Semana On

Domingo 23.jan.2022

Ano X - Nº 475

Saúde

Mundo registra recorde de 15 milhões de casos de covid-19 em uma semana

OMS: mundo precisará de novas vacinas para evitar transmissão e lockdowns

Postado em 10 de Janeiro de 2022 - Jamil Chade (UOL), Brasil de Fato - Edição Semana On

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O mundo registrou um novo recorde de contaminações de covid-19, com 15 milhões de novos casos em apenas sete dias. Dados divulgados no último dia 11 pela OMS (Organização Mundial da Saúde) revelam que metade dos novos números vem da Europa, com 40% dos casos registrados nas Américas.

Se o atual ritmo continuar, metade da população europeia vai ser contaminada em dois meses. A entidade também alerta que o número deve aumentar ainda, com novas regiões sendo afetadas nas próximas semanas.

Mas a OMS também insiste que não está ainda no momento de modificar a classificação da crise sanitária, passando de uma pandemia para uma situação de vírus endêmico.

Maria van Kerkhove, diretora técnica da OMS, aponta que o aumento entre a primeira semana de 2020 e a segunda revela a dimensão da expansão. No período de sete dias que terminou no dia 2 de janeiro foram 9,5 milhões de casos. No período que terminou no dia 10, o volume já chegou a 15 milhões.

Segundo a especialista, a taxa de contaminação é tão elevada que exigiu que a agência modificasse sua tabela de casos para se ajustar aos novos números. "Nossa escala não servia mais", disse.

A OMS ainda aponta que o número real é ainda maior, já que milhares de testes não são repassados aos governos ou são realizados em casa, sem jamais entrar na contabilidade oficial.

Apesar da explosão de números, as mortes aumentaram apenas de forma marginal, passando de 41 mil óbitos para 43 mil mortes na semana passada. Ainda assim, o número é considerado como extremamente elevado. "A variante ômicron não é uma gripe normal", disse.

Para ela, o sentimento de uma parcela das populações de que, a partir de agora, medidas de proteção já não funcionam, é um "erro". "Não é momento de desistir", disse a especialista da OMS.

"Há uma esperança de que a atual variante seja a última. Mas não podemos apostar nisso. Queremos acreditar que é suave. Mas isso não é correto", afirmou Mike Ryan, diretor de operações da OMS.

Os técnicos criticaram eventos e festas que, em alguns países, foram registrados nos quais os organizadores promovem para garantir uma suposta imunidade entre os convidados.

Ryan insiste que, se não fosse pela vacina, a taxa de casos severos e mortes seria ainda mais elevada. "A vacina está evitando muitos dos casos mais graves. Mas, mesmo assim, trata-se de um risco elevado", disse.

Segundo ele, a população mais velha continua vulnerável ao vírus. "As vacinas estão salvando vidas. Mas não podemos relaxar", insistiu Maria van Kerkhove.

Outro problema destacado pela OMS é que se nos países com elevada taxa de vacinação a variante está sendo tratada como um problema menor, o temor é de que, numa nova fase de contágios, ela chegue aos países onde a cobertura vacinal é ainda baixa.

Hoje, segundo a OMS, 3 bilhões de pessoas pelo mundo ainda não receberam sequer uma dose dos imunizantes. A preocupação é de que, diante da ômicron, o impacto pode ser diferente dos cenários registrados na Europa e nos EUA.

Nas Américas

O levantamento publicado pela OMS revela que as mortes pela covid-19 voltaram a subir nas Américas na última semana. Ainda que a taxa não acompanhe a explosão no número de novas infecções, os dados revelam que não há como declarar que a variante ômicron seja apenas uma versão suave do vírus que gerou a pior pandemia em mais de cem anos.

Apesar da explosão de números, as mortes aumentaram apenas de forma marginal, passando de 41 mil óbitos para 43 mil mortes na semana passada, com uma taxa global de 3% de aumento.

A situação nas Américas, porém, chama a atenção. O continente respondeu por 6 milhões de novas contaminações, um aumento de 78% em comparação aos sete dias que antecederam o levantamento. A região ainda registrou 14 mil mortes neste período, um aumento de 26%.

Os EUA lideraram essa alta, com uma expansão de 80% e 4,6 milhões de novos casos. Mas outros quatro países registraram aumentos de mais de 50%.

O segundo lugar vai para a Argentina, com um aumento de 101% nos casos e um total registrado de 461 mil novas contaminações. O Brasil, vivendo um apagão de dados, não aparece entre os primeiros colocados.

No que se refere às mortes, a taxa registrou uma alta de 26% nos EUA, com 11,1 mil óbitos. O segundo lugar é do Brasil, com 766 mortes e um aumento de 15%, contra 566 no México.

No mundo, além dos EUA, a lista dos primeiros colocados em termos de novos casos ainda inclui a França, com 1,5 milhão de casos, o Reino Unido com 1,2 milhão e a Itália, com 1 milhão. Na Índia, o aumento em uma semana foi de 524%, para um total de 638 mil contaminados.

Vacina com eficácia reduzida diante da ômicron

De acordo com a OMS, os resultados dos primeiros estudos mostram que, de fato, existem evidencias de que as vacinas têm uma eficácia reduzida diante da variante ômicron.

Mas o imunizante tem sido fundamental para evitar casos graves e um aumento ainda maior dos óbitos.

Outro problema destacado pela OMS é que se nos países com elevada taxa de vacinação a variante está sendo tratada como um problema menor, o temor é de que, numa nova fase de contágios, ela chegue aos países onde a cobertura vacinal é ainda baixa.

Hoje, segundo a OMS, 3 bilhões de pessoas pelo mundo ainda não receberam sequer uma dose dos imunizantes. A preocupação é de que, diante da ômicron, o impacto pode ser diferente dos cenários registrados na Europa e nos EUA.

OMS: mundo precisará de novas vacinas para evitar transmissão e lockdowns

Cientistas reunidos pela OMS concluíram que o mundo precisará desenvolver uma nova geração de vacinas que consiga impedir a transmissão da covid-19 e para que medidas sociais de confinamento sejam abandonadas. Só novos imunizantes poderão ainda evitar a atual necessidade de doses de reforços, o que não é considerado como sustentável pelos técnicos.

O grupo ainda apontou que os imunizantes existentes contra a covid-19 terão suas eficácias reduzidas diante da variante ômicron. Mas o efeito das doses para evitar doenças severas está preservado.

Os cientistas publicaram suas conclusões alertando que a ômicron dificilmente será a última variante da covid-19.

Para frear a proliferação de casos, empresas terão de colocar no mercado novos produtos. Só assim, medidas sociais poderão ser repensadas ou abandonadas.

De acordo com os técnicos, "para a variante ômicron, o perfil mutacional e os dados preliminares indicam que a eficácia da vacina será reduzida contra doenças sintomáticas causadas pela variante ômicron, mas é mais provável que a proteção contra doenças graves seja preservada".

A OMS, porém, indica que são necessários mais dados sobre a eficácia da vacina, particularmente contra hospitalização, doenças graves e morte, para chegar a uma constatação final.

Enquanto os dados ainda não são produzidos, a agência insiste que governos precisam ampliar suas campanhas de vacinação e dar prioridade para locais que ainda contam com baixa taxa de cobertura. O objetivo é "proporcionar proteção contra doenças graves e morte em todo o mundo e, a longo prazo, mitigar o surgimento e o impacto de novas variantes, reduzindo a carga da infecção".

"Em termos práticos, enquanto alguns países podem recomendar doses de reforço de vacinas, a prioridade imediata para o mundo está acelerando o acesso à vacinação primária, particularmente para grupos com maior risco de desenvolver doenças graves", disse.

Para a OMS, uma estratégia de dar terceira ou quarta dose a uma população, enquanto bilhões de pessoas continuam sem vacinas, não funcionará.

"Uma estratégia de vacinação baseada em doses repetidas de reforço da composição original da vacina é improvável que seja apropriada ou sustentável", alertou.

Futuras vacinas terão de ser desenvolvidas para frear transmissão

A agência ainda insiste que, diante da permanência do vírus na sociedade, será ainda necessário o desenvolvimento de vacinas com "alto impacto na prevenção da infecção e transmissão, além da prevenção de doenças graves e da morte".

"Até que tais vacinas estejam disponíveis, e à medida que o vírus SARS-CoV-2 evolui, a composição das atuais vacinas pode precisar ser atualizada, para garantir que as vacinas continuem a fornecer níveis de proteção contra infecções e doenças recomendados pela OMS pelas variantes, incluindo ômicron e futuras variantes", diz a entidade.

Para os cientistas, empresas precisam considerar uma mudança na composição da vacina:

- Para garantir que as vacinas continuem a atender aos critérios estabelecidos na OMS para vacinas COVID-19, incluindo a proteção contra doenças graves

- Para melhorar a proteção induzida pela vacina.

Para esse objetivo, as vacinas precisam ser feitas a partir de cepas que são geneticamente e antigenicamente próximas às variantes. Além de dar proteção contra doenças graves e morte, elas devem "ser mais eficaz na proteção contra infecções, diminuindo assim a transmissão comunitária e a necessidade de medidas sociais e de saúde pública rigorosas e de amplo alcance".

A OMS também quer imunizantes que possam obter respostas imunológicas "amplas, fortes e duradouras, a fim de reduzir a necessidade de doses sucessivas de reforço".

Na busca pelas novas vacinas, os cientistas sugerem que as empresas e institutos considerem algumas opções. Uma delas seria uma vacina monovalente que gere uma resposta imunológica contra as variantes predominantes em circulação.

O problema é que tal caminho possa enfrentar o desafio do rápido aparecimento de novas variantes do SARS-CoV-2.

Outra opção seria uma vacina multivalente contendo antígenos de diferentes variantes a SARS-CoV-2. Há ainda a possibilidade de uma "vacina pan SARS-CoV-2", o que seria mais sustentável a longo prazo e efetivamente à prova de variantes.

O grupo de cientistas também pede que os fabricantes de vacinas gerem e forneçam dados sobre o desempenho dos atuais imunizantes, incluindo a amplitude, magnitude e durabilidade das respostas imunes.

"Estes dados serão considerados no contexto da estrutura mencionada acima para informar as decisões quando mudanças na composição da vacina forem necessárias", explicou.

A OMS ainda considera importante que os fabricantes de vacinas tomem medidas a curto prazo para o desenvolvimento e teste de vacinas com variantes predominantes em circulação e compartilhassem esses dados com a agência

A partir dessas informações, os cientistas aconselharão então a OMS sobre a "composição da cepa da vacina que poderia ser potencialmente desenvolvida como uma vacina monovalente com a variante predominante em circulação ou uma vacina multivalente derivada de diferentes variantes".

Vacina 100% nacional

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) deve começar a entregar doses da vacina Astrazeneca totalmente fabricadas no Brasil a partir de fevereiro. No último dia 7, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) deu parecer favorável à produção do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA) pela fundação, o que abre portas para que a fabricação 100% nacional seja possível.

Segundo a presidenta da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, a pandemia explicitou a "dependência dos insumos farmacêuticos ativos para a produção de vacinas". Nas palavras dela, a possibilidade de produzir as doses vai garantir "a autossuficiência do nosso Sistema Único de Saúde (SUS)."

Agora, a Fundação se tornou a primeira instituição do país quem tem chancela para a produzir e distribuir o imunizante sem necessidade de importar nenhum componente. Em julho do ano passado, após a assinatura do contrato de Transferência de Tecnologia com a parceira AstraZeneca, foi iniciada a fabricação com IFA nacional para testes.

De acordo com a Anvisa a eficácia os imunizantes que levam o ingrediente brasileiro apresentaram eficácia, segurança e qualidade igual ao fabricado com IFA estrangeiro. O Diretor do Bio-Manguinhos/Fiocruz, Mauricio Zuma, pontua que a aprovação demonstra capacitação em um "processo produtivo de alta complexidade."

"Mais do que isso, representa o cumprimento do nosso papel como laboratório oficial do Ministério da Saúde, incorporando tecnologias essenciais para o Brasil e trazendo soluções para a saúde pública”, completa Zuma.

O Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz) tem o insumo já pronto para 21 milhões de doses. Esse material está em diferentes etapas de produção, mas o envasamento já deve começar neste mês, após conclusão de testes de controle de qualidade no processamento final da vacina.


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