Semana On

Terça-Feira 24.mai.2022

Ano X - Nº 488

Poder

Bolsonarização de Heleno transformou um general em um caso psiquiátrico

General ameaça o STF, mas não canta mais 'se gritar pega centrão'

Postado em 17 de Dezembro de 2021 - Josias de Souza e Leonardo Sakamoto(UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles) - Edição Semana On

Imagem: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo Imagem: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

No início do governo vigorava uma superstição segundo a qual os generais convocados para comandar escrivaninhas no Planalto desarmariam as explosões do capitão Bolsonaro. Tomado pela incontinência retórica, o general Augusto Heleno, chefe do GSI, tornou-se uma evidência de que ocorreu o contrário. Certos generais bolsonarizaram-se. Há no país fome, desemprego, inflação, ameaça de recessão e uma série de ataques hackers que envergonham o setor de proteção cibernética da pasta chefiada por Heleno. Mas o general resolveu ajudar Bolsonaro a fabricar mais uma crise com o Supremo.

Falando para agentes da Abin na formatura de um curso de "Aperfeiçoamento e Inteligência", Heleno disse o Supremo "resolveu assumir uma hegemonia que não lhe pertence." Avaliou que "dois ou três ministros do STF" tentam "esticar a corda até arrebentar." Declarou que teme que Bolsonaro seja assassinado. Afirmou que injeta diariamente na veia duas doses do barbitúrico Lexotan "para não levar o presidente a tomar uma atitude mais drástica" em resposta às decisões do Supremo. Faltou definir "atitude mais drástica."

O novo áudio de Heleno, trazido à superfície pelo repórter Guilherme Amado, do site Metrópoles, faz lembrar alucinações anteriores. Na campanha de 2018, sem Lexotan, o general dizia que o centrão era feito de ladrões. Em 2019, já sob os efeitos de tranquilizantes, defendia que Bolsonaro governasse em conexão direta com as ruas. No início de 2020, sua voz foi captada numa transmissão ao vivo reclamando da fome dos parlamentares por emendas: "Não podemos aceitar esses caras chantageando a gente. Foda-se!"

Hoje, o general Heleno já não acha que "se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão." Passou a avaliar que fazem parte do que chama de "show da política" coisas como o orçamento secreto, a chegada do centrão ao Gabinete Civil da Presidência e a filiação de Bolsonaro ao partido do ex-preso do mensalão Valdemar Costa Neto.

Heleno revela-se capaz de tudo, exceto de enxergar no semblante de Bolsonaro a figura de um despreparado. O general ambiciona para o Brasil uma realidade venezuelana, com os militares cooptados e bem pagos, com uma Suprema Corte rendida ao imperador de plantão.

O general deveria considerar a hipótese de procurar ajuda médica. Seu caso é psiquiátrico. Talvez precise aumentar a dose de Lexotan.

Ao bater no STF, talvez Heleno ganhe mais uma medalha

O que parece mais grave? Heleno insinuar que Bolsonaro poderá ser vítima de um novo atentado? Ou dizer que só tomando duas doses de Lexotan na veia para aguentar as decisões do Supremo que contrariam o governo?

O mais grave talvez seja o fato de que o responsável pela vida do presidente da República, com acesso às informações mais sigilosas produzidas pelo sistema de inteligência do país, disse todas essas idiotices em reunião com seus subordinados e só mais tarde descobriu que fora gravado.

Não se descarta, porém, a hipótese de que o próprio general ordenou o vazamento e agora finge ter sido surpreendido por ele. Essa gente dos porões é esperta e dissimulada. Militares de alta patente e espiões em geral que os servem sabem muito bem lidar com informação e contrainformação.

De toda forma, o que ele disse certamente agradou em cheio a Bolsonaro. Heleno afirmou que o Supremo tenta esticar a corda até arrebentar sua relação com o Poder Executivo. E que rezará para que Bolsonaro não sofra um atentado ano que vem.

Quer dizer: sem o Lexotan, ele poderia levar o presidente a “tomar uma atitude mais drástica” em relação ao Supremo. Que atitude seria essa? Fechar o Supremo? Simplesmente ignorar suas decisões daqui para frente como Bolsonaro disse que o faria em comício do 7 de setembro em São Paulo? É de golpe que se trata?

Heleno entende de golpe. Ele foi chefe de gabinete do general Sílvio Frota, comandante do Exército, e à época, líder da linha dura do regime militar de 64, obcecado com o comunismo. O presidente Ernesto Geisel, general como ele, o demitiu em outubro de 1977, e Frota tentou derrubá-lo, mas o golpe fracassou.

Quanto às orações para abortar o risco de um atentado contra Bolsonaro… Heleno saberá de algo que se trama? Se souber, deveria fazer o que lhe cabe: repassar as informações à Polícia Federal para que investigue e reforçar a segurança do presidente. Falar em público sobre o assunto não desestimula os que tramam.

A não ser que ele não saiba de coisa alguma, que queira apenas extrair vantagem política do atentado à faca que Bolsonaro sofreu em Juiz de Fora em setembro de 2018. Outra vez agradou o presidente. Talvez Heleno seja agraciado com mais uma medalha por relevantes serviços prestados ao seu amado chefe.

Heleno ameaça o STF, mas não canta mais 'se gritar pega centrão'

Cabe ao general Heleno dar uma lembrada, de tempos em tempos, que o seu chefe, o capitão Jair Bolsonaro, pode promover um golpe de Estado. Ajuda a manter o país sob tensão e a extrema direita excitada.

A mais recente bravata do Heleno não é a primeira, nem será a última. Em 16 de agosto, em entrevista à Jovem Pan, ele havia afirmado que as Forças Armadas podem atuar como um "poder moderador", o que não existe na Constituição, e que não acredita em um golpe militar "no momento".

Em maio do ano passado, diante de um pedido de apreensão de celulares do presidente da República e de seu filho, o vereador Carlos Bolsonaro, como parte de uma notícia-crime protocolada no Supremo, o então ministro Celso de Mello enviou para a decisão do procurador-geral da República, Augusto Aras, seguindo o rito processual. A apreensão não foi determinada pelo PGR, mas bastou para Heleno mandar uma ameaça.

"O Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República alerta as autoridades constituídas que tal atitude é uma evidente tentativa de comprometer a harmonia entre os poderes e poderá ter consequências imprevisíveis para a estabilidade nacional." Mais explícito do que isso, só com os nomes do cabo e do soldado que eles mandariam para fechar a corte.

Já em outubro de 2019, após o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) sugerir um novo AI-5 caso a esquerda se radicalizasse, Heleno não demonstrou repúdio, mas disse: "se [Eduardo] falou, tem de estudar como vai fazer, como vai conduzir". O ato institucional, baixado pela ditadura em dezembro de 1968, deu poderes ao Palácio do Planalto para fechar o Congresso, cassar direitos, censurar a população e descer o cacete geral.

Mas, em fevereiro de 2020, Augusto Heleno esqueceu de tomar o tal Lexotan ao qual se refere ao conclamar o governo a não ficar "acuado" pelo Congresso Nacional e pedir ao presidente "convocar o povo às ruas". Ao ministro da Economia, Paulo Guedes, e ao então ministro-chefe da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos, disse: "não podemos aceitar esses caras chantageando a gente. Foda-se". O áudio foi captado em uma live, em que ele dizia não ser aceitável o Legislativo avançar sobre recursos do Executivo.

Desde então, houve um duplo twist carpado. Para evitar um impeachment, o governo Bolsonaro ajoelhou-se perante o centrão, transformando em BFF aqueles que tanto o general quanto o capitão criticavam.

O coração político da gestão, a Casa Civil e a Secretaria Geral, foram entregues ao senador Ciro Nogueira (PP-PI) e à deputada Flávia Arruda (PL-DF). E instituído um Bolsolão, um mensalão bolsonarista, para irrigar com bilhões em emendas, muitas das quais parte de um orçamento secreto, como revelou o jornal O Estado de S.Paulo, para garantir a governabilidade e impedir a cassação de Jair.

Tudo isso é muito irônico. Pois seria natural que o general estivesse se referindo ao centrão ao se afirmar que "temos um dos Poderes que resolveu assumir uma hegemonia que não lhe pertence". Mas não, ele trata do STF, que está simplesmente colocando os freios que a Constituição lhe permite aos desatinos do governo.

Mais irônico ainda porque, nunca é demais lembrar, no encontro que oficializou a candidatura de Bolsonaro à Presidência em 2018, Augusto Heleno fez uma paródia de "Reunião de Bacana", de Ary do Cavaco e Bebeto Di São João, cantada por Exporta Samba, Originais do Samba e Fundo de Quintal. "Se gritar pega centrão, não fica um meu irmão", trocando "ladrão" por "centrão".

Em maio deste ano, disse que aquele episódio era "brincadeira". E tem convivido bem com centrão, fiador da sobrevivência do chefe.

Uma parte do Congresso Nacional transformou o governo Jair Bolsonaro em seu caixa eletrônico em nome da própria sobrevivência política. Mas o que incomoda ao general é quem protege a Constituição. Tanto que esqueceu as críticas ao centrão e foca naqueles que seu chefe elegeu como inimigos.

O que nos leva a crer que quem precisa de Lexotan não é Heleno, mas o povo. Isso se o governo Bolsonaro não tivesse reduzido o programa Farmácia Popular, claro.


Voltar


Comente sobre essa publicação...