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Terça-Feira 07.dez.2021

Ano X - Nº 470

Poder

Carta branca do PL a Costa Neto não melhora muito a vida de Bolsonaro

'É igual à que Bolsonaro deu para o Moro'

Postado em 19 de Novembro de 2021 - Ricardo Noblat (Metrópoles), Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On

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Se arrependimento matasse, como ele mesmo admitiu a um amigo, Valdemar Costa Neto, presidente do PL, estaria morto. Foi um tremendo erro dele ter marcado para o próximo dia 22 a cerimônia de filiação de Jair Bolsonaro ao seu partido. Deveria tê-la empurrado para fevereiro ou março do próximo ano, assim daria menos tempo para que Bolsonaro aprontasse.

Costa Neto tem por escrito a decisão anunciada por Bolsonaro de filiar-se ao PL. Mas, sob pressão dos filhos, Bolsonaro recuou. Carlos Bolsonaro, vereador, mostrou-se contra porque a reação dos bolsonaristas nas redes sociais foi negativa, e advertiu o pai. Eduardo Bolsonaro, deputado federal, convenceu o pai a exigir o controle sobre o diretório paulista do PL.

Costa Neto estima que Eduardo será reeleito com 900 mil votos, muito abaixo dos 1.843.735 mil que teve em 2018.

Reunidos em Brasília, os presidentes dos diretórios regionais do PL deram carta branca a Costa Neto para fazer o que quiser.  Ninguém quer encrenca com ele, que investiu 40 anos de sua vida e a fortuna que tinha para montar o PL.

De resto, como único dono do partido, é ele quem manda no fundo eleitoral, sem o qual ninguém sobrevive para fazer campanha.

A carta branca é apenas a renovação de um compromisso com Costa Neto, elogiado por todos como um homem de palavra. Não significa que Costa Neto se curvará a todas as vontades de Bolsonaro. Longe disso.

Bolsonaro e Moro

Um dos espetáculos mais divertidos dos próximos dias será a observação das acrobacias que Valdemar Costa Neto, o dono do PL, fará para atrair Bolsonaro até o altar. Mantido pelo presidente em compasso de espera na escadaria da igreja, Valdemar obteve dos dirigentes estaduais do PL uma "carta branca" para negociar a filiação do presidente à legenda. Entre risos, um dos caciques regionais do partido disse que a carta branca do PL "é igual à que Bolsonaro deu para o Sergio Moro."

Os chefes estaduais do PL saíram da reunião que resultou no anúncio da carta branca com a coloração de suas opiniões inalterada. Bolsonaristas como o senador catarinense Jorginho Mello sustentam que, confirmando-se a filiação do presidente, nenhum correligionário fará alianças regionais que destoem do projeto nacional de reeleição. Gente como o deputado piauiense Fábio Abreu, aliado no seu estado ao governador petista Wellington Dias, fechado com Lula, diz ter confiança na preservação da autonomia dos diretórios estaduais do PL.

Um dos participantes da reunião do PL insinuou que Bolsonaro pode ser enfeitiçado com seus próprios feitiços. Ele recordou que "o presidente disse que Sergio Moro teria carta branca, que Paulo Guedes daria a palavra final na economia e que o Planalto nunca negociaria com partidos do centrão. Hoje, todo mundo sabe que não existe carta branca em política, que a palavra final é dada por quem tem o poder e que o centrão é poderoso."

Outro participante da reunião dos dirigentes estaduais do PL disse que Valdemar pode atender parcialmente aos desejos de Bolsonaro, rompendo em São Paulo o acordo que fez com o governador João Doria. Prevê o apoio do PL ao vice-governador Rodrigo Garcia, candidato do PSDB ao Palácio dos Bandeirantes. Mas Valdemar correria o risco de esvaziar o partido se exigisse de todos os diretórios estaduais a troca dos projetos locais pelo apoio cego a Bolsonaro.

Numa negociação política, pode-se exigir tudo do interlocutor, menos que acredite em fantasias.


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