Semana On

Quarta-Feira 10.ago.2022

Ano X - Nº 499

Poder

Bolsonaro volta a atacar a Justiça e desafia Moraes a mandar prendê-lo

Departamento de blindagem tornou-se a repartição mais eficiente do governo

Postado em 10 de Dezembro de 2021 - Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On

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Quem acreditou na variante moderada de Bolsonaro que surgiu depois do surto antidemocrático do feriado de 7 de Setembro fez papel de bobo. Bolsonaro voltou a alfinetar numa entrevista os seus desafetos no Supremo: Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso. Classificou como "violência" as ordens de prisão emitidas por Moraes contra bolsonaristas como o pseudojornalista Allan dos Santos, o suposto caminhoneiro Zé Trovão e o ex-deputado golpista Roberto Jefferson. Bolsonaro tachou de "abuso" a decisão de Moraes de abrir inquérito contra ele por ter declarado numa live que os vacinados contra Covid ficam propensos a contrair o vírus da Aids.

As falas de Bolsonaro soaram numa entrevista a um programa do jornal Gazeta do Povo, exibido no YouTube. No trecho em que criticou Moraes por mandar prender seus apoiadores, Bolsonaro falou como se desafiasse o ministro a emitir uma ordem de prisão contra o presidente da República: "Ele está no quintal de casa. Será que ele vai entrar? Será que ele vai ter coragem de entrar? Não é um desafio para ele. Quem tá avançando é ele, não sou eu."

Aborrecido com o pedido de explicações de Luís Roberto Barroso sobre a "inércia" do governo diante do avanço da Ômicron, nova cepa do coronavírus, Bolsonaro insinuou que o ministro trama exigir "numa canetada só" o comprovante de vacina aos viajantes que chegam ao Brasil. Insinuou que foi por isso que o governo decidiu editar a portaria que condiciona a entrada dos não vacinados no país à quarentena de cinco dias. Bolsonaro revelou ter participado da parte final da reunião em que a portaria foi discutida. Esboçou um sorriso com o canto da boca ao falar de quarentena.

Fica entendido que aquele Bolsonaro moderado da carta de desculpas escrita por Michel Temer 48 horas depois dos arroubos de 7 de Setembro era apenas uma versão teatral encenada para retirar um presidente golpista das cordas. O capitão chamara Moraes de "canalha" e Barroso de "farsante". Parece não ter mudado de opinião. Talvez precise de uma segunda dose do tranquilizante Temer. O prazo de validade da primeira dose está vencido.

Departamento de blindagem tornou-se a repartição mais eficiente do governo

À espera de ser inocentado no inquérito que apura o aparelhamento político da Polícia Federal, Bolsonaro tomou gosto pelo uso da máquina do Estado. Todos os dias surgem novas evidências de que o presidente acha que o governo é dele e não abre mão de usá-lo como bem entender. A penúltima evidência de que o presidente usa e abusa da estrutura do Estado é o esquema montado no Ministério da Justiça para retardar a extradição de Allan dos Santos, blogueiro de estimação de Bolsonaro e dos seus filhos.

Notório difusor de notícias falsas, Allan dos Santos tornou-se um foragido nos Estados Unidos depois que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, emitiu contra ele, em outubro, uma ordem de extradição. A determinação judicial foi tocada no Ministério da Justiça na velocidade de uma tartaruga com Covid. Pessoas que esboçaram a intenção de fazer o processo andar foram admoestadas ou afastadas.

Chegou-se, então, a uma situação inédita. Sob supervisão do Supremo, a Polícia Federal, subordinada ao Ministério da Justiça, pôs-se a investigar um assessor do titular da pasta, Anderson Torres. Chama-se Vicente Santini. Comanda a Secretaria de Justiça. É acusado de criar embaraços à repartição incumbida de tocar a ordem de extradição junto com o Itamaraty, o Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Internacional (DRCI).

O ministro Torres e o assessor Santini têm algo em comum. Ambos são amigos dos filhos do presidente. E devotam a Bolsonaro uma fidelidade canina.

Se fosse isolado, o episódio envolvendo Allan dos Santos já seria gravíssimo. Mas o intervencionismo de Bolsonaro deixou de ser um fenômeno isolado. Hoje, o órgãos mais eficiente do governo é o Departamento de Blindagem. Não consta de nenhum organograma oficial, mas tem ramificações em todos os recantos da administração federal.

Para proteger Bolsonaro, os filhos e os amigos, o staff da blindagem da age nos gabinetes dos ministros da Justiça e da Economia, na Polícia Federal, na Receita Federal, no Coaf, no DRCI e onde mais for necessário. Tudo isso com a cumplicidade da Procuradoria-Geral da República e a complacência do Supremo.

 


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