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Sexta-Feira 20.mai.2022

Ano X - Nº 487

Coluna

Lúcia

Ela tem 79 anos, nasceu no norte de Minas Gerais, analfabeta, 8 filhos sem registro paterno, assim como ela própria

Postado em 16 de Dezembro de 2021 - Cláudia Duarte Lanna

Foto: Rafael Furtado Foto: Rafael Furtado

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Ela tem 79 anos, nasceu no norte de Minas Gerais, analfabeta, 8 filhos sem registro paterno, assim como ela própria.

Dos 8 filhos só 3 sobreviveram, os outros morreram de gastroenterite, bem como sua mãe.

Você nunca estudou, Lúcia?

Meu estudo foi enxada, machado e carvoeira. E Jesus, Maria e José. Graças a Deus!

No mundo não tem serviço nenhum que eu não fiz. Construí uma casa de terra, adobe, pau a pique, telhado de capim, com minhas mãos. Não conhecia dinheiro, capinava uma baixada, ganhava um pote de arroz com casca pra levar pra casa, pilar e cozinhar. No tempo do milréis. A senhora sabe o que é milréis?

Já tive tudo quanto é doença: fogo selvagem, hepatite B, muita doença venérea, eclâmpsia. Tenho dor na coluna, no ombro, dor de cabeça. Com a graça de Deus, amém. Porque Jesus também sofreu e nós não podemos reclamar, mas pedir força e coragem.

Trabalhei muito na varrição de rua, era eu e duas mulher preta, o encarregado judiava de nós, se demorasse a varrição não deixava almoçar. Já tive 20 toalete por dia pra limpar. Daí essa dor no ombro que não passa mais.

Passei muita fome, catei muita comida no lixo pros meus filhos.

Catava muito ovo quebrado, jogado fora, peneirava, fazia muita coxinha pra vender e inteirar o salário.

A senhora sofre muito com racismo?

Demais! A vida inteira! Já fui até cuspida no rosto! Por corrigir um menino branco que tava jogando pedra nos outros. O pai dele em vez de corrigir o filho, cuspiu em mim na frente do moleque, que ainda deu gargalhada.

Teve um motorista de ônibus que não quis abrir a porta da frente pra eu descer; quando eu reclamei, mostrando a carteira de idoso, ele não abriu e apontou a cor do braço dele, pra me mostrar a distância entre um branco e um preto.

Eu não dou queixa na polícia não, Deus dá eles o pago. O que é deles tá guardado.

Eu tenho mais de 20 nomes: o padre que me batizou me deu apelido de pipoca; me chamam Burricida, Tragédia, Rabo de Leitão. Sanduíche de Pé de Galinha, só porque eu comprava pé de galinha pra comer; Sanduíche de Pára-Raio, Sanduíche de Antena, Sanduíche Ciscante, 0800, Trem Preto, Pé na Cova, porque tem muito preconceito contra velho também, envelhecer virou um crime. Quê mais? Sapeca, Prosa Ruim!

Claudia Duarte Lanna é psiquiatra


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