Semana On

Domingo 23.jan.2022

Ano X - Nº 475

Poder

Bolsonaro X Moro parece uma briga de gambás

O presidente é o melhor cabo eleitoral que o ex-juiz poderia ter

Postado em 03 de Dezembro de 2021 - Josias de Souza e Leonardo Sakamoto (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles) – Edição Semana On

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Houve um tempo em que Sergio Moro enxergava em Bolsonaro um defensor da Lava Jato e o capitão via no ex-juiz de Curitiba as qualidades de um superministro da Justiça. Hoje, os dois informam que consideram um ao outro pessoas de baixíssima qualificação. Ainda não notaram. Mas a troca de ataques oferece à plateia um festival de autodesqualificação.

Bolsonaro dedicou seis minutos de sua live a Moro. Chamou seu ex-ministro de "palhaço" e "mentiroso". Disse que ele "não tem caráter". Horas antes, numa entrevista concedida a proposito do lançamento do seu livro, Moro dissera que o ex-chefe, em vez de ajudá-lo no esforço para restabelecer a regra que permitia a prisão de condenados na segunda instância, festejou a libertação de Lula por achar que isso lhe renderia dividendos políticos.

"Mentiroso deslavado", respondeu Bolsonaro. O capitão fez uma pergunta típica dos grandes professores: "Aprendeu rápido a velha política, hein, Moro?" Bolsonaro jogou no ventilador a Vaza Jato, calcanhar de vidro de Moro. A certa altura, a pretexto de rebater a acusação de que se rendeu à velha política, Bolsonaro perguntou, estalando de cinismo, se Moro não sabia que grupo político ele integrou antes de virar presidente. "Como se todo mundo do Centrão não prestasse", disse.

Essa troca de ofensas é muito didática. É como se os dois contendores, depois de andar de mãos dadas descalços, se dedicassem a plantar espinhos no caminho um do outro. O problema de uma discussão de duas pessoas que acham que o outro não cheira bem é o mesmo de dois gambás que decidem brigar. Mesmo quem ganha a briga sai fedendo.

Bolsonaro é o melhor cabo eleitoral que Moro poderia ter

Desde o início do governo, o presidente Jair Bolsonaro fazia tudo errado e dava certo para ele. A partir de certo momento, tudo o que fazia de errado começou a dar errado. Estão aí as pesquisas de opinião e de intenção de voto que não deixam mentir.

O ex-juiz Sergio Moro filiou-se ao Podemos e admitiu disputar a vaga de Bolsonaro. Em pouco mais de 10 dias, apareceu nas pesquisas à frente de Ciro Gomes (PDT), até então o terceiro colocado, mas ainda há muita distância de Bolsonaro.

O que faz o presidente? Contraria as mais elementares regras do marketing político, despreza o conselho dos que ainda insistem em aconselhá-lo, e parte para cima de Moro armado de pau, pedra e desaforo. Ora, só quem tem a ganhar com isso é Moro.

Ganha espaço na mídia, nas redes sociais, nas conversas de botecos, nas trocas de ideias no interior das famílias, e reforça sua posição de aspirante a candidato nem, nem – nem Bolsonaro, nem Lula. É tudo o que Moro quer e precisa. Para Bolsonaro, é ruim.

É prova de que nenhum outro candidato o ameaça mais do que Moro. É também o que mostram as pesquisas. Eleitor de Lula não vota em Moro nem para impedir a reeleição de Bolsonaro. Eleitor de Bolsonaro descrente dele vota em Moro, sim.

Bolsonaro não sabe disso? Está exausto de saber, mas… Falta-lhe inteligência emocional. Calcula que batendo em Moro vai segurar o apoio dos direitistas mais radicais e credenciar-se ao segundo turno. Deixa Lula em paz porque prefere enfrentá-lo.

Pode acontecer o contrário. Não é certo que Moro continuará amealhando pontos e que acabará por ultrapassar Bolsonaro. Mas com a ajuda do próprio, quem sabe? Chamar Moro de mentiroso é reavivar a lembrança das mentiras que Bolsonaro já pregou.

E, nesse quesito, Bolsonaro é imbatível. Não é sem razão que mais de 60% dos brasileiros dizem simplesmente não acreditar no que ele fala.

Moro nega culto à sua personalidade mesmo após se vender como novo Messias

Moro afirmou que nunca incentivou "qualquer culto à sua personalidade" em entrevistas ao jornal Folha de S.Paulo e à revista Crusoé por ocasião do lançamento de seu precoce livro de memórias, aos 49 anos. Apesar disso, adotou um discurso em que se vende como sucessor do Messias, afirmando que a sua candidatura é "um chamado, uma missão" e que seu nome está à disposição "para liderar um projeto que pretende ser de muitos".

Após afirmar que Lula e Bolsonaro se apresentam como uma "ideia" ou um "mito", Moro avaliou que, por outro lado, o discurso dele "apela muito mais à racionalidade do que a esse aspecto emocional". Mas não foi isso que aconteceu em 30 de junho de 2019, por exemplo. "Eu vejo, eu ouço", tuitou ele em meio a manifestações em defesa da Lava Jato convocadas por seus fãs em diversas cidades do país. Nelas, o boneco inflável gigante, com o corpo do Super-Homem e a cabeça do ex-juiz foi figura presente.

A sua declaração faz referência à passagem do livro de Êxodo, capítulo 3, versículo 7, em que diz que Deus estava vendo a aflição dos judeus no Egito e ouvindo seu clamor. Ressalte-se que eles eram seu povo escolhido. Na época, o detalhe foi captado pela reportagem da Jovem Pan.

O Êxodo tem pragas e recompensas, leis e punições, e um povo sofrido e humilhado que não é libertado por sua própria ação, mas que precisou de um líder que o retirasse da escravidão - ação que contou com intervenção divina. Cabe especular se Moro, ao parafrasear o versículo, viu a si mesmo como Moisés ou como Jeová.

O culto à personalidade pode passar pela ação da própria pessoa - atendendo a um desejo de poder ou por pura vaidade - mesmo que ela não reconheça isso. Naquele domingo, no ato que ocorreu na avenida Atlântica, no Rio, uma faixa dizia a Moro: "O senhor nos livrou das trevas", segundo registro da Folha de S.Paulo. O senhor não era o Deus cristão, mas Moro. O general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, chamou o ex-juiz e hoje ministro Sérgio Moro de "herói nacional", durante o ato em Brasília.

O problema é que heróis não recebem auxílio-moradia. Não são chamados de "doutor", nem ficam irritados se interpelados por jornalistas. Não encaram a si mesmos como infalíveis, nem aceitam infláveis, pois sabem que esse tipo de julgamento não lhes cabe, mas à História. Pedem desculpas, reconhecem seus erros, creem que são menos do que são e não o contrário. Não vazam conversas obtidas de forma ilegal para ajudar no impeachment de uma presidente, não aceitam escutas em escritórios de advogados, não divulgam conteúdos de processos que podem ajudar o candidato que depois lhe dará um emprego de ministro.

Se tivesse lido a bíblia até o livro de Eclesiastes, ele teria aprendido, já no capítulo 1, versículo 2, que "vaidade de vaidades, tudo é vaidade".

O catador de material reciclável Luciano Macedo foi assassinado, em abril de 2019, ao tentar ajudar a família do músico Evaldo Santos Rosa, executado quando seu carro ser fuzilado por militares, no Rio - eles teriam sido confundidos com bandidos, mas estavam indo a um chá de bebê. Os militares foram condenados em outubro deste ano - o que talvez não aconteceria caso o "excludente de ilicitude", ou seja, a impunidade de agentes de segurança que matam sob forte emoção, pauta defendida por Moro quando ministro, fosse a regra.

Se Luciano fosse juiz, militar ou político seria chamado de herói. Mas não se encaixava no perfil exigido para o panteão. Ao final, cada sociedade merece os heróis e mitos que constrói para si. Incluindo aqueles que se dizem imbuídos de uma missão para salvar o restante de nós, convocando a sociedade para segui-los.

Quando percebermos que os grandes exemplos e as histórias que realmente inspiram estão ao nosso lado e não acima de nós, o país vai deixar de acreditar na fábula de que precisa de alguém que o salve.


Voltar


Comente sobre essa publicação...