Semana On

Domingo 23.jan.2022

Ano X - Nº 475

Poder

Um governo à deriva

57% dos brasileiros acham Bolsonaro ruim ou péssimo; menos da metade dos seus eleitores em 2018 considera o trabalho do presidente ótimo ou bom

Postado em 07 de Janeiro de 2022 - Carta Capital, Ricardo Noblat (Metrópoles), Eduardo Maretti (RBA), Julinho Bittencourt (Fórum) – Edição Semana On

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A maioria dos brasileiros avalia o trabalho do presidente Jair Bolsonaro como ruim e péssimo, de acordo com pesquisa PoderData divulgada no último dia 6 pelo site Poder360.

O levantamento revela que, para 57% da população, as ações do ex-capitão são negativas. Por outro lado, 24% do eleitorado acha o trabalho bom e ótimo.

Segundo o instituto, os números mostram estabilidade. A taxa “ruim/péssimo” é a mesma registrada 15 dias antes. Já a “bom/ótimo” oscilou 1 ponto para cima, variação dentro da margem de erro de 2 pontos percentuais da pesquisa.

A pesquisa foi realizada por meio de ligações para telefones celulares e fixos. Foram 3.000 entrevistas em 501 municípios nas 27 unidades da Federação de 2 a 4 de janeiro de 2021.

Menos da metade dos eleitores de Bolsonaro em 2018 considera o trabalho do presidente ótimo ou bom

A pesquisa do PoderData mostra também que o presidente é mal avaliado por 36% dos eleitores que o escolheram no segundo turno das eleições de 2018.

Segundo o levantamento, os que hoje avaliam o trabalho do ex-capitão como ótimo ou bom, entre os seus apoiadores, são 44%, menos da metade.

O instituto diz que os dados são próximos dos registrados na última pesquisa, feita duas semanas antes, de 19 a 21 de dezembro de 2021. Na ocasião, 29% dos que elegeram Bolsonaro mostravam-se insatisfeitos com o desempenho do chefe do Executivo.

A pesquisa ainda mostra que, entre os que votaram branco ou nulo no segundo turno em 2018, a desaprovação ao trabalho do presidente é de 73%. A avaliação negativa alcança 87% entre eleitores de Haddad, adversário de Bolsonaro no pleito.

Bolsonaro fora?

O cientista político Vitor Marchetti pondera que dados de simulação eleitoral falam do presente – uma “fotografia” do momento. Mas acha plausível que Bolsonaro não seja candidato. Pelo menos não à presidência da República, já que vai disputar uma eleição com altíssima chance de derrota.

“Hoje, o alto índice de rejeição cria enorme possibilidade de ele não se reeleger. Esse é o dado mais relevante”, diz. Nesse contexto, avalia o professor na Universidade Federal do ABC, é possível que Bolsonaro possa mesmo estar refletindo. “A partir de 2023 ele ficaria sem mandato, descoberto e desprotegido? Ou seguiria a mesma lógica de mais de 30 anos de vida politica, de preservação de si mesmo?” Desse modo, o “instinto de sobrevivência” de Bolsonaro poderia levá-lo a tentar a costura de uma solução alternativa. E assim se blindar, para proteger a si e a sua família, principalmente seus filhos, a partir de 2023, acredita o analista.

“Bolsonaro vai tentar golpe, mas não terá apoio”, diz Eurasia Group

A consultoria Eurasia Group, especialista em análises de risco, uma espécie de guia mundial para banqueiros e o mercado financeiro, afirma em seu primeiro boletim do ano que 2022 será “extraordinário” para a política no Brasil.

De acordo com o texto, “a popularidade do presidente Jair Bolsonaro vai cair com a piora da economia, tornando Luiz Inácio Lula da Silva o favorito para vencer as eleições presidenciais de outubro”.

“A expectativa de uma vitória de Lula”, prossegue o boletim, “desestabilizará os mercados, dadas suas promessas de maiores gastos do Estado, e um Bolsonaro desesperado desafiará a legitimidade das instituições democráticas do Brasil. Mas as preocupações de que a democracia no Brasil esteja em risco ou de que Lula faça uma virada radical para a esquerda que desencadeie uma crise financeira de confiança são ambas exageradas”, conclui.

O boletim afirma ser “muito provável que Bolsonaro chegue a um segundo turno contra Lula”. O texto, no entanto, compara o presidente brasileiro a Donald Trump, e diz que “diante da perspectiva de derrota, Bolsonaro intensificará seus ataques aos tribunais, à mídia e ao próprio processo eleitoral do Brasil para manter sua base mobilizada e reafirmar suas credenciais antissistema. Se ele perder a eleição, provavelmente contestará os resultados e alegará que a eleição foi roubada. Já vimos essa história antes”.

Com tudo, o texto afirma que “a democracia do Brasil não está em risco. As instituições democráticas do Brasil estão consolidadas e fortes. O judiciário, os governadores, o Congresso e a mídia são independentes e impedirão um esforço desonesto para derrubar um resultado eleitoral”. Para o Eurasia, “os militares não seguirão nenhuma tentativa do Bolsonaro de desafiar os resultados das eleições, e o Supremo Tribunal Federal tomou medidas para cortar o financiamento de grupos online pró-Bolsonaro que alimentaram mobilizações anteriores”, lembra.

O que o futuro reserva ao presidente que acidentalmente se elegeu

Tem uma pergunta que teima em ser feita, mas que nem os políticos mais experientes se arriscam a responder, e quando o fazem revelam toda a sua insegurança: por que o presidente Jair Bolsonaro, carente de votos para se reeleger, fala e faz tudo ao contrário do que deseja a maioria dos brasileiros?

O caso mais flagrante disso é o seu discurso contra a vacinação e, indiretamente, a favor da morte, mas não é o único. A resposta mais frequente à pergunta é: ele quer manter o que lhe resta de seguidores fiéis e, por isso, diz o que eles querem ouvir. Sim, mas eles não lhe bastam para que vença a eleição. E aí?

Para essa nova pergunta também falta resposta convincente. Alguns invocam o lugar comum de que Bolsonaro é assim mesmo e que nunca irá mudar. Outros, que ele já se conformou com a derrota que se avizinha e faz planos para o futuro. Quem sabe uma vida sossegada com a mulher e a filha pequena?

Os que o cercam dizem que Bolsonaro parece sincero ao afirmar que não desejaria a vida que leva nem mesmo para o pior dos seus adversários. Ele nunca imaginou que um dia seria eleito presidente. Não se preparou para isso. Foi surpreendido com o que aconteceu. Governa perplexo, e não vê a hora de ir para casa.

Candidatou-se a presidente para ajudar os três filhos zero a se reeleger e seguir carreira. Espera eleger na próxima eleição uma bancada de políticos comprometidos com as mal costuradas ideias que ele defende. Não que deseje ser derrotado ou que cave a própria derrota, não. Mas sabe que para ele já deu.

Foi-se o tempo que sonhava em convulsionar o país e dar um golpe. Faltou-lhe coragem para tal e apoio suficiente. Deixa que a vida o leve. Quem sabe o acaso não possa favorecê-lo outra vez...


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