Semana On

Domingo 23.jan.2022

Ano X - Nº 475

Brasil

Bolsonaro e Guedes estão inertes diante de uma inflação de 10,06%

Presidente atribui inflação a medidas de isolamento; economistas discordam

Postado em 12 de Janeiro de 2022 - Leonardo Sakamoto (UOL), UOL - Edição Semana On

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O Brasil fechou 2021 com uma inflação de dois dígitos (10,06%), segundo o IBGE. Instado a explicar o que aconteceu, o Banco Central citou a pandemia e a crise hídrica como razões. Com isso, acabou por corresponsabilizar o próprio governo federal pelo calvário dos mais pobres, principais afetados por viverem no limite.

Parte da alta do dólar pode ser creditada a Jair Bolsonaro (PL), que, de um lado, trouxe instabilidade à política (com o auge na Micareta Golpista de 7 de Setembro), criando um ambiente com menos segurança para investidores, e, de outro, seguiu errante na gestão da economia, atendendo aos interesses de aliados no Congresso, preocupando-se em evitar o impeachment e pavimentar a reeleição. Dólar mais alto impacta no preço do gás de cozinha e dos combustíveis e, por conseguinte, na inflação dos alimentos.

Aliás, Bolsonaro sabotou o combate à covid-19, atacando o isolamento social, o uso de máscaras e a compra de vacinas, além de promover remédios inúteis, com o objetivo de empurrar pessoas de volta às ruas para que a economia não atrapalhasse a reeleição. Ironicamente, isso tornou as quarentenas mais ineficazes, estendendo a pandemia e piorando a crise.

Quando a fome apertou (atingindo 19,1 milhões de pessoas, no final de 2020, calculados pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional), Bolsonaro cancelou o auxílio emergencial em 31 de dezembro e só retomou em abril, com valores mixurucas de R$ 150, R$ 250 e R$ 375 - muito menos que os R$ 600 ou R$ 1200 aprovados pelo Congresso no primeiro semestre de 2020.

Paralelamente, a incompetência do governo na gestão hídrica agravou a crise de energia, explodindo o preço da conta de luz. Pois ao contrário do que afirmam assessores do presidente, a falta de água nas usinas hidrelétricas não decorre de uma grave seca pontual trazida pelo La Niña, mas é resultado da má gestão da administração pública, que ignorou o impacto das mudanças climáticas na produção de energia.

O Brasil não poupou os reservatórios das hidrelétricas para um momento crítico, tal como um motorista que enche o tanque apenas pela metade e encontra um trecho longo de estrada sem postos. E, na reserva, torce para conseguir chegar ao fim da estrada sem uma pane seca. O resultado é que a seca veio e agora vivemos sob o risco de apagões e com o preço da energia consumindo o orçamento de muitas famílias e de negócios.

O Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) divulgou, no último dia 7, que o valor da cesta básica aumentou, em 2021, em todas as 17 capitais analisadas mensalmente pelo instituto. As altas mais expressivas foram em Curitiba (16,30%), Natal (15,42%), Recife (13,42%), Florianópolis (12,02%) e Campo Grande (11,26%).

Diante disso, os R$ 400 que Bolsonaro está pagando como Auxílio Brasil a famílias pobres podem não fazer cócegas em seus índices de aprovação e em suas intenções de voto. Em dezembro de 2021, o maior custo da cesta básica foi o de São Paulo (R$ 690,51), depois o de Florianópolis (R$ 689,56) e, em seguida, o de Porto Alegre (R$ 682,90).

Os números negativos da inflação, que atinge principalmente aqueles que assistem ao mês ficar cada vez maior que sua renda, levaram bolsonaristas a tentarem convencer que Jair não tem culpa porque ele foi contra o isolamento social. Acham que, dessa forma, podem "provar" que ele queria impedir inflação, fome e desemprego.

Na verdade, isso apenas demonstra que ele dá pouco valor à vida. Até porque, como já dito, muitas das ações e inações do presidente diante da pandemia ajudaram a piorar a situação.

Esse mimimi ignora que os brasileiros não estavam indo às compras, às aulas, ao trabalho, ao lazer simplesmente porque governadores e prefeitos "maus" impediram, mas porque a população estava ficando doente. Essa situação volta a se repetir agora, com empresas tendo que fechar as portas ou reduzir atividades porque seus funcionários estão se contaminando com a variante ômicron - veja o exemplo dos voos cancelados pelas companhias aéreas.

A cada notícia ruim de seu governo, seus apoiadores vêm a público para defendê-lo e responsabilizar terceiros. Para eles, a culpa da inflação é de Estados e municípios, imprensa e artistas, bilionários comunistas, cavaleiros templários, chineses e seus chips 5G, Leonardo DiCaprio e Greta Thunberg. Todo mundo, menos quem foi eleito para governar e garantir que a inflação fosse a menor possível.

Parabéns, presidente, o senhor é mais que dez. É 10,06%.

Culpa não é das medidas de isolamento social

O presidente Jair Bolsonaro tem culpado as medidas restritivas adotadas por governadores e prefeitos contra a pandemia pelo aumento dos preços e do aumento da inflação.

No entanto, o isolamento não é a causa da alta nos preços e ajudaria a acelerar a recuperação da economia se tivesse sido bem feito, segundo economistas.

O resultado da inflação ficou bem acima do centro da meta estabelecida pelo BC (Banco Central) para o ano passado, que era de 3,75%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos — ou seja, podendo variar entre 2,25% e 5,25%.

Em entrevista ao site Gazeta Brasil transmitida ao vivo nas redes sociais, Bolsonaro foi questionado sobre os impactos do índice em sua campanha à reeleição e ressaltou que em 2015, durante o governo da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Ampla) também ficou acima de 10%.

"Olha só, se não me engano em 2014 ou 2015 a inflação foi de 10% também. Me aponte qual crise aconteceu nesses dois anos? Não teve crise nenhuma. Nós tivemos aqui a questão do covid. Com a política do fique em casa a cadeia produtiva sofreu solavancos e a inflação é uma questão natural", respondeu o mandatário.

O presidente negou ainda ter responsabilidade sobre o preço dos combustíveis e disse que, se pudesse, ficaria livre da Petrobras. "Alguém acha que eu sou o malvadão, que foi aumentado o preço da gasolina e do diesel ontem porque sou o malvadão? Primeiro que não tenho controle sobre isso. Se pudesse, ficaria livre da Petrobras", disse ele.

No último dia 11, o chefe do Executivo federal já havia apontado o isolamento — chamado por ele de "política do fique em casa" — como um dos motivos para a alta inflação.

"Temos problemas. Inflação. Está o mundo todo com esse problema. Você lembra do 'fique em casa, a economia a gente vê depois?' Estamos vendo a economia. O cara ficou em casa, apoiou, e agora quer me culpar da inflação", afirmou o presidente em conversa com apoiadores transmitida por um canal bolsonarista.

O lockdown não tem culpa nenhuma. Era o melhor do mau negócio. Se não fosse isso, a situação seria muito pior. O isolamento social feito de forma adequada evita que a economia fique paralisada por muitos meses”, diz André Braz, coordenador do IPC (Índice de Preços do Consumidor) do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas).

Causas da inflação

Os preços subiram mais no Brasil em especial por causa da desvalorização do real e da queda de investimento estrangeiro. Estes fatores têm relação com o ambiente político do país — o que inclui incertezas geradas pelo governo, como mostrou reportagem do UOL. Também entram na conta problemas como a alta nos combustíveis; a crise hídrica e o aumento na conta de luz; e questões climáticas que afetaram a agricultura.

"A inflação no Brasil acontece pela vulnerabilidade insistentemente buscada pelos nossos dirigentes políticos e econômicos, pela nossa ampla dependência de produtos importados, de todos os tipos", disse a historiadora e economista Ana Paula Salviatti ao UOL em outubro.

Uma pesquisa da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) em parceria com a Universidade do Texas (EUA) aponta que municípios de São Paulo que adotaram isolamento social mais severo salvaram vidas e não tiveram desempenho econômico pior do que os que não adotaram.

Já um artigo publicado em abril por pesquisadores europeus na revista científica The Lancet indicou que a eliminação do coronavírus, e não sua mitigação, trouxe melhores resultados para a saúde e a economia em países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

Para Braz, relacionar a crise ao isolamento não faz sentido. "A economia vai mal exatamente por um discurso do governo. Houve muito ruído em comunicação. Isso não foi bom para o país e fez com que a vacinação atrasasse. Esse atraso está na conta do país: aumento da inflação e crescimento da dívida pública", afirma o professor do FGV Ibre.

Transporte caro

O resultado da inflação de 2021 foi influenciado principalmente pelo grupo de transportes, que apresentou a maior variação (21,03%) e o maior impacto (4,19 pontos percentuais) no IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), a inflação oficial do país.

O Brasil não teve uma política de isolamento social coordenada pelo governo federal. Ao longo da pandemia, o presidente atacou as medidas de isolamento — comprovadamente eficazes para a contenção da circulação do coronavírus — e repetiu a mentira de que o STF (Supremo Tribunal Federal) o impediu de agir no combate à covid.

Coube aos estados e municípios estabelecerem regras próprias, e poucos locais no Brasil aderiram ao lockdown (isolamento total). A maioria dos estados optou pelo isolamento parcial, fechando comércio e serviços em horários ou dias específicos para diminuir a circulação de pessoas. Bares e restaurantes foram fechados, lugares públicos tiveram entrada controlada e aulas foram suspensas, mas raramente houve restrição à circulação nas ruas.

BC culpa pandemia e crise hídrica

O Banco Central atribuiu à pandemia — e, mais especificamente, seus efeitos sobre os preços das matérias-primas (commodities) — e à crise hídrica a culpa pela inflação de 10,06%.

As justificativas foram enviadas ontem ao ministro da Economia, Paulo Guedes, e ao CMN (Conselho Monetário Nacional). Toda vez que a inflação fica acima da meta definida para um ano, o presidente do BC — desta vez, Roberto Campos Neto — é obrigado a prestar esclarecimentos.

"Os principais fatores que levaram a inflação em 2021 a ultrapassar o limite superior de tolerância foram os seguintes: 1) forte elevação dos preços de bens transacionáveis em moeda local, em especial os preços de commodities; 2) bandeira de energia elétrica de escassez hídrica; e 3) desequilíbrios entre demanda e oferta de insumos, e gargalos nas cadeias produtivas globais", explicou o BC, em carta.


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