Semana On

Terça-Feira 07.dez.2021

Ano X - Nº 470

Poder

Por que Bolsonaro tanto mente e não se constrange em mentir

Surto de ridículo atrairia mais dólares que mentiras do presidente

Postado em 19 de Novembro de 2021 - Ricardo Noblat (Metrópoles), Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

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Não é por ignorância ou compulsão que o presidente Bolsonaro mente tanto, é por necessidade. Atravessou quase metade do planeta para dizer em Dubai diante de uma plateia de investidores que a Amazônia é uma floresta úmida que não pega fogo.

Informa o Instituto Nacional de Pesquisa Espacial que foi batido mais um recorde de queimadas para o mês de outubro com 877 quilômetros de focos de desmatamento na Amazônia. Em alguns casos, a desflorestação precede as queimadas.

O ministro Paulo Guedes, da Economia, seguiu o exemplo do chefe e disse que o Brasil cresce acima da média mundial. A Organização para a Cooperação do Desenvolvimento Econômico estima que o Brasil deve crescer 2,3% no próximo ano, e o mundo, 4,5%.

Depois de visitar os Emirados Árabes Unidos, Bolsonaro passará pelo Bahrein e Catar. Sente-se à vontade naquele pedaço do mundo porque não corre o risco de enfrentar manifestações hostis, só a favor. São ditaduras conduzidas com mão de ferro.

Nas duas viagens anteriores, ele amargou as inconveniências da democracia na Itália e nos Estados Unidos. Em Roma, seus agentes de segurança bateram em jornalistas. Em Nova Iorque, de um ônibus, seu ministro da Saúde reagiu às vaias dando o dedo.

Democracia é uma dor de cabeça, e as trapalhadas cometidas por Bolsonaro são filmadas. Na reunião dos chefes de Estado das 20 maiores economias, ele ignorou o futuro chanceler da Alemanha e foi pisar no pé da atual chanceler, Angela Merkel. Que tal?

Onde quer que esteja, Bolsonaro fala preferencialmente para seus devotos, e isso é o que o motiva a deixar de lado a verdade e a verossimilhança e a mentir descaradamente. Pegaria mal para ele dizer lá fora o contrário do que diz aqui. Então, mente lá como cá.

Quem o ouve no exterior tem meios fáceis de saber quando ele mente. Quem aqui o ouve, nem sempre. As mentiras infames para uso interno o isolam dos demais governantes e emporcalham a imagem do Brasil, mas ele pouco liga. E assim será até o fim.

Surto de ridículo atrairia mais dólares que mentiras de Bolsonaro e Guedes

Bolsonaro e Paulo Guedes apresentaram um Brasil alternativo para investidores que foram ouvi-los em Dubai. Não é que o presidente e o ministro da Economia sejam mentirosos. A questão é que o país que eles descreveram não tem conexão com a realidade.

Na definição do poeta gaúcho Mario Quintana, a mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer. Bolsonaro e Guedes soaram nos Emirados Árabes como portadores de verdades que só existem nas suas memórias.

Bolsonaro repetiu a falácia segundo a qual a floresta amazônica, por ser úmida, não pega fogo. Chegou a dizer que mais de 90% da mata está preservada, "exatamente igual quando foi descoberto no ano de 1500."

Um político jamais deve dizer uma mentira que não possa provar. Em relação às queimadas e ao desmatamento da Amazônia, nem mesmo os dados oficiais do governo socorrem Bolsonaro. O pior é que não há investidor no planeta que desconheça o flagelo ambiental do Brasil.

Paulo Guedes acionou os seus bumbos para declarar que a economia brasileira cresce acima da média mundial, as reformas estruturantes seguem a pleno vapor e as privatizações estão acontecendo.

A certa altura, Guedes disse que o Brasil crescerá 5,5% neste ano. Nem a pasta que o orador dirige é tão otimista. O Ministério da Economia prevê crescimento de 5,3% para 2021. O mercado já estima um PIB abaixo dos 5%. Trata-se de mera correção estatística, pois a economia registrou em 2020 queda de 4,1%. O crescimento da economia mundial deve roçar os 6% neste ano.

Para 2022, espera-se um desempenho próximo de zero no Brasil, com risco de nova recessão. As reformas estruturantes de que falou Paulo Guedes não saem do lugar. Não há vestígio de privatizações.

Todo brasileiro gostaria de viver no Brasil ambientalmente responsável e de economia pujante que Bolsonaro e Guedes descreveram em Dubai. Mas os fatos não deixam de existir apenas porque o presidente o ministro da Economia os ignoram.

A realidade ainda é o único lugar onde um país pode obter a serenidade e a sinceridade necessárias para a resolução dos problemas que atormentam a sua gente e afugentam os investidores estrangeiros.

Há bilhões de dólares esperando para ser seduzidos no estrangeiro. Mentiras "sinceras" não interessam ao capital. Se um surto de ridículo se abatesse sobre Bolsonaro e Guedes, os investimentos choveriam no Brasil.

O governo não precisa resolver os problemas do dia para a noite. Mas é essencial reconhecer que eles existem.


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