adesão a Bolsonaro não era a busca de maior protagonismo político, mas uma reação “aos descalabros da esquerda, sempre iluminados pela imprensa diariamente”. Ele completa: “Somos uma classe muito ligada a valores e o discurso do candidato nos empolgou”.

“Alguns dos que avaliaram ser possível um governo decente que apontasse soluções ao país, e se convenceram de que com Bolsonaro isso é impossível, estão se afastando para compreender a conjuntura e se posicionar como cidadãos para as escolhas vindouras”, conclui.

Parte dos militares quer se afastar de Bolsonaro

Na opinião do historiador Manuel Domingos Neto, doutor em História pela Universidade de Paris e ex-presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (Abed), parte dos militares tenta “limpar a farda”.

“Configurada a tragédia do governo Bolsonaro e diante das reduzidas chances de reeleição, eles buscam se desvencilhar do presidente, limpar a farda, que está manchada, e encontrar alternativa. Mas não está fácil, inclusive devido às tensões internas na ‘família’ militar. E porque Sergio Moro, que seria preferencial, não decola”, diz.

Sabe-se que parte dos militares tem plena consciência de que Bolsonaro é fruto de um consórcio no qual eles próprios tiveram participação destacada. “Agora, diante do fiasco, do fracasso, da derrota provável, eles tentam se safar. Mas tem também as tensões internas: dentro da ‘família’ militar, tem gente que vai ‘morrer’ com Bolsonaro”, pondera Domingos, sobre a divisão dos fardados.

O fator Lula

Diante da conjuntura, o cenário que se avizinha é de uma eleição com Lula francamente favorito, sem terceira via e com Bolsonaro virtualmente derrotado. Pergunta-se: os militares, enquanto poder que ascendeu com o atual presidente, vão aceitar passivamente a volta de Lula ao poder? Para o professor, não.

A caserna não vai “engolir” Lula facilmente, acredita. “Eles vão armar um barraco” Esse “barraco”, evidentemente, poderia ser uma tentativa de golpe articulado pelos fiéis escudeiros que parecem dispostos a “morrer” com o chefe no Planalto. Entre eles, os mais visíveis são os ministros Luiz Eduardo Ramos (Secretaria-Geral da Presidência), Walter Braga Netto (Defesa) e Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional).

Qual seria uma solução imaginada por militares como os ministros mencionados diante do cenário? Um golpe de fato? “Difícil prever o que pode se passar ou o que poderiam tentar. Eles não vão querer largar a rapadura e vão tentar fórmulas. Mas não duvido que os que estão no mando tramarão para continuar no mando”, responde o professor Domingos Netto. “Podem tentar qualquer coisa, inclusive as mais doidas”, acrescenta. Já o comandante do Exército, Paulo Sérgio, aparentemente não está entre os eventuais golpistas. “Esse fala em nome do Alto Comando, que não se considera governo”, diz o analista.

Sem garantia institucional

No caso da tentativa de “armar barraco”, seja por parte dos militares ou das elites – ou de ambos –, o professor não acredita que o país esteja institucionalmente forte para evitar soluções heterodoxas, mesmo que não sejam ao estilo do golpe militar clássico. Ele lembra que o próprio Lula estava preso quando Bolsonaro foi eleito em 2018.

Para o pesquisador, o que se pode contar como fatores positivos é “a força de uma tendência de rejeição a essa tragédia nacional (provocada por Bolsonaro) e também uma tendência mundial de solidariedade à mudança no Brasil. Temos de positivo que a opinião pública internacional reconhece Lula como grande líder e rejeita Bolsonaro, uma personalidade mundialmente isolada”.

Já quanto às instituições, o país “não está suficientemente forte de jeito nenhum”, diz Domingos. “Temos um Judiciário que já mostrou toda a sua fragilidade. Uma Polícia Federal cooptada. Um Ministério Público cúmplice. Por fim, uma imprensa vendida. Para mim não tem estabilidade e garantia institucional”, adverte.

Ele avalia ainda que o episódio que envolveu Bolsonaro e Barra Torres indica que a própria esquerda precisa se fortalecer e repensar atitudes. “Parte considerável da esquerda, da noite para o dia, transformou Barra Torres em herói”, critica. Para o pesquisador, a busca, por parte da esquerda, de composição como os militares “é uma tendência histórica”.


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