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Sexta-Feira 03.dez.2021

Ano X - Nº 470

Coluna

Povo Guarani Kaiowá homenageia cacique Nizio Gomes

Cacique foi assassinado há dez anos; até hoje a comunidade e seus familiares não sabem onde está o corpo de seu líder

Postado em 24 de Novembro de 2021 - Lídia Farias - Cimi

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Entre os dias 16 e 18 de novembro, o Tekoha Guayviri, em Aral Moreira (MS), esteve reunido com lideranças indígenas de outras 20 aldeias Guarani Kaiowá para homenagear o Cacique Nizio Gomes, assassinado em 18 de novembro de 2011. A comunidade e seus familiares vivem dez anos de angústia por não saber onde está o corpo de seu líder.

Em 2015, a mãe do Cacique Nizio pediu ao Conselho Nacional de Direitos Humanos que ajudassem a localizar pelo menos o “osso da cabeça do meu filho”, pois a família precisa queria dar a ele um enterro digno e de acordo com os rituais fúnebres do povo Guarani Kaiowá. A última imagem que ficou gravada na mente dos familiares do Cacique foi a dos seguranças da fazenda, ligados à empresa Gaspem – empresa de segurança conhecida na região pela violência contra as comunidades indígenas –, arrastando o corpo de Nizio e lançando-o na caçamba da caminhonete.

“Os pistoleiros arrastaram, jogaram ele lá e depois foram embora. Ficou no chão apenas o chapéu dele com buracos dos tiros e as marcas do sangue dele no chão, até hoje não sei onde está o meu avô”, afirma Jhonatam, neto que testemunhou o assassinato do avô em 2011.

Nizio e Odulha, sua esposa, eram conhecidos por todas as lideranças da Aty Guasu – Grande Assembleia Guarani Kaiowá – como um casal de rezadores em movimento, estavam sempre presentes em reuniões relacionadas à realidade dos Guarani Kaiowá. Mesmo com pouca compreensão do português, acompanhavam atentamente os ataques aos direitos de seu povo e dos demais povos indígenas do Brasil. Fizeram muitas viagens a Brasília, participaram de várias edições do acampamento Terra livre e outras atividades nacionais. Nizio era um homem de poucas palavras, mas de muitas risadas, característica peculiar do povo que ele pertencia, que enfrenta as dificuldades cotidianas e tantos desafios com alegria e esperança.

Além de homenagear o cacique de Guayviri, os participantes da atividade lembraram também do professor Rolindo Vera, liderança do Tekoha Ypoí que sofreu violência semelhante e que até hoje não teve o seu corpo localizado. Fica a pergunta: “onde está o corpo do cacique Nizio e do professor Rolindo? Queremos os seus corpos para velar de acordo com nossa cultura, queremos justiça por suas vidas e de todas as lideranças assassinadas na luta pelo seu tekoha”, reforça Otoniel Ricardo, liderança da Aty Guasu.

As ameaças aos direitos dos povos indígenas são constantes e se intensificarão de forma gradual neste governo, as investidas vão desde a negação do direito aos seus territórios tradicionais, através de projetos de lei, PECs e teses, como a do marco temporal, as perseguições religiosas que queimam casas de rezas e torturam rezadores e rezadoras tradicionais dos povos indígenas, como é o caso da aldeia Rancho Jacaré, que teve a casa de reza queimada por pessoas ligadas a igrejas neopentecostais no dia 20 de outubro de 2021.

Nos últimos dois anos quase uma dezena de casas de reza Guarani Kaiowá foram incendiadas, queimando não só as estruturas físicas de madeira e sapé, mas também afastando, segundo os indígenas, “os espíritos que protegem a comunidade”, ou seja, violências de profundidade imensuráveis na vida do povo Guarani Kaiowá. Nesta perspectiva, o Fórum Ecumênico ACT manifestou através de vídeo o apoio e solidariedade ao povo Guarani Kaiowá e reforçou a necessidade de respeito as religiões tradicionais dos povos.

Outras pautas relevantes foram abordadas pelas lideranças da Aty Guasu, dentre elas foram destacados os ataques que estão acontecendo contra a saúde indígena e a educação específica e diferenciada para o povo Guarani Kaiowá. A faculdade Intercultural Indígena (FAIND) também vem sendo alvo de ameaças, inclusive de encerramento de suas atividades, sob a alegação de contenção de gastos no governo federal.

Vale ressaltar que a FAIND incluiu na educação de nível superior mais de 400 indígenas, destes 250 já graduaram e 30 encontram-se na fase final da pós-graduação – mestrado Educação e Territorialidade. Indígenas e Camponeses compartilham experiências e as estruturas da FAIND, através dos cursos oferecidos pela LEDUC (Licenciatura em educação do Campo).

Com o coração cheio de memórias, danças e muita reza, os Guarani Kaiowá finalizaram a reunião em uma só voz gritando “não ao marco temporal! Demarcação Já!”


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