Semana On

Quarta-Feira 18.mai.2022

Ano X - Nº 487

Coluna

O rato volta a guinchar

O jornalista Victor Barone resume a semana política

Postado em 10 de Janeiro de 2022 - anarquismo brasil, política eleição campo grande ms

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Como se previu, tinha prazo de validade a carta em que o presidente Jair Bolsonaro deu uma trégua ao país e às instituições. Redigido em acordo com o ex-presidente Michel Temer, o manifesto de paz prescreveu com a queda nas pesquisas e a companhia de Lula e Sergio Moro na campanha.

Durou três meses e serviu ao propósito da ocasião: blindar Bolsonaro de consequências maiores e iminentes pelas manifestações de 7 de setembro, em que voltou a pregar contra as instituições e expôs-se a crime de responsabilidade por dizer que não cumpriria ordem judicial.

Bolsonaro formalizou a passagem do governo ao Centrão com a publicação do decreto em que destitui o ministro da Economia, Paulo Guedes, do orçamento. Agora, por lei, só vale o que Guedes assina se o texto for subscrito pelo chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, que assim vira uma espécie de primeiro-ministro.

O presidente fica livre para fazer o discurso que serve à agregação de sua base mais fiel, a chamada raiz, ameaçada pela erosão depois da chegada de Moro. Precisa mantê-la sólida para garantir a ida ao segundo turno. O governo não precisa necessariamente fazer o que ele prega, basta tocar o barco.

E já voltou a atacar o Supremo Tribunal Federal, acusando os juízes Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso de estarem a serviço da candidatura de Lula, insinuou corrupção na Anvisa por ter liberado vacina para a população infantil e tentou novo enquadramento dos comandos das Forças Armadas.

Nesse contexto, fez nova incitação à violência, disfarçada de crítica a um eventual lockdown, que em nenhum momento foi cogitado. Disse que o governo não terá condições de conter uma escalada de violência se os governadores decidirem por uma nova restrição das atividades em face da volta crescimento dos índices da Covid. É uma ameaça vestida de alerta.

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, já mudou a orientação sobre a vacinação. Embora Bolsonaro mantenha o discurso de oposição à prevenção, Queiroga reapareceu na quinta-feira (13/1), com o selo do SUS no peito, apelando para que os vacinados apenas uma vez tomem a segunda dose.

Além disso, Queiroga incluiu as crianças, dizendo que a campanha deve alcançar todos os brasileiros. É muito provável que tenha sido orientado pela conveniência eleitoral, pois o governo, afinal, constatou que a população quer a vacina – e condená-la, ou negá-la, tira votos.

A aparente contradição entre as falas de Queiroga e Bolsonaro é método: a dubiedade teoricamente chega a todos os públicos. E passa ao largo das outras tragédias do calendário nacional provocadas pelas chuvas que matam e desabrigam milhares de pessoas, em todas as regiões do país. Sobre elas, nenhuma palavra presidencial.

Para uma população que somou mais de 620 mil mortos enquanto o governo promovia uma guerra à vacinação, o método da prática diferente do discurso poderia até ser um alento, não fossem os efeitos extrassanitários, como a divisão do país, dentro das famílias e nas ruas, com episódios de violência nas esquinas, sob a liderança do presidente que prega a desobediência civil.

Por Ricardo Noblat

MITOMANO

Há pouco mais de um ano, o Supremo Tribunal Federal informou, por meio de uma nota oficial, que União, estados, Distrito Federal e municípios têm competência concorrente, na área da Saúde, para realizar ações de mitigação dos impactos da Covid-19.

Quer dizer: é responsabilidade de todos os entes da Federação “adotarem medidas em benefício da população brasileira no que se refere à pandemia”. Desde então, o que diz o presidente Jair Bolsonaro e o que voltou a dizer?

Lamentou que a condução das ações contra a pandemia tenha sido tirada de suas mãos. “Eu gostaria muito de estar conduzindo os destinos da questão da pandemia no Brasil”, teve o cinismo de dizer. Cinismo, não. Deliberadamente mentiu, como de costume.

Na mesma ocasião, pôs outra vez em dúvida a eficácia da vacinação, o passaporte da vacina e as medidas de isolamento de autoria de governadores e prefeitos. Reclamou da imprensa por não reconhecer seus méritos no combate à pandemia.

Mas que méritos ele tem? Bolsonaro deu passe livre para que o vírus circulasse matando os que tivessem de morrer. Foi contra a compra de vacinas, e só cedeu depois da chegada da primeira por aqui, iniciativa do governo de São Paulo.

Quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária recomendou a vacinação infantil, ele se opôs. Pediu o nome dos técnicos da agência para expô-los aos ataques dos seus devotos ensandecidos. Disse ser irrisório o número de crianças vítimas da Covid.

A mentira é sua arma favorita, talvez a única, para manter-se politicamente vivo. Portanto, não abrirá mão dela até seu último dia de desgoverno. Não basta, porém, que minta. É preciso mentir hoje e amanhã novamente. Mentir de corpo e alma, impunemente.

De tanto mentir tão bravamente, ele constrói um país de mentira, no qual acredita completamente, e quer que acreditemos.

Por Ricardo Noblat

O ALMIRANTE E O ASNO

O colunista Marco Antonio Villa fala sobre a carta do diretor-presidente da Anvisa, o almirante Antonio Barra Torres, que pediu retratação do presidente Jair Bolsonaro (PL) pelas declarações sobre a agência reguladora. Para Villa, o presidente deveria "vir a público e pedir desculpas"

GUEDES

Marco Antonio Villa fala também da relevância da economia na decisão das eleições presidenciais e defende que "não há boa notícia no campo econômico": "Paulo Guedes é um sujeito incapaz"

O GENRO DO SILVIO

O ministro Fábio Faria, das Comunicações, diz que não sabia que o blogueiro Allan dos Santos, foragido da Justiça brasileira, participaria do evento promovido por uma igreja evangélica em Orlando, na Flórida, para a qual ele também fora convidado. “Se eu soubesse que ele iria, não teria comparecido”, afirmou.

Faria mente. Não só soube com antecedência como consultou o presidente Jair Bolsonaro a respeito. E ouviu dele o seguinte conselho: é justamente em horas de aperto que não se deve abandonar os amigos. Bolsonaro costuma abandonar, mas, no caso de Allan, tem feito tudo o que pode para protegê-lo.

A pedido da Polícia Federal, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, determinou a prisão de Allan no início de outubro último. Ele é investigado pelo tribunal em dois inquéritos ‒ um sobre a distribuição de fake news, e outro sobre participação em milícias digitais que ameaçam a democracia.

Segundo Alexandre, existe “uma verdadeira organização criminosa, de forte atuação digital e com núcleos de produção, publicação, financiamento e político absolutamente semelhantes àqueles identificados no Inquérito nº 4.781, com a nítida finalidade de atentar contra a democracia e o Estado de Direito”.

Allan fugiu para os Estados Unidos com a ajuda do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), o filho Zero Três do presidente da República. Sua extradição depende, porém, do Ministério da Justiça. Ali, o processo avança com a velocidade de um cágado. Cabeças de servidores rolaram porque cobraram maior rapidez.

Faria e Allan estiveram juntos em Orlando pelo menos duas vezes. Na primeira, discursaram para uma plateia de brasileiros evangélicos que moram na cidade e de pastores que voaram daqui para lá. Na segunda, almoçaram. Faria viajou acompanhado da mulher, Patrícia Abravanel, filha de Silvio Santos, dono do SBT.

A primeira vez que Faria se elegeu deputado federal foi em 2006, quando Lula se reelegeu presidente com seu apoio. Foi vice-líder do bloco integrado, entre outros, pelo Partido Socialista Brasileiro, Partido Democrático Trabalhista e Partido Comunista do Brasil. Está no seu quarto mandato consecutivo como deputado. Em 2018, tornou-se evangélico, apoiou Bolsonaro para presidente e se reelegeu. Antes de casar com Patrícia, namorou a atriz Priscila Fantin, a apresentadora Adriane Galisteu e a modelo Sabrina Sato.

A explicação que Allan fica devendo: quais são os estupradores, assassinos e ligados ao narcotráfico que devem ser retirados do poder “ou não haverá Brasil”?

BOCA DE LIXO

O Twitter removeu as publicações mais recentes do pastor bolsonarista Silas Malafaia, incluindo uma que chamava a vacinação contra a Covid-19 em crianças de “infanticídio”. Mais de 10 publicações de Malafaia aparecem como indisponíveis em seu perfil oficial. A hashtag #DerrubaMalafaia foi para a lista de assuntos mais comentados do Twitter no Brasil com usuários cobrando a retirada do vídeo. Agora, internautas pedem que a rede social remova o perfil inteiro do pastor por espalhar notícias falsas. “O @TwitterBrasil finalmente tomou uma atitude e excluiu o tweet absurdo do pastor Silas Malafaia por violação das regras, mas sabemos que pode ser mais. Ele já violou em várias oportunidades. Queremos #DerrubaMalafaia“, escreveu o perfil “Desmentindo Bolsonaro”.

FASCISTAS

O jornalista Leandro Demori, editor-executivo do The Intercept Brasil, foi ameaçado e perseguido por um homem na cidade de Balneário Camboriú (SC) no último dia 9. Demori passava férias com a esposa e o filho de 3 anos no litoral catarinense. Segundo informações de Dagmara Spautz, do NSC Total, o coordenador da série jornalística Vaza Jato estava em uma mercearia com a família e, na saída, foi abordado por um homem, que os seguiu, tocou o jornalista no ombro e disse: “Se liga que a vida do teu filho depende de ti”.

O editor do Intercept registrou um boletim de ocorrência online e o caso está sob investigação. Através das redes sociais, Demori anunciou que a Polícia Militar já identificou o autor das ameaças. “Estou em férias. O meliante, um clássico ‘cidadão de bem’, achou por bem perseguir e intimidar um pai e uma mãe que passeavam distraídos com uma criança de 3 anos em um carrinho de bebê. Estamos bem, depois do susto”, escreveu o jornalista.

ARGUMENTOS DE PESO

Em conversa com apoiadores na porta do Palácio da Alvorada em Brasília, o presidente Jair Bolsonaro (PL) voltou a atacar o governador do Maranhão, Flávio Dino (PSB). Conforme já fez em outras ocasiões, o chefe do Executivo chamou o mandatário maranhense de “gordo”, sem citar seu nome diretamente.  Ao se dirigir a uma apoiadora, Bolsonaro disse aos risos: “a senhora é do estado do Partido Comunista do Brasil. Você já reparou que os países comunistas, geralmente o chefe é gordo? Coréia do Norte? Venezuela? São gordinhos, né? Maranhão?”. Diferentemente do que disse Bolsonaro, o Maranhão não é governado pelo PCdoB, visto que Dino, no ano passado, trocou de legenda e se filiou ao Partido Socialista Brasileiro (PSB).

Através das redes sociais, Flávio Dino reagiu ao novo ataque infantil do presidente da República. “‘Piada’, além de sem graça, repetida. Compatível com a notória escassez de neurônios do indivíduo”, escreveu. “Ao bisonho e fracassado ‘piadista’, faço uma conclamação: VAI TRABALHAR. Os problemas federais são cada dia mais graves: inflação, desemprego, aumento dos combustíveis etc”, prosseguiu o governador.

FRASES DA SEMANA

“Pretendo não ficar a vida toda por aqui, fiquem tranquilos. Pessoal da esquerda fica tranquilo. Mas não tão tranquilo porque quando eu sair vai entrar alguém do nosso perfil, com toda certeza”. (Bolsonaro)

 “Esperar que as pessoas – quaisquer pessoas – até pessoas mesmo do governo, ou de altos círculos do governo, tenham o real conhecimento do que uma agência reguladora efetivamente faz, talvez seja querer um pouco demais”. (Antônio Barra Torres, almirante e presidente da Anvisa)

“A nova ditadura não é de uma hora pra outra. Vem aos poucos. Vai tirando da sua liberdade aqui e acolá. E quando você se move até a cintura na areia, não tem como sair mais. O Brasil ainda corre esse risco. Não está descartado.” (Jair Bolsonaro, que de ditadura entende)

“O teto de gastos está na contramão das gestões financeiras orçamentárias do mundo inteiro. Os americanos não têm isso, estão fazendo um potente plano de investimentos para tirar o país da crise. A Europa está fazendo a mesma coisa.” (Gleisi Hoffmann, presidente do PT)

“No atual debate político colombiano, não existe nenhum [Bolsonaro]. É um fenômeno brasileiro, com suas próprias particularidades.” (Óscar Iván Zuluaga, empresário, ex-senador, candidato da direita a presidente da Colômbia nas eleições de maio que vem)

“Exerça a grandeza que o seu cargo demanda e, pelo Deus que o senhor tanto cita, se retrate”. (Almirante Barra Torres, presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, em resposta a Bolsonaro que sugeriu, sem apresentar provas, que ali existe corrupção)

“Ele é irmão do presidente, circulou (nas outras pastas) e, talvez até pelo jeito dele, suave, todo mundo tem vontade de ajudar o cara. Dá vontade de ajudar”. (João Roma, ministro da Cidadania,  que liberou 35 milhões de reais para prefeitura a pedido de Renato Bolsonaro)


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