Semana On

Terça-Feira 17.mai.2022

Ano X - Nº 487

Poder

Impunidade atiça ataque à mídia sob Bolsonaro

Silêncio do presidente mostra que bolsonarismo não consegue conviver com a imprensa livre

Postado em 17 de Dezembro de 2021 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

O silêncio condescendente do presidente da República enquanto equipes de imprensa eram agredidas por seus seguranças e fãs, em Itamaraju (BA), no último dia 12, é mais uma evidência de que Jair Bolsonaro gosta de ver jornalistas apanhando. Pelo menos aqueles que não lhe dizem amém.

Bastava uma palavra de Bolsonaro, que presenciava a cena, para seus apoiadores radicais, entre eles o secretário de Obras do município, Antonio Charbel, cessassem as agressões. Mas Jair consentiu com o silêncio, como vem consentindo, incentivando e fomentando desde que assumiu o mandato.

Camila Marinho, Cleriston Santana, Dário Cerqueira e Xico Lopes, da TVs Bahia e Aratu, afiliadas da Globo e do SBT, tentavam realizar a cobertura da tragédia causada pelas chuvas no Sul da Bahia quando foram agredidos

Camila levou um mata-leão de um jagunço do presidente, o que reafirma a violência contra repórteres mulheres, consequência da competência delas em revelar o que o governo federal deseja esconder, mas também do casamento entre o autoritarismo bolsonarista e o machismo bolsonarista.

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) foi bem certeira em sua nota de repúdio, ao exigir que "Jair Bolsonaro cesse os ataques verbais contra a imprensa, os quais incentivam sua militância a agredir repórteres e impedir seu trabalho".

Sim, o presidente da República é hoje a maior ameaça à liberdade de imprensa no país. O Relatório da Violência contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil, elaborado pela Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), aponta que 2020 foi o pior ano para a nossa profissão desde que a entidade começou o levantamento no início da década de 1990. Foram 428 ataques, um aumento de quase 106% em relação ao ano anterior. Desse total, respondeu sozinho por 175 registros - ou seja 41%.

Bolsonaro é o responsável pela violência contra jornalistas cometida em seu nome. Não é necessário que ele demande uma ação - apesar de não duvidar que ordens nesse sentido tenham sido passadas a seus seguranças.

Seu comportamento e seus discursos, acusando a imprensa de mentir quando a narração dos fatos lhe desagrada, alimentam as milícias que agem para defendê-lo, tornando a vida de outros um inferno. Para muitos de seus seguidores, um ataque à imprensa em nome de Bolsonaro é uma missão civilizatória, quase divina. E agridem jornalistas achando que estão em uma cruzada.

A situação lembra, por exemplo, o 3 de maio do ano passado, quando uma turba de fãs de chutou e esmurrou o fotógrafo Dida Sampaio e atacou o motorista Marcos Pereira, ambos do jornal O Estado de S. Paulo, em frente ao Palácio do Planalto. Outros profissionais de imprensa também foram empurrados e xingados. Enquanto isso, da rampa da sede do governo, o ocupante da Presidência sorria e acenava para a multidão. A turba pedia o fechamento do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional. Celebrava-se, a propósito, o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa.

No dia 31 de outubro, jornalistas que relatavam a viagem de Bolsonaro ao G20 Roma (que ele transformou em um turismo inútil e caríssimo pago com dinheiro público enquanto o povo passa fome) foram agredidos por agentes de segurança a serviço de Bolsonaro. Jamil Chade (UOL), Ana Estela de Sousa Pinto (Folha), Leonardo Monteiro (TV Globo), Lucas Ferraz (O Globo) e Matheus Magenta (BBC), estavam tentando fazer seu trabalho, cobrindo a passagem do brasileiro pela capital italiana.

As imagens de agressões a jornalistas geram orgasmos junto ao bolsonarismo-raiz. Em grupos bolsonaristas em redes sociais e aplicativos de mensagens, as notícias de agressões são festejadas e ironizadas. A omissão do presidente incentiva grupos de seguidores do presidente a silenciar e punir, nas redes e fora delas, aqueles que fiscalizam seu líder e denunciam as irregularidades que ele comete.

Bolsonaro deseja substituir a pluralidade por uma "Verdade" ditada por ele em lives nas redes sociais, lives em que ele ensina que as vacinas contra a covid-19 causam Aids e matam adolescentes. Uma verdade rasa que esconde um desprezo pela vida e um profundo vazio de políticas para o Brasil e que serve como cortina de fumaça para encobrir os casos de corrupção de sua família.

Como já disse aqui mais de uma vez, há outros políticos, da esquerda à direita, que também agem de forma intolerante, passando pano para suas militâncias. Esses casos também merecem repúdio. Mas o que temos agora é um presidente que usa o ódio à imprensa como instrumento estrutural de política com o uso de tecnologia de comunicação em massa.

Impunidade

O Brasil convive com duas rotinas desconcertantes: a delinquência de Bolsonaro e a incapacidade das instituições de contê-la. Nos contatos com a imprensa, o presidente trata os repórteres com invariável hostilidade. E os servidores públicos destacados para fazer a sua segurança se sentem à vontade para transformar os ataques verbais do chefe em agressões físicas. Havia acontecido em Roma, na viagem em que Bolsonaro passou vexame no encontro do G 20. Repetiu-se na cidade baiana de Itamaraju.

Corre no Supremo Tribunal Federal ação movida pela Rede Sustentabilidade depois das agressões de Roma. Nela, o partido pede algo inusitado numa sociedade supostamente civilizada: que o presidente da República seja proibido de atacar ou estimular ataques à imprensa —sob pena de ser multado em R$ 100 mil por ataque. O relator é o ministro Dias Toffoli. Instado a se manifestar no início de novembro, o procurador-geral da República Augusto Aras mantém um silêncio constrangedor. Não há prazo para o julgamento da ação.

Tratado como uma criança inimputável, Bolsonaro dá de ombros para a conversão de sua equipe de segurança numa milícia estatal. A imprensa tem muitos defeitos. Mas desperta a antipatia de gente como Bolsonaro por conta de uma virtude: cumpre a missão jornalística de adequar as aparências à realidade e não adaptar a realidade às aparências, como preferiria o capitão.

O papel da imprensa não é o de apoiar ou de se opor a governos. Sua tarefa é a de levar à plateia tudo o que tenha interesse público. Só não entende isso governante que acha que não deve nada a ninguém. Muito menos explicações. É o caso de Bolsonaro.


Voltar


Comente sobre essa publicação...