Semana On

Quarta-Feira 25.mai.2022

Ano X - Nº 488

Entrevista

‘Não se enganem, a pandemia não está controlada’, afirma Claudio Maierovitch

Ex-diretor da Anvisa diz que nova variante da Covid mostra necessidade de cautela

Postado em 13 de Dezembro de 2021 - Pedro Camarão - Focus Brasil

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A situação da epidemia de coronavírus no Brasil não é confortável. Pouco mais de 60% da população brasileira foi completamente imunizada, mas ainda não se sabe o período de duração dos imunizantes. Além disso, como o Estado não oferece outros mecanismo de proteção, a vacina acaba sendo a única esperança para proteger contra o coronavírus.

Esta é a posição o médico sanitarista da Fiocruz e ex-diretor da Anvisa, Claudio Maierovitch.

A realidade é preocupante porque países que têm taxas de imunização mais avançadas, como Japão (77%), Alemanha (68,6%), Reino Unido (69%) e França (70%), estão sendo obrigados a retomar medidas de restrição de circulação porque o número de casos da doença vem crescendo.

Maierovitch cita o exemplo da Alemanha que precisou enviar pacientes para a Itália, o que demonstra também o aumento do número de casos graves da doença.

O quadro nesses países é preocupante porque há um temor de que volte a ocorrer o que houve no final de 2020, quando a situação no Brasil estava um pouco melhor e as festas de fim de ano acabaram provocando uma disseminação de variantes do coronavírus, o que levou a um aumento vertiginoso no número de mortes.

Por isso, Maierovitch prega cautela e pede que a obrigatoriedade do uso de máscaras e a restrição para a realização de grandes eventos se mantenha por mais algum tempo.

Ele alerta que a medida é necessária, principalmente quando surge nova variante sobre a qual existem poucas informações.

Apesar de pesquisas mostrarem que é alto o índice de brasileiros que têm a intenção de se vacinar, Maierovitch afirma que o negacionismo nunca foi tão grande no país e o atual presidente da República é um instrumento fundamental neste avanço, não apenas propagando questionamentos sobre a eficácia dos imunizantes, mas também colocando fim às campanhas de informação do governo.

 

A taxa de pessoas imunizadas no Brasil, atualmente, é boa quando comparada ao resto do mundo, embora ainda não se tenha chegado a um patamar suficiente para controlar a situação. Existe um número exato de porcentagem da população imunizada que possa trazer tranquilidade ao país?

Estamos falando de algumas coisas que compõem o que se espera com a vacinação. 

A primeira é a proteção do indivíduo. As pessoas vacinadas individualmente têm uma chance menor de se infectarem, adoecerem e, especialmente, morrerem da infecção.

A segunda coisa, pensando coletivamente é que, tendo mais gente vacinada, espera-se que diminua a circulação do vírus e também o impacto da doença sobre a sociedade e sobre o sistema de saúde. Além disso, espera-se que as medidas de restrição econômica possam ser amenizadas e que não haja tanto temor diante da superlotação de hospitais e UTIs.

A terceira coisa é pensar em controle da epidemia de fato, que ela entre numa curva descendente tendendo a ser superada.

Para isso, a gente precisa de uma cobertura vacinal muito grande e não sabemos bem qual é. Desde o início da pandemia foram feitos vários tipos de projeções. Lá atrás, falava-se em 60%, ou 70%. Teve gente que fez modelos diferentes e falava até em 20% a 40%. E o que nós estamos vendo ao longo desse tempo é que, provavelmente, vamos precisar de uma cobertura realmente muito alta para ter um impacto no rumo da epidemia.

Precisamos levar em conta que, pelo menos por enquanto, as crianças não podem ser vacinadas. Isso significa que a gente deva ter aproximadamente 30 a 40 milhões de pessoas no Brasil que continuarão sem vacina. E, portanto, podem manter o vírus circulando.

A vacina não elimina a circulação do vírus ou a possibilidade de transmissão, mas provoca uma diminuição. Então, vamos ter que atingir essa proporção grande de população só vacinando adultos e adolescentes. Para chegar numa situação mais confortável, vamos ter que vacinar quase que a totalidade de adultos e adolescentes. Algo como 90% dessas parcelas da população.

Quando comparamos a proporção de pessoas vacinadas no Brasil com outros países, estamos numa situação relativamente confortável. Já estamos um pouco melhor do que os EUA, atrás da maior parte dos países europeus, mesmo daqueles que vacinaram menos, e atrás de uma parte dos países do Oriente Médio.

Mas não é uma situação ruim. Embora, ainda seja insuficiente para o que a gente precisa, especialmente sabendo que, no Brasil, a vacinação é praticamente a única ação para reduzir o impacto da epidemia. Tudo o que era previsto num cardápio mais amplo de atividades foi descartado ou sabotado pelo governo federal.

Acho que ainda temos a possibilidade de segurar um pouco mais o uso de máscaras, por exemplo. Assim como as restrições aos grandes eventos. Agora, estamos vendo toda uma polêmica sobre as festas de fim de ano e sobre o período de férias até o carnaval…

Essa é uma questão que vai além do governo federal. Governadores, como o de São Paulo, e prefeitos de diferentes cidades estão querendo retirar medidas de restrição.

Exatamente. Talvez a emergência desta nova variante, a Ômicron, sirva também para acender algumas luzes de alerta para governadores e prefeitos. O governo federal também já tem expressado essa vontade de retirar restrições. É, na verdade, o presidente da República. Não dá pra gente levar em conta as opiniões dos subalternos porque acabam não se concretizando.

A opinião do ministro da Saúde não é levada em conta.

A gente viu ao longo dessa crise que uma condição sine qua non para o ministro da Saúde continuar no cargo é que ele se curve a todas as determinações do presidente da República. O Ministério da Saúde continua ausente como liderança, ausente como coordenação e quem se expressa é o presidente. Ele fala que não é preciso usar máscara, que as pessoas devem levar a vida normalmente, “tocar” a economia…

Ele fez algum comentário sobre o carnaval, mas me parece que foi mais pensando em atrair votos de religiosos do que pensando em precaução. E isso pesa muito. Mesmo que governadores tenham iniciativa própria, a população escuta quem está se colocando e, por mais que nós não gostemos disso, o presidente ainda tem muitos seguidores. Então, o conjunto de coisas que poderia ser feito para melhorar a segurança das pessoas e para reduzir a pressão de transmissão, está sendo feito de maneira irregular e pode piorar.

A tendência é o relaxamento e a abertura. Por isso, as vacinas acabam sendo um instrumento ainda mais importante porque nelas estão depositadas nossas esperanças de superação da crise.

Se aparecer uma nova variante que tenha alto poder de transmissão e que seja mais resistente diante das vacinas, não contamos com ações do governo para impedir que se dissemine.

Exatamente. Olhando para essa variante Ômicron, a gente ainda tem muitas incertezas. É nossa obrigação pensar no pior cenário e nesse caso podem ocorrer três coisas ruins – poderiam acontecer até mais.

Uma é que a variante não seja contida pelas vacinas que estão em uso ou ainda que haja alguma limitação do poder das vacinas para prevenção. A gente deve se preocupar com isso porque alguns dos casos identificados foram de infecção em pessoas vacinadas. A segunda é que ela seja mais transmissível. Ou seja, o vírus pode se multiplicar numa velocidade maior, infectando mais pessoas e gerando uma expansão mais rápida.

Aparentemente, isso tem uma grande chance de acontecer também porque – por enquanto só se observou isso em curvas feitas nos casos identificados na África do Sul – nas regiões onde houve a identificação desses casos poderia ocorrer uma subida muito rápida do número de pessoas com infecção.

Isso leva a crer que o vírus possa se espalhar numa velocidade ainda maior do que essas duas últimas linhagens que se espalharam, a Delta e a Gama, e causaram uma piora na tragédia.

A terceira coisa é o efeito do vírus sobre a pessoa. Será que o comportamento da doença muda quando esta variante entra? Isso a gente ainda não sabe. Existem alguns indícios de que não, a doença não é pior, que pode até ser um pouco mais branda. Mas isso ainda é uma interrogação.

Se essas três coisas se confirmarem, iríamos viver novamente o que passamos nos meses de março e abril. Uma situação que ninguém gostaria de assistir de novo. Mas a gente tem esperança em dois pontos, principalmente: que a vacina previna e que a doença não seja mais grave, especialmente, em pessoas vacinadas.

Sobre a chegada do final do ano, em 2020 tivemos aglomerações e depois uma tragédia no país. E agora que a situação parece estar um pouco melhor, qual é a orientação?

Ao contrário dos eventos da política e da sociedade, no caso da pandemia a história se repete e se repete como tragédia. A gente ainda não tem elementos para saber se é a mesma história, mas esse clima atual lembra muito o do ano passado. 

O comportamento da doença foi piorando ao longo do primeiro semestre, depois melhorou razoavelmente na metade do segundo semestre do ano passado. Tem um certo paralelo com este ano. Da mesma forma, aquilo que aconteceu de ter curvas de ocorrência da doença na Europa e na América do Norte que depois se reproduziram aqui com semanas ou dois, três meses de defasagem, pode acontecer novamente.

A gente não sabe. E aquilo o que aconteceu quando a situação melhorou, que tudo foi empurrado para a normalidade, também está se repetindo.

Então, a gente fica numa posição de “profeta do apocalipse” que embora seja indesejável, é uma posição obrigatória para quem trabalha em controle de doenças. Precisamos pensar no que de pior pode acontecer, mas não são situações que exigem um grande esforço de imaginação.

Não vamos precisar reproduzir exatamente o que aconteceu no ano passado em que a recomendação era para que as pessoas só convivessem com quem vive na mesma casa. Ainda que quiséssemos fazer isso, não seria viável. Mas não é desejável que as pessoas participem de grandes festas.

Acho que uma coisa é juntar a família mais próxima para as comemorações, com todos vacinados e sem ser efusivo demais. E é importante que ao estar em locais públicos, como o transporte, utilizar uma máscara de qualidade que ofereça uma proteção razoável. Não pode é festa em recinto fechado e as pessoas sem máscara, bebendo, cantando e rindo.

Aqui no Brasil e em outros países estão sendo aplicadas as doses de reforço das vacinas. Essa deveria ser a prioridade ou as vacinas excedentes deveriam estar sendo enviadas a países que sofrem com escassez?

Essa resposta não é simples. Claro, vale a máxima que tem sido repetida pelo diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, pela diretora da Unesco, entre outras personalidades, de que enquanto todos não estiverem protegidos, ninguém estará protegido.

Essa é uma boa frase e ela não poderia ser mais verdadeira. E aí há uma série de motivos para que o acesso dos países pobres esteja restrito. Tais motivos não começam com a extensão da indicação da vacina, mas com as reservas de vacinas feitas pelos países ricos que têm estoques grandes de imunizantes.

Mas vamos seguir e comparar, primeiro, pensando em escala mundial. É verdade, deveria ser prioridade fornecer vacina aos segmentos mais vulneráveis e expostos da população no mundo inteiro do que concentrar uma vacinação nos países ricos.

No entanto, tem que pesar algumas outras coisas. Vamos supor que nós tivéssemos uma estrutura de planejamento centralizada no mundo para definir as prioridades.

Certamente haveria como prioridade vacinar os profissionais de saúde no mundo todo, os idosos, o que já seria um desafio enorme, mas não tão grande porque os países mais pobres têm a população mais jovem.

E teríamos que começar a pesar diferentes variáveis. Uma delas, certamente, seria como está a taxa de infecção em cada país e como está a mortalidade por Covid em cada nação.

Isso subverteria um pouco a ideia geral de que é preciso democratizar e distribuir com igualdade a vacina. É preciso considerar que hoje os EUA continuam sendo o país com o maior número de casos e o maior número de mortes.

Eles continuam com mais de mil mortes por dia. O Brasil é o segundo país no número total de mortes e o terceiro em número de casos acumulados. Depois, vem a Índia como segundo em número de casos e terceiro em número de mortes. Seria necessário um esforço para saber qual indicador escolher, se pelo histórico ou pela situação atual.

A Alemanha chegou em número muito alto para eles, 400 e poucas mortes em apenas um dia, algo que não tinha sido alcançado desde fevereiro. Na Rússia, o número de casos está subindo. Olhando para a África, a situação ainda não é tão crítica. Vários países africanos estão com uma incidência no número de mortes…

Claro, existe subnotificação, existem problemas com dados, mas trata-se de algo que é um centésimo do que está acontecendo no Brasil. Não é para confiar nesses dados, mas é para tê-los como referência. Se pensarmos a África mais ao Sul do deserto do Saara, não tem hospitais, não tem estrutura de atendimento, de informação, nem de vacinação ágil. O espalhamento da doença nesses países significará uma catástrofe ainda maior. Então, é muito difícil ter um critério único.

Em síntese, acho que deveria ser prioridade oferecer vacinas para os segmentos do mundo inteiro antes de começar com reforço e vacinação de adolescentes. Mas não é um absurdo fazer reforço e fazer vacinação de adolescentes. Os países que estão fazendo isso estão realmente sofrendo consequências graves da pandemia.

Na Europa, países como Alemanha, Holanda e alguns outros que têm taxas de imunização altas estão sofrendo um repique da epidemia. Por qual motivo isso ocorre? É decorrente, simplesmente, da retiradas das restrições?

Eu não sei dizer. Uma razão, sem dúvida, ficou demonstrado em vários artigos que as medidas de lockdown funcionam. As medidas de restrição de circulação funcionam. Elas funcionaram na Europa quando ainda não tinha vacina.

Aquela primeira catástrofe europeia que aconteceu na Itália foi contida com lockdown, embora tenha demorado a acontecer. A Alemanha conseguiu segurar com lockdown. Assim como vários outros países. As pessoas passaram a ter um comportamento mais descuidado, digamos assim. Abandonaram as restrições e, com isso, naturalmente, todo mundo tem mais contato próximo com outras pessoas. E isso facilita muito a transmissão.

Uma outra possibilidade que tem se aventado é que, já tendo passado um período de 6 a 8 meses do início da vacinação, já esteja acontecendo uma perda de imunidade. Isso traz novamente a questão da dose de reforço.

Só existem estudos consistentes sobre a necessidade da dose de reforço para pessoas acima dos 65 anos de idade e aquelas que têm problemas imunológicos.

Mas, provavelmente, isso se aplica a uma parcela importante da população. É possível que a gente esteja também fazendo reforço em pessoas que talvez tivessem uma chance muito pequena de desenvolver a forma grave da doença porque tomaram a vacina antes, mas a gente não sabe.

Sabemos que o número de mortes não subiu na mesma proporção que o número de casos, mas também subiu. A Alemanha esses dias exportou pessoas para serem internadas na Itália, coisa que não tinha acontecido até agora. O movimento tinha sido o inverso.

Isso significa que os casos graves também estão subindo, mas talvez seja em pessoas não vacinadas. Esse é um problema dessa situação que a gente tem, de uma cobertura vacinal que ainda não é grande coisa ao mesmo tempo em que a imunidade pode estar caindo nas pessoas que já se vacinaram.

O efeito disso é que o vírus volta a circular mais, aumenta o número de casos de forma geral e entre aquelas pessoas que não receberam a vacina aumenta também o número de casos graves e de mortes.

Existe uma questão que vem ganhando força ao redor do mundo que é do negacionismo e dos movimentos anti-vacina. Isso existe na Alemanha, nos EUA e em outros países. Por outro lado, no Brasil, existe uma taxa muito alta na população com intenção de se vacinar. Parece que o SUS está vencendo o negacionismo. Seria resultado da cultura de saúde pública existente no Brasil?

Temos um programa de imunizações que vai completar 50 anos. Ele foi iniciado até antes do SUS. É um programa que o mundo inteiro tem inveja, de verdade. Não é figura de retórica. É o maior programa público de imunizações do mundo. Claro, tem países que oferecem algumas vacinas que não são oferecidas aqui. Mas não para essa quantidade de gente. Tem países mais populosos, mas nesses locais o sistema de saúde não alcança e não tem a integralidade que tem o SUS.

Eu acho que o Sistema Único de Saúde foi a nossa grande balsa de salvação em relação a essa tragédia que vivemos. O programa de imunizações, além de interferir na cultura, também é reflexo disso. Sempre tivemos uma população receptiva a vacinas. Isso se expressa num programa de imunizações que tem uma boa implantação.

Agora, temos uma série de coisas preocupantes ocorrendo e vou apontar duas aqui que considero importantes.

Uma é que nós nunca tivemos tanto negacionismo no Brasil como temos agora. Isso é preocupante porque embora esse patrimônio seja muito importante, o movimento negacionista vem crescendo. Isso acontece de forma diferente do que ocorre em outros países — e voltarei a isso em seguida.

A outra coisa importante é que este governo abandonou, deixou completamente de lado as campanhas de informação. Essa é uma dificuldade que a gente tem vivido. O nível de desinformação é muito grande. As pessoas vão atrás de vacina, justamente, porque têm essa cultura.

Mas quando ouvem alguma coisa diferente — “Olha, o tio do vizinho do meu cunhado ficou de cama por causa da vacina” e a reação é “opa, já não sei se vou tomar vacina”. E o presidente falou que a vacina não é segura, que ela está sendo testada…

Conheço o caso de uma pessoa que quase não se vacinou porque foi adicionada em um grupo de mensagens do Telegram no qual só se falava mentiras sobre os riscos de se tomar a vacina.

Isso é importante. Para que se tenha uma ideia, dentro da Fiocruz temos tido que conversar pessoalmente com pessoas e até pressionar realmente, porque tem gente que não quer se vacinar. Encerramos agora um grande curso de especialização e tinha gente, profissional da saúde, dedicado à saúde pública, resistindo à vacina. Então, isso vai longe.

É uma coisa que está sendo muito impressionante porque não existia no Brasil ou existia de forma muito localizada.

Havia os casos de desinformação absoluta em que a pessoa não sabia nem que existia vacina ou algo muito localizado, ligado à homeopatia, à antroposofia, a algumas linhas de pensamento – que eu não vou qualificar –, mas que não veem com bons olhos as vacinas.

Mas isso é uma coisa mínima, de classe média alta alternativa ali de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Era uma coisa totalmente secundária.

Mas isso agora está sendo difundido. E não temos o que sempre aconteceu nas campanhas de vacinação que é ter a televisão explicando e chamando as pessoas. Quem vai tomar a vacina hoje, a não ser que esteja muito claro que é alguém dos chamados grupos de risco, fica em dúvida se pode tomar o imunizante.

Vemos muitos casos de pessoas falando mal de uma determinada vacina ou outra e saindo em busca da marca da vacina que consideram a melhor. Além disso, acontece de a pessoa chegar no posto de vacinação e não ser o dia dela porque ali está ocorrendo aplicação de dose de reforço em idosos e não há disponibilidade para aplicação de primeira dose.

Essa pessoa já perdeu o dia de trabalho, não conseguiu se vacinar e pode acabar ficando mais resistente à ideia de ser vacinada. Supondo que consiga se vacinar, em geral não tem recebido grande orientação porque os postos estão sobrecarregados.

Não foi feito qualquer material instrutivo e nem houve reforço das equipes – muitos locais estão trabalhando com voluntários, principalmente, com estudantes de Medicina.

A pessoa que se vacinou sai do posto com um papelzinho que tem uma data, pode ser que guarde, mas tem uma chance enorme de esquecer de tomar a segunda dose. Isso parece uma coisa secundária, parece que não faz diferença se o Zé Gotinha aparece ou não na TV. Mas faz uma diferença enorme para orientar as pessoas quanto ao que elas devem fazer, onde, como e quando. A população está abandonada nesse aspecto.

Na sua opinião, a Justiça deve responsabilizar Bolsonaro pela tragédia que o Brasil vive na pandemia?

Já deveria ter feito isso. Infelizmente, temos um procurador-geral da República indicado por este presidente, possivelmente, com uma tarefa de ser brando ou de protegê-lo, como parece acontecer.

A CPI, na minha opinião, além do que levantou e do que pode ter consequências formais, já teve repercussão importante obrigando o governo a agir. A situação de passividade estava tão escandalosa que não era possível alguém chegar na CPI e dizer que “ah, isso é assim mesmo”.

Os representantes do governo foram lá se desculpando dizendo que antes não tinha determinada coisa, mas que “agora tem e vai ter mais ainda”. Não tivesse aquele palco, talvez não acontecesse, talvez não tivessem sido adquiridas as doses adicionais de vacinas que foram, talvez não tivesse havido mobilização para isso.

Mas a CPI, até o momento pelo menos, não conseguiu resultar nas punições que deveria. O Ministério Público poderia ter acelerado esse processo de forma importante. Espero que ainda aconteça porque essa não é a última tragédia que a gente vai viver e nós ainda não estamos perto do fim dela.


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