Semana On

Sexta-Feira 20.mai.2022

Ano X - Nº 487

Coluna

Encontros Luso-brasileiros

Professores deixe-nos sonhar!

Postado em 06 de Janeiro de 2022 - Cléo Lima

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Apesar de parecer algo fácil, fazer as malas e partir para um país no Sul da Europa foi desafiador, ainda que pareça encantador aos olhos de muitos. Desfazermo-nos de um modo de viver em trinta dias e partir para um encontro luso-brasileiro requer coragem. Eu tive.

Desembarquei em Portugal, com o desafio de conhecer por dentro os movimentos da educação na terra das sardinhas, do bacalhau, dos fados, das poesias, das magias, dos castelos, com suas histórias marcadas por lutas, massacres e “conquistas”.

Há algo nessas histórias que nos é muito familiar. Vou falar um pouco das minhas andarilhagem e dos desafios, que me instigaram a mudar de mala e cuia para 7.199,95 km de distância do nosso Brasil. Não sei se, por obra do acaso ou se pura estratégia da Vida, saí do meu país para trabalhar em Portugal, justamente nesse momento crítico, por que passam os brasileiros.

Afinal, ativismo por direitos humanos e defesa da vida no Brasil está como nos anos de 1964, demasiadamente ariscado. Um “Salve a Marighela” de Moura.

Nosso país está como uma nau desgovernada com leme solto. Mas, depois das tempestades há de vir a bonança, um esperançar freiriano para 2022. Ano em que o mar estará para peixe ou molusco, se é que me entendem...

Em breve, vamos voltar a sonhar, a comer carne, frango, pão e sorrir, exercer democraticamente nossa cidadania. Levantaremos a bandeira dos Júlios, dos Henriques, das Lúcias, dos Renes, dos Jeans, dos Krenaks e tantos outros. Vamos!

Pegando carona nos elétricos, ou abrasileirando no bondinho português, seguimos pelas ruas estreitas, com suas casinhas brancas, ora com contornos azuis, ora amarelos, com ladrilhos coloridos e uma iluminação cinematográfica, conservada pela cidade afora, dando um charme, uma magia e uma certa nostalgia a esses caminhos de Camões, Fernando Pessoa, Agostinho. E, por ai, vai, vai e vai...

Em Lisboa, fui a uma praceta onde estava, nada mais, nada menos, que o multifacetado Fernando Pessoa. Não sou dada a tietagem, mas não resisti e me aventurei na foto com o digníssimo, ainda que de bronze.

Depois da tietagem, fui experimentar a famosa Ginjinha do Largo de São Domingos, da qual me tornei apreciadora. Sobre a ginja vamos falar um pouco mais à frente, nas escritas sobre Óbidos.

Depois, dei um saltinho ao Largo de Camões. Sobre o Largo tenho uma versão bem interessante, pois não fui lá turistar, mas acompanhar um grupo de crianças da educação básica, juntamente com um grupo de educadores teimosos, que acreditam, como eu, na construção urgente de uma nova educação, numa educação ética, estética, comunicativa e humana.

Aqui, nesta terra lusitana, há 40 anos, um educador juntou-se com duas educadoras e um grupo de quatro pais e iniciaram esse processo de transformação. Me refiro à escola que o psicanalista, educador e escritor Ruben Alves se referia:

“Encontrei a escola com que sempre sonhei: a "Escola da Ponte". Me encantei vendo o rosto e o trabalho dos alunos: havia disciplina, concentração, alegria e eficiência”.

Pasmai, leitores! A Ponte é pouco conhecida em seu próprio país. Coincidência é pouco. É bobagem. Como diz o velho ditado: “Santo de casa não faz milagres”. Entretanto, é uma das escolas mais visitadas do mundo. O educador Zé Pacheco tem mais de 100 livros publicados pelo mundo afora e nenhuma dessas obras está publicada em Portugal.

O que será que esse sonho tem a ver com o Brasil? Ambos sonham ter uma educação pública de qualidade, onde todos tenham o direito à aprendizagem, onde todos são especiais e têm sua cidadania assegurada.

Não irei ater-me na Ponte, mas se faz importante partir dela, para dar continuidade a essas narrativas luso-brasileiras.

O início do cortejo se deu na porta da escola. As crianças foram recebidas com a música “Pedra filosofal” de Antônio Gedeão. No violão, o amigo e educador João. Na voz, do educador Tiago Barbosa, seguido do “coro” dessa amiga que voz escreve, do educador Zé Pacheco, das educadoras e os demais “figurantes”, que transitavam pela rua. Até parecia uma cena de filme.

Pedacinho da música: “(lá, rá, lá, rá, lá, rá...) Sempre que um homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos uma criança (...). não sabem que o sonho comanda a vida ...)”

Foi interessante ver as pessoas tirando fotos, outras gravando, sem entender muito do que ali acontecia, tudo envolto num clima de alegria. Foi um acontecimento no sentido mais amplo do processo de uma construção viva de conhecimento em ato. Os olhos dos miúdos brilhavam. Podemos até dizer que iniciamos uma “aula-passeio” do Celestin Freinet (do movimento da Escola Moderna),

Descrevo aquele acontecimento como um cortejo acompanhado por uma trilha sonora. Lá fomos, rua afora, até ao Largo, – os pequenos seguiam, entusiasmados, enxergando outra Lisboa. Abria-se uma outra cidade para eles. Imaginai para mim!

Na andarilhagem nas ruas, eles iam trocando suas expectativas sobre o tal poeta caolho, que tinha sua estátua bem no meio do Largo. Com olhos atentos, os pequenos faziam várias perguntas sobre o poeta, interessados em saber:

“Como Camões perdeu o olho?

Por que tinha uma estátua dele? Ele nem rei era!

Quem o ensinou a escrever poesias?

Por que foi preso?”

Porquês, porquês, por quês... Cada pergunta suscitava outras perguntas, que aguçavam ainda mais a curiosidade e o desejo de pesquisar sobre a famoso personagem.

Fazendo um trocadilho com o Krenak: A vida não é útil. A curiosidade, sim! É uma válvula motriz, que move o mundo.

O cortejo não terminou ali. Seguimos para a Travessa das Laranjeiras, lugar simpático e frutífero, literalmente falando. Lá, sentamo-nos sob a sombra das laranjeiras do outono português. As laranjeiras compunham um cenário de saborosas laranjas, no meio de uma rua, algo comum nas ruas por onde tenho passado. A pergunta foi simples:

“Quem deu o nome de Rua das Laranjeiras?”

E a válvula da curiosidade foi acionada.

Continuando o cortejo seguimos para uma tasquinha (pequena mercearia), do avô de uma das crianças, que nos recebeu carinhosamente, Ainda que não entendesse do que se tratava aquele acontecimento, esses momentos foram reveladores: ainda há quem acredite que o aprendizado se dá dentro de uma sala, ou em grandes caixotes de concreto ou gaiolas, seja lá de que material for.

Tomamos um galão (café com leite) e, ali, na pequena e estreita rua, as crianças recebidas com música se despediram com uma música brasileira: “O Sol”, de Vitor Kley. Todos cantando no meio da rua, não como uma despedida, mas com desejo de um reencontro.

É do hemisfério Sul, que acontecerá uma das maiores transformações educacionais, rompendo o paradigma da instrução, avançando para o paradigma da aprendizagem, alicerçado em escritas e práticas de grandes educadores como: Maria Nilde, Nise da Silveira, Amanda Alberto, Helena Antipoff, Cecília Meireles, Darcy Ribeiro, Lauro de Oliveira Lima, Paulo Freire, e por ai vai e vai... A experiência que estou vivenciado aqui em Portugal em nada se distância da educação que temos no Brasil. Sim, leitores, aquela mesma educação reprodutora e bancária do século XIX, representada na música e no clipe da banda Pink Floyd - Another Brick in The Wall.

Este prelúdio é um convite para dialogarmos sobre uma nova construção social educacional. Para despertar a válvula motriz chamada curiosidade e o desejo de construir com muitas mãos este sonho. Convido-os para essa partilha e troca sobre a Antropogogia e a co-criação de uma Educação Inovadora em Ato.


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