Semana On

Terça-Feira 17.mai.2022

Ano X - Nº 487

Poder

Na contramão do mundo: ‘Quem acredita na vacina, parabéns’, ironiza Bolsonaro

Presidente voltou a atacar a ciência e o bom senso: ele precisa ser contido

Postado em 10 de Dezembro de 2021 - Pragmatismo Político, Ricardo Noblat (Metrópoles), Leonardo Sakamoto (UOL) – Edição Semana On

Imagem: Adriano Machado/Reuters Imagem: Adriano Machado/Reuters

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O presidente Jair Bolsonaro (PL) voltou a subir atacar a ciência e o bom senso ao criticar as vacinas anticovid, todas com eficácia e segurança comprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Mesmo sem provas, Bolsonaro falou em “lobby das vacinas” e criticou a demissão de funcionários que optaram por não se imunizarem contra a covid-19 – segundo o presidente, é preciso ter “respeito” com quem não quis se vacinar.

“Vejo alguns políticos… Tem uns sérios, preocupados com a vida do próximo, será? Ou está preocupado, pelo que parece, não tem como comprovar, com o ‘lobby das vacinas’?”, disse o presidente, durante sua live semanal. “Respeita quem não quer tomar. Por que essa obrigação? Quem acredita na vacina, parabéns. Nós demos vacina a vocês”, afirmou.

Bolsonaro também parabenizou os deputados estaduais de Rondônia, que aprovaram um projeto vetando a possibilidade de implementação de um passaporte de vacinação. Ele aproveitou para alfinetar o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), pela possibilidade de demitir funcionários públicos que não se vacinarem.

“Estou vendo que, em São Paulo, o governador está na iminência de baixar um decreto no tocante de [demitir] quem não tiver comprovante vacinal. Que negócio é esse? E o direito da pessoa de não querer se vacinar? E essas pessoas vão ser condenadas a quê? Vão ser marginais?”, questionou Bolsonaro. “Fazer um serviço que não está de acordo com sua formação moral? Que medidas são essas?”

Bolsonaro nada aprendeu com a pandemia e nada esqueceu

Era preciso salvar a Economia para que o presidente Jair Bolsonaro não perdesse as chances de se reeleger, foi o que ele mesmo disse. E o caminho indicado para isso seria deixar que o coronavírus se alastrasse, contaminando os mais vulneráveis a doenças. Que morressem os que tivessem de morrer.

Esse filme já passou, matando quase 620 mil brasileiros até agora. Mas o presidente, pelo visto, nada aprendeu com isso. Bolsonaro quer mudar a lei e restringir ao governo federal o poder de tomar decisões sobre o chamado passaporte da vacina. Para quê? Para evitar que estados e municípios o adotem.

De novo, teme que haja estragos na Economia e comprometa seu futuro político. Daí o desprezo pela vida humana mais uma vez destilado por Bolsonaro. Na última quinta-feira, ele repetiu: “Você nunca viu o governo federal obrigar a tomar vacina. E nem vai ver o governo federal exigir passaporte vacinal”.

E voltou a defender a teoria descartada pelo resto do mundo de que a contaminação em massa é a maneira ideal de combater o vírus:

“Quer melhor vacina, comprovada cientificamente, do que a própria contaminação? E qual a validade de cada vacina? Vale por quantos meses? Parece que há um interesse de vender cada vez mais”.

De uma só tacada, o presidente prega a imunidade coletiva do rebanho, desacredita a eficácia das vacinas e sugere que interesses inconfessáveis estão por trás de sua compra e venda. Governadores e prefeitos seguem sendo tratados como inimigos:

“Eu poderia partir para uma vacinação obrigatória, mas jamais faria isso, porque, apesar de vocês não acreditarem, defendo a verdade e a democracia. Agora, não pode dar para prefeitos e governadores essa liberdade. Alguns já estão ameaçando demitir”.

Pesquisa feita pela Info Tracker, plataforma de dados da Universidade de São Paulo e da Universidade Estadual Paulista, aponta que 79,7% das pessoas que morreram de Covid-19 no Brasil entre março e novembro deste ano não receberam nenhuma dose de vacina.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária acha que se deve cobrar o certificado de vacinação para liberar a entrada de pessoas no Brasil. Representantes do Ministério da Saúde tentam convencer Bolsonaro de que é vantajoso exigir o comprovante de vacinação.

Em breve, provocado por ação do partido Rede Sustentabilidade, o Supremo Tribunal Federal tomará decisão a respeito. Será uma nova oportunidade para que Bolsonaro alegue que a justiça não o deixa governar em respeito à vontade dos que o elegeram.

Prioridade de Queiroga é agradar Bolsonaro. A saúde do país? Que se exploda

Quando Marcelo Queiroga assumiu o Ministério da Saúde houve quem suspirasse aliviado com a vinda de um médico para suceder a tragédia chamada Eduardo Pazuello. Avisamos, porém, que qualquer pessoa que aceitasse o cargo depois da sabotagem explícita de Jair Bolsonaro no combate à pandemia é porque concordava com ele ou aceitaria ser marionete. Dito e feito.

Queiroga fez uma coletiva à imprensa no último dia 7 para informar que o governo federal iria dar uma banana à Anvisa, que recomendou exigir um certificado de vacinação para quem entrasse no Brasil. No lugar, cobraria um teste e uma inviável quarentena de cinco dias para os não-vacinados.

Por razões ideológicas, rifou a vida de brasileiros, fazendo com que o país seja uma espécie de meca do turismo dos não-vacinados. Venham a nós, negacionistas e terraplanistas biológicos, que o Brasil quer a sua variante de coronavírus.

"Essa questão da vacinação, como realcei, tem dado certo porque nós respeitamos as liberdades individuais. O presidente falou agora há pouco: 'às vezes, é melhor perder a vida do que perder a liberdade'", afirmou, relembrando um dos muitos bordões-aberração que o presidente criou na pandemia.

Seria melhor o doutor ter mostrado ao Brasil o mesmo dedo do meio que entregou, surtado, a manifestantes que protestavam contra o governo em Nova York. Seria mais direto.

O que leva uma pessoa que prometeu, sob o juramento de Hipócrates, "nunca causar dano ou mal a alguém", mandar tudo às favas? No caso de Queiroga, amar mais ao cargo do que a vida de seus semelhantes. Ele adula o presidente da República, mostrando-se ideologicamente alinhado, para se manter sob suas graças, garantindo um gabinete com vista para a Esplanada dos Ministérios, carro oficial, apartamento funcional e assessores sempre girando suas maçanetas.

O governo Bolsonaro tem uma coleção dessas diminutas biografias, que fazem de tudo para permanecer onde estão porque sabem que nunca conseguirão nada melhor do que o posto que ocupam. Por exemplo, o ministro da Economia Paulo Guedes leva sistematicamente passa-moleque do presidente, sendo desautorizado em público, mas diz amém no final porque, provavelmente, acredita que não terá outra chance igual.

Em nome de uma cruzada pela "liberdade individual de não se vacinar" e, consequentemente, "pelo direito de continuar infectando outras pessoas", Jair Bolsonaro se nega a exigir um passaporte de vacinação. Sabe que quanto mais distorcer a compreensão de direitos e deveres e de riscos à saúde pública, mais irá gerar admiração entre a turma do "cada um por si e Deus acima de todos".

E que quanto mais agredir a ciência, mais provocará suspiros entre os seus seguidores negacionistas. Isso atua no fortalecimento de sua relação com seus seguidores, que serão fundamentais para a guerra da campanha eleitoral do ano que vem.

Queiroga já disse ser "absolutamente contrário" às leis que obrigam o uso de máscaras e fez uma comparação estapafúrdia com a obrigatoriedade de usar preservativos. Também suspendeu a vacinação de adolescentes após redes bolsonaristas bombarem mentiras sobre mortes de jovens; bloqueou a aprovação de novo protocolo para tratamento de covid-19 que orienta a não utilização de cloroquina, ivermectina e azitromicina; deu corda para o negacionismo de Bolsonaro, não raro, justificando-o. É a alegria dos fãs do presidente.

Uma das maiores cascatas contadas sobre o governo Jair Bolsonaro é a de que ele conta com uma área técnica que se contrapõe a uma área de extrema direita. Ministros como Queiroga são a prova de que não há dois grupos, mas um só. O que muda é a quantidade de purpurina que jogam em cima de um deles para disfarçar.

Converter negacionistas da vacina se tornou um ato de repúdio a Bolsonaro

Se oito em cada dez pessoas que morreram de covid-19 no Brasil não receberam nenhuma dose de vacina, como aponta reportagem do UOL do último dia 5, por que precisamos insistir tanto em vacinar quem parece não se importar? Trago cinco razões pelas quais vale a pena não desistir.

Primeiro: nem todos os que não foram imunizados são negacionistas. Muita gente aceitaria com prazer a dose com um pouco mais de informação. Infelizmente, o governo gastou mais recursos em promover a nova cédula de R$ 200, aquela do lobo-guará, do que em campanhas de prevenção de covid. Por sorte, grande parte da sociedade aprendeu ao longo de décadas com o Programa Nacional de Imunizações do SUS que vacinar é bom. E temos até negacionista que faz "vacina crítica" - leva a dose e reclama.

Segundo: as vacinas reduzem drasticamente a chance de morte por covid-19 e significativamente a chance de contaminação, mas não zera. Se o vírus continua circulando intensamente em uma comunidade, há probabilidade de vitimar vacinados mais frágeis. Nunca é demais ressaltar, portanto, que se vacinar também é um ato de solidariedade com os que contam com a saúde mais vulnerável.

Terceiro: apesar do sucesso da vacinação até aqui, com municípios com praticamente todos os adultos vacinados, como São Paulo, o Brasil ainda está em um patamar de 75% da população tendo recebido a primeira dose e 64% com imunização completa. É necessário mais, bem mais, para evitar que o vírus continue infectando e criando mutações, as chamadas variantes, que mais cedo ou mais tarde podem tornar vacinas sem efeito.

Aliás, a parte rica do mundo correu para imunizar apenas os seus, deixando de lado a parte mais pobre. O problema é que regiões com baixa ou nenhuma vacinação, como a maior parte dos países africanos, atuam como usinas de variantes. E variante não respeita restrições de fronteiras e vão atingir os ricos, como aconteceu com a ômicron.

Quarto: apesar de o presidente da República se esforçar para criar um país no estilo "cada um por si e Deus acima de todos", a República refundada com o fim da ditadura militar decidiu ter a fraternidade como um de seus nortes, como afirmado no preâmbulo da Constituição Federal de 1988. Mesmo que os negacionistas não tenham fé na ciência precisamos ter fé que a capacidade de reflexão humana leve parte deles a rever seus conceitos e se vacinar. Pelo seu próprio bem.

Uma pessoa que acredita, por exemplo, que uma vacina desenvolvida na China carrega chips 5G por conta de uma conspiração envolvendo cavaleiros templários, intelectuais illuminati e bilionários comunistas, ou crê em mentiras como o imunizante da Pfizer ser capaz de transformar pessoas em jacarés, fazer crescer barba em mulheres, matar adolescentes e provocar Aids, é porque foi vítima de um intenso processo de desinformação e manipulação.

Abandoná-los à própria sorte seria abraçar os valores que guiam o comportamento do presidente traduzidos em sua icônica frase "Eu lamento todos os mortos, mas é o destino de todo mundo".

E, por fim, quinto: Por tudo o que foi exposto, tentar convencer quem não acredita em vacina usando números e informações, de forma tranquila e educada, convidando-os a protegerem a vida, é um ato de fé na humanidade e na República e um ato de repúdio à necropolítica de Bolsonaro. Afinal, o "ninguém larga a mão de ninguém" inclui também quem pensa diferente.


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